segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Amai os vossos inimigos

 “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo, Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”.
Mt 5.43-48

Jesus, pela sexta vez consecutiva, dirige-se aos seus ouvintes dizendo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos”, e, como das vezes anteriores, ele corrige o ensino errados dos escribas e fariseus. Ocorre que estes interpretavam a ordem dada a nação de Israel em Lv 19.18, de maneira extremamente estreita, ensinando que o próximo era apenas o vizinho ou parente judeu, e considerando todos os estrangeiros como inimigos, que poderiam e deveriam ser odiados. O ensino dos escribas e fariseus, neste ponto, era tão radical que, chegava mesmo a considerar como um dever religioso, o ódio, aos estrangeiros e aos inimigos. Ocorre, porém, que, de acordo com o Senhor, o próximo seria qualquer pessoa que estivesse necessitada e ao alcance do nosso socorro (Lc 10.29-37), e que isto deveria se estender, inclusive, aos nossos inimigos. Ao ensinar os seus discípulos acerca do amor aos inimigos, Jesus deixa claro alguns princípios importantes, que não podem deixar de ser observados pela igreja. O primeiro destes princípios é que, aqueles que amam aos que os amam, não estão fazendo nada de mais. Não existe qualquer mérito em amar aquelas pessoas que nos amam. Amar apenas aqueles que nos amam, faz com que nos contentemos, em estar nivelados àqueles que são desonestos ou corruptos. É isto que Jesus afirma, ao comparar os que amam apenas os que os amam aos publicanos. Todos conheciam a fama de desonestos e corruptos dos coletores de impostos. A maioria deles cobravam muito mais do que deviam, e por isso eram odiados por toda a nação. Por este motivo ele pergunta: “Se amardes os que os amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?” A resposta lógica à pergunta de Jesus é que, assim como um publicano desonesto, não merece nenhuma recompensa por amar aqueles que o amam, também nós não merecemos nenhuma recompensa especial, por amar aqueles que nos amam. E, por que, perguntaríamos, não merecemos recompensa por amar os que nos amam? Pelo simples fato que amar aos que nos amam não envolve conversão, nem fé, nem obediência a Deus. A maior prova deste argumento é que, os desonestos publicanos tem a capacidade de amar aqueles que os amam. Eles amam seus familiares e seus amigos publicanos. Igualmente, todos os homicidas tem a capacidade de amar aqueles que os amam. Os ladrões, os políticos corruptos e os estupradores também tem a capacidade de amar aqueles que os amam. Se nos dispusermos a amar, apenas aqueles que nos amam, nos colocamos em igualdade de condições com estas pessoas, que não receberão nenhuma recompensa por amar os que os amam, porque este tipo de amor é de natureza carnal, terrena e animal, e pertence aquela espécie de atributo com que todos foram dotados pela criação natural. Apesar de sua natureza humana estar degenerada pelo pecado, estas pessoas ainda retem esta capacidade natural que lhes foi dada no ato da criação. Tal amor, portanto, não envolve fé, não envolve obediência a Deus. Para amar apenas aqueles que nos amam, não precisamos do poder do Espírito Santo, não precisamos nascer de novo, não precisamos ser novas criaturas, não precisamos ser crentes.

Jesus avança em seu argumento ensinando que o amor se manifesta em atos. Ele pergunta: “E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?” Aqui, o Senhor deixa claro, que os atos de amor dos seus discípulos precisam ser estendidos, também, aos que não fazem parte do povo de Deus. A saudação é um dos mais básicos e simples atos de amor que alguém pode realizar. Deixar de saudar alguém é algo tão grosseiro, que mesmo os mais ferrenhos adversários costumam saudar-se quando se encontram em público, a vista de outras pessoas. Devemos entender aqui, que o ato de saudar alguém é apenas uma ilustração simples, que o Senhor utiliza de modo genérico. O que devemos aprender com esta passagem é que nossos atos de amor não podem ficar restritos aos que são nossos irmãos, mas devem ser igualmente realizados em benefício de todos os necessitados, independente de quem sejam. É por isso que Jesus compara aqueles que saúdam apenas a seus irmãos, aos gentios. Os gentios, aqueles que não faziam parte do povo de Deus, também se saudavam mutuamente. E, novamente, a mesma lógica se impõe: fazer o bem apenas aos que são nossos irmãos ou amigos é um instinto natural, não depende de fé, de conversão e muito menos é um ato de obediência a Deus. A prova disto é que os gentios que não conhecem a Deus, o fazem regularmente, desde o princípio do mundo.

Os escribas e fariseus, com seu ensino equivocado acerca de quem era o próximo dos judeus, haviam tornado praticamente impossível à nação de Israel, a obediência daquele que Jesus afirmou ser o segundo maior de todos os mandamentos (cf. Mc 12.31,33 e Lv 19.18b). O povo judeu, enquanto nação teocrática, simplesmente falhou na sua missão de revelar a glória de Deus às outras nações. Quando estrangeiros peregrinavam em Israel, ou entravam em contato com o povo de Israel, em vez de serem impactados pela manifestação do amor de Deus, tudo o que viam e percebiam neste povo, era o ódio, a tudo e a todos, que não fossem de origem judaica. O povo de Israel não percebia, ou não aceitava, que a bênção de Abraão, da qual tanto se gloriavam, era uma bênção que incluía e objetivava alcançar todas as nações da terra (Gn 12.1-3).

Neste instante é necessário que façamos uma pausa em nossa análise das palavras de Jesus, para fazermos uma reflexão acerca da atuação da igreja. O povo de Israel falhou por não aceitar o mandamento de amar aqueles que eles definiam como seus inimigos: Os estrangeiros. Aqueles que não pertenciam a etnia judaica. E a igreja, tem amado aqueles que não fazem parte do seu rol de membros? Ou tem reservado seu “amor” apenas àqueles que são seus membros? Ou, pior do que isso, a igreja tem amado àqueles que não a amam? Ou somente tem amado àqueles que a amam ou bajulam? Muitas vezes tenho ouvido justificativas para a falta de ação da igreja, em favor dos que não fazem parte do seu rol de membros, como se eles não tivessem nada a receber da igreja. Ou, então, como se as pessoas para serem amadas e cuidadas pela igreja, tivessem primeiro que se tornar membros da comunidade eclesiástica, para depois serem amadas. Quantas vezes já ouvi a famosa desculpa: Fulano quer a bênção, mas não quer o dono da bênção, e, é por isso que não podemos fazer nada por ele. Devemos observar que Israel perdeu sua oportunidade história, como nação teocrática, por não assumir sua responsabilidade de ser canal das bênçãos de Deus às nações ao seu redor, e, hoje, com tristeza, vemos que muitas igrejas locais vivem apenas para si mesmas, e por isso estão perdendo a oportunidade de manifestar o amor e o poder de Deus, àqueles que estão em seu entorno. Muitas destas comunidades locais estão definhando, e muitas já morreram. Inúmeros templos estão a venda, em várias partes do mundo, pelo fato que as comunidades que ali se reuniam morreram, e ninguém mais frequenta aqueles templos, então as denominações a que pertencem, os colocam a venda, e muitos destes templos tem se transformado em boates, lojas de departamentos e até mesquitas muçulmanas. Como teria sido diferente a história destas comunidades, se seus membros tivessem entendido que amar aqueles que estavam do lado de fora, era a essência de sua missão. E, quanto a nós, temos compreendido que precisamos amar os nossos inimigos? Já chegamos a compreender a diferença entre um irmão e um inimigo? Esta pergunta é importante porque percebemos facilmente, no dia a dia, que existem pessoas que não conseguem amar nem mesmo aos seus irmãos na fé. E, pior do que isso, existem pessoas que parecem não amar nem mesmo aqueles que são seus amigos devotados. E como vemos isso? Todas as vezes que um amigo é desleal para com o outro, nesta deslealdade, está se manifestando a falta de amor exigido por Jesus.

Neste ponto precisamos perguntar: Como podemos amar os nossos inimigos? A ordem de Jesus é clara: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Precisamos reconhecer que a natureza humana destituída da graça de Deus é totalmente incapaz de obedecer a esta ordem divina. Graças a Deus, porém, que, em Cristo temos toda a graça necessária para obedecermos. O próprio Jesus nos garantiu isto (At 1.8). Isto é um privilégio que gera uma grande responsabilidade. Não temos quaisquer desculpas com que possamos nos escusar de obedecer a esta ordem. E se desobedecermos a esta ordem, isto significa que, desobedeceremos ao segundo maior de todos os mandamentos, e se desobedecermos ao segundo, isto implica no fato de desobedecermos também ao primeiro de todos os mandamentos pois, como diz o apóstolo João: “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4.20), e o apóstolo Paulo chega mais longe ao dizer que: “… toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14). Pode parecer surpreendente que o apóstolo Paulo resuma toda a lei com a citação de Lv 19.18b, que Jesus afirmou ser o segundo maior de todos os mandamentos da lei, e não com a citação do primeiro e maior de todos os mandamentos, que é amar a Deus acima de todas as coisas (Mc 12.30). Mas o que parece uma contradição, quando analisado mais atentamente, logo se torna compreensível, a luz do ensino do apóstolo João, no verso citado acima. O amor ao próximo é a única evidência verdadeira do amor a Deus. Só aqueles que verdadeiramente amam ao próximo, realmente, amam a Deus. Aqueles que afirmam amar a Deus, mas não demonstram amor ao próximo estão mentindo, enganando a si mesmos. Então, precisamos avaliar os nossos corações com sinceridade. Estamos amando os nossos inimigos? Se não estamos, por que não? Normalmente a resposta a esta última pergunta é uma só. O egoísmo, cultivado como uma virtude dentro de nós. Para amarmos os nossos inimigos temos que vencer a tentação de nos justificar a partir das nossas emoções. Nos sentimos atacados, intimidados ou ofendidos, e, a partir disso, julgamos que podemos nos justificar por não amar nossos inimigos. A verdade, porém, é que não podemos. Deus não aceita nenhuma de nossas desculpas. Sua ordem é clara: “Amai os vossos inimigos”.

Para conseguirmos amar aos nossos inimigos, precisamos compreender que nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra forças espirituais poderosas (Ef 6.12), das quais nossos inimigos são apenas vítimas. Precisamos vê-los como pessoas que, ainda que inconscientes do fato, estão sob a influência dos espíritos malignos, e que suas eventuais ações contra nós são instigadas por eles (1 Jo 5.19). Estas pessoas não tem esperança de salvação. Estão afastadas de Deus e dependem de nós para que venham a ser libertas, possam conhecer a Cristo e receber a salvação através da fé em Jesus (Rm 6.23). Só quando deixamos de nos ver como intocáveis, quando aceitarmos que não somos o centro do universo, e que não merecemos nenhum tratamento especial, poderemos ver tais pessoas pelo prisma através do qual o Senhor Jesus as vê: Seres humanos necessitados da graça de Deus. A maioria de nós, se ofende facilmente, e a partir dai, resolve tratar os supostos ofensores como pessoas indignas do nosso amor e muito menos das nossas orações. Tenho conhecido inúmeros membros de igreja que, quando aconselhados sobre a necessidade de amar aos inimigos, afirmam admirar o que eu digo, mas, que eles ainda não chegaram a este estágio de crescimento espiritual. Afirmam que se Deus quiser que eles cheguem a amar seus inimigos ele terá que trabalhar bastante para mudá-los. Quero dizer que esta atitude não passa de uma tentativa de se esquivar da simples obediência à ordem divina. Quero ensinar-lhes uma verdade simples, porém, amplamente ignorada. Outras pessoas podem nos agredir, podem faltar com o respeito para conosco, porém, ninguém é capaz de nos ofender. Ninguém tem o poder de nos ofender. Ficar ofendido ou não é uma escolha minha. Nenhuma outra pessoa tem o poder de tomar esta decisão por mim. Só eu posso escolher ficar ofendido. E, na maioria esmagadora dos casos, não vale a pena. Jesus foi preso injustamente, foi cruelmente espancado, foi insultado com os piores impropérios e finalmente, foi crucificado, em nenhum momento, porém, percebemos o salvador se sentido ofendido. Na cruz, em vez de demonstrar estar ofendido com seus algozes, ele demonstrou sua preocupação com o bem-estar espiritual dos mesmos, ele orou ao Pai dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34). Você pode alegar: Mas, Jesus é Deus, eu não tenho a mesma capacidade. Bem, a isto podemos responder que Estevão, era um homem como qualquer um de nós, e enquanto era assassinado a pedradas, por causa do evangelho ele também não se mostrava ofendido com seus assassinos, ele também demonstrou sua preocupação com o bem-estar dos seus inimigos ele orou a Deus, dizendo: “Senhor, não lhes imputes este pecado!” (At 7.60). Neste momento, quero pedir licença a igreja para citar uma situação que me ocorreu recentemente como ilustração do que estou dizendo. Alguns dias atrás eu estava esperando minhas filha, do lado de fora do portão da escola, quando observei que, do lado de dentro, no pátio, um adolescente de uns 13 ou 14 anos, maltratava seu irmão menor de uns 9 anos de idade. Depois vários chutes e socos que acabaram por machucar o menino menor, chegando a derrubá-lo no chão, em uma queda que poderia ter quebrado seus dentes, em função da posição em que o menino caiu, finalmente, uma funcionária da escola interveio e determinou que os mesmos saíssem do pátio e fossem para casa. O adolescente, ao sair do espaço escolar, recomeçou a sessão de espancamento do menino menor. Resolvi intervir, uma vez que agora estavam na minha frente, na calçada. Aproximei-me e pedi ao menino maior que deixasse o pequeno em paz. Aquele adolescente se virou para mim, e vermelho de ódio, berrou palavrões e insultos com uma violência verbal assustadora, e virando-se fugiu o mais rápido que pode. Ao perceber que seria inútil qualquer tentativa de diálogo com o mesmo, entrei na escola, procurei a diretora pedagógica e solicitei que ligasse para os pais, a fim de que os mesmos providenciassem para que algum adulto viesse ao encontros daqueles meninos, pois, naquele momento, eu temia pela condição física do menino menor. Avaliando a situação a posteriori, posso dizer que, aquele adolescente me insultou e logicamente, me faltou com o respeito. Estas duas ações foram realizadas por este jovem. São ações que aconteceram fora de mim, embora direcionadas a mim. Mas ele não me ofendeu. Só eu posso decidir se me sinto ofendido ou não. Minhas emoções estão dentro de mim, não podem ser acessadas por alguém do lado de fora. Cabe a mim escolher a reação adequada a situação. Isto se chama responsabilidade de escolha. E, no caso específico daqueles que se dizem filhos de Deus, a reação ordenada pelo senhor é: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. No momento em que aquele jovem adolescente teve aquela reação, eu percebi o quanto de dor havia naquela vida, o quanto aquele jovem precisava de atenção e ajuda, e meu coração se encheu de ternura por ele. Naquela noite orei por ele e por sua família, e posso dizer que a serenidade emocional, e a paz que isto traz a quem o pratica, não tem preço.

Neste ponto é importante observar que amar não significa gostar. Eu por exemplo não conheço aquele adolescente e, logicamente, não posso dizer que gosto dele. É perfeitamente lícito não gostar daqueles que não gostam de nós. E logicamente não precisamos gostar dos nossos inimigos. Em que, portanto, consiste o amor aos nossos inimigos? O apóstolo Paulo nos ajuda a compreender isto quando orienta a igreja romana acerca da necessidade de amar, ele diz: “ … se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.20-21). Esta orientação nos esclarece acerca do significado do amor aos inimigos. Amar aos inimigos não é diferente de amar aos amigos. Amar significa fazer o bem. Se temos um irmão com fome naturalmente somos inclinados a socorrê-lo dando-lhe de comer. Se vemos um filho com sede, por amor, naturalmente somos inclinados a dar-lhe de beber. Amar aos inimigos é fazer exatamente a mesma coisa, mesmo que no caso destes, não esteja presente o ato de gostar.

A segunda ordem de Jesus tem a ver com a necessidade espiritual dos nossos inimigos. Ele ordena: “orai pelos que vos perseguem”. A oração é a única arma espiritual que podemos utilizar na batalha contra as forças espirituais que dominam aqueles que nos atacam. O apóstolo Paulo nos ensina que embora nossas armas não sejam carnais, elas são poderosas em Deus (2 Co 10.4). É com estas armas – a oração e a Palavra de Deus – que nós temos que lutar. É inútil lutar no plano físico se no plano espiritual estivermos indolentes. As batalhas terrenas são vencidas ou perdidas no plano espiritual. Se orarmos pelos que nos perseguem, se pedirmos com insistência ao Senhor da igreja que os liberte das garras dos nossos verdadeiros inimigos espirituais (1 Jo 5.19), estaremos nos tornando verdadeiros filhos de Deus.

Aqui parece haver uma contradição no ensino de Jesus. Ele nos diz: “para que vos torneis filhos de vosso Pai celeste”. Poderíamos perguntar: Já não nos tornamos filhos de Deus quando cremos? O apóstolo João não ensinou que: “… a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12). Queridos, quero dizer que a contradição é apenas aparente. É verdade que, quando cremos, nos tornamos filhos de Deus. Isto do ponto de vista legal. Ao crermos em Jesus, e reconhecê-lo como Senhor de nossas vidas, fomos legalmente justificados diante de Deus (Rm 5.1; Rm 8.1). A partir deste momento somos legalmente seus filhos. Mas, após a conversão, em um primeiro momento, continuamos a ser pecadores totalmente a merce do poder do pecado que habita em nós. A justificação é a primeira fase da obra do Espírito Santo em nós. Ele nos convenceu do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), e quando nos arrependemos, e depositamos fé em Jesus como Senhor de nossas vidas, fomos salvos. Fomos libertos da culpa do pecado. Neste momento nos tornamos, legalmente, filhos de Deus, mas ainda somo pecadores e nossas vidas estão totalmente envolvidas pelos padrões do mundo caído em pecado. Deixe-me ilustrar isto com uma situação bastante comum em regiões de praia. Se uma pessoa cai de um barco, e, por não saber nadar começa a se afogar, logo alguém pula na água e depois de alguns minutos consegue retirá-la da água, aplica-lhe os procedimentos adequados de modo que depois de alguns minutos ela volta a respirar. Neste momento ela está salva, mas, seu corpo ainda está molhado, ela ainda está com seu corpo dolorido pelo excesso de esforço realizado, seu pulmão talvez precise ser aspirado, sua garganta dói, seus cabelos estão todos desgrenhados e naturalmente, ela precisará de cuidados extras até que volte a ter sua vida normalizada. Assim é a obra do Espírito Santo em nossas vidas. Sua obra não termina com a justificação. Imediatamente após crermos em Jesus e nos entregarmos sem reservas aos seus cuidados, estamos salvos, mas, ainda estamos dominados pelos paradigmas da velha natureza, nossos hábitos pecaminosos ainda são reais, ainda vivemos sob o poder do pecado, precisamos então fazer morrer a nossa velha natureza e nos revestir do novo homem (Cl 3.1-17). É por isso que imediatamente, após a nossa justificação, o Espírito Santo inicia em nós a obra da santificação, que é a obra através da qual o Senhor Jesus vai, pouco a pouco, nos libertando do poder do pecado. Santificar-se nada mais é do que obedecer a vontade de Deus, ou seja, obedecer aos seus mandamentos. O processo de santificação nada mais é do que o processo, através do qual, o Espírito do Senhor que habita em nós nos ensina a obediência à sua vontade revelada. É por esta razão que Jesus não nega que já somos filhos de Deus, pelo contrário, ele diz que o objetivo é nos tornar filhos de nosso Pai celeste. Observe que o Pai celeste já é nosso. Apesar disso devemos obedecer a ordem de amar aos nossos inimigos, e orar pelos que nos perseguem, para que nos tornemos filhos de nosso Pai celeste. Como assim? Simples. Já somos filhos de Deus do ponto de vista judicial. Agora devemos nos tornar filhos de Deus do ponto de vista moral. A palavra grega (ginomai), aqui traduzida como “vos torneis” significa, vir a existência, começar a ser, receber a vida, erguer-se, aparecer na história, aparecer no cenário. Ou seja, aquilo que é real do ponto de vista legal, agora deve começar a ser real do ponto de vista moral, precisa vir a existência, precisa aparecer na história, precisa se tornar visível no cenário da existência humana. Os filhos devem refletir o caráter do Pai. É por isso que o Senhor Jesus nos dá o exemplo da ação do Pai como padrão a ser seguido: “… Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”. Deus, o Pai, apesar de não ser amado por muitas pessoas, e até mesmo, apesar de ser odiado por tantos outros, abençoa tanto os que o amam como aqueles que não o amam. Ele quer e espera que seu exemplo seja seguido por nós. É a este, tornar-se filhos de nosso Pai celeste, que o apóstolo Paulo se refere quando diz aos irmãos de Filipos: “... desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor” (Fp 2.12c). Se a primeira parte da obra que o Espírito Santo realiza em nós foi efetivamente realizada, certamente ele realizará a segunda parte também (Fp 1.6). Isto significa que todos os verdadeiros crentes estão, ou serão, capacitados a amar os seus inimigos, e orar pelos que os perseguem. Se falharmos nestes deveres e não nos sentirmos em falta diante de Deus, isto é sinal de que alguma coisa está errada com nossa profissão de fé.

Jesus termina esta passagem dizendo: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”. Aqui precisamos perguntar: Que perfeição é esta que Jesus exige de nós? Certamente não é a perfeição moral, nem espiritual, pois, neste caso nenhum de nós jamais conseguiria obedecê-lo. O apóstolo Paulo mesmo lutava contra suas imperfeições e nos deixou seu testemunho a respeito (Rm 7.15-20). A palavra teleios, aqui traduzida como perfeitos tem o sentido de algo que é levado ao seu fim, finalizado, que não carece de nada necessário para estar completo. Ou seja, durante esta vida, perfeito, diante de Deus, é aquele que cumpre o propósito para o qual foi criado. Ou seja, nos tornamos perfeitos quando nós imitamos a Deus (Ef 5.1-2), e vivemos segundo os propósitos para os quais fomos salvos. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.


Quero finalizar esta mensagem lembrando que, se, por um lado o apóstolo Paulo diz que todo o conteúdo da lei se cumpre no ato de amar ao próximo como a si mesmo (Gl 5.14), o Senhor Jesus nos informa que seremos julgados, não pelo cumprimento do primeiro e maior dos mandamentos, mas, pelo cumprimento ou não, do segundo (Mt 25.31-46). O amor ao próximo se manifesta em ações que demonstram o cuidado de Deus pelo ser humano em suas necessidades diárias, e Jesus nos ensina que próximo é qualquer pessoa que esteja necessitada ao nosso redor, mesmo que este seja um inimigo (Lc 10.29-37). Por isso não há qualquer desculpa para deixarmos de amar quem quer que seja. Amor é um substantivo, porém, amar é verbo, ação. Os critérios que Jesus estabelece para julgar a fé dos que se dizem cristãos, com vistas a admissão no reino eterno, são tão simples que ninguém poderá alegar falta de condições para cumpri-los. Um prato de comida, para alguém faminto; um copo de água, para um sedento; uma muda de roupa, para alguém que esteja nu; uma visita para um enfermo, ou um preso; uma atitude de hospitalidade, para com um estrangeiro. Aqui precisamos dar uma palavra de esclarecimento, Jesus não está dizendo que se alguém realizar cada uma destas ações uma ou duas vezes na vida, estará salvo. Ele está dizendo que o estilo de vida dos que serão salvos, se caracterizou pelo socorro aos necessitados deste mundo, bem como que, o estilo de vida dos não salvos, se caracterizou pela indiferença a dor e aos sofrimentos dos mesmos necessitados. Ou seja, aqueles que verdadeiramente foram justificados pela fé em Jesus Cristo, jamais deixarão de obedecer ao dois maiores mandamentos da lei de Deus. E, o amor a Deus, a quem não vemos, irá se manifestar no amor ao próximo, a quem vemos e cujas dores compartilhamos. Quero finalizar esta reflexão com algumas perguntas que me parecem importantes neste momento: Quando o dia do grande julgamento chegar, de que lado você acha que estará? Do lado direito ou do lado esquerdo? Com base em que você tem esta opinião? Você já reparou que, na lista de Jesus, não há nada daquilo que fazemos quando estamos reunidos para celebrar a Deus? Não há nesta lista nada que nós fazemos normalmente dentro do templo? Você percebeu que Jesus não diz que alguém poderá ser salvo por cantar louvores? Ou por frequentar os cultos? Ou por ter feito profissão de fé? Ou por pregar mensagens bíblicas? Todas estas coisas são importantes, mas nenhuma delas se encontra na lista de Jesus. Caso alguma destas perguntas o tenha deixado preocupado, o que você pode fazer a partir de hoje, para ter a certeza de que estará do lado direito de Jesus? Queridos, a pior de todas as atitudes que poderíamos ter, é ignorar a voz do Senhor. Temos o dever de amar os nossos inimigos porque, do ponto de vista de Deus, eles são tão próximos quanto quaisquer outras pessoas de nossas relações pessoais. Se tivermos dificuldades para obedecer a estas ordens, nos humilhemos diante de Deus, confessemos nossas fraquezas e pecados, e busquemos no Senhor, a força necessária para obedecermos. Que Deus nos abençoe, e nos capacite a viver de tal forma que nossas vidas o glorifiquem de fato. Amém.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Amai-vos uns aos outros - Mt 24.12

“E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos” (Mt 24.12)

O maior de todos os perigos que, em todos os tempos, já rondaram e já afligiram a Igreja, não tem qualquer relação com perseguição política ou religiosa, independente de quão duras tenham sido tais perseguições ao longo dos séculos. O maior de todos os flagelos que já afetou, e ainda afeta grandes segmentos da igreja de Cristo, é o esfriamento do amor entre aqueles que pertencem à igreja institucional, mas não se apercebem de sua própria frieza em relação às necessidades do Corpo de Cristo, e do mundo ao seu redor.

Vivemos tempos difíceis. Milhões de pessoas congregam em milhares de templos, de milhares de denominações diferentes, e praticando milhares de conceitos igualmente diferentes de “fé”, todos estes, supostamente cristãos. Quando, porém, analisamos os resultados dessas manifestações de fé, não percebemos nenhum impacto positivo em nossa sociedade. A humanidade segue seu rumo cada vez mais secularizada, os meios de comunicação estão saturados de informação negativa, daqueles que se auto intitulam representantes do povo evangélico, nas diversas mídias em que se disputam a preferência deste público, uma vez que, não existem quaisquer evidências de que não evangélicos assistam quaisquer destes programas, que são mantidos unicamente para atender aos desejos e ambições, totalmente inconfessáveis, de seus idealizadores.

E, por que, podemos nos perguntar, a igreja moderna não exerce praticamente nenhuma influencia positiva sobre aqueles que vivem ao seu redor? Por que, apesar de pregarmos inúmeras mensagens falando do amor de Deus, a maioria das pessoas ao nosso redor simplesmente não demonstra qualquer interesse em nossa mensagem? Será que as pessoas já não se interessam pelo tema do amor? É claro que não! A prova disso é que as produções televisivas e cinematográficas que tratam desses temas faturam milhões de dólares todos os anos. O ser humano nasceu com a necessidade de amar e de ser amado. O grande problema é que infelizmente, quando a sociedade ao redor da igreja, a observa, não percebe os sinais do amor de Deus se manifestando entre aqueles que dizem ser membros do Corpo de Cristo. Para sermos minimamente honestos, quando falamos de igrejas em termos denominacionais, a triste realidade que podemos constatar é que, as neopentecostais então lotadas de pessoas ávidas por dinheiro, luxo e uma vida farta de bens materiais, e toda a sua mensagem visa convencer as pessoas de que se investirem bastante, vão lucrar bastante. A teologia da prosperidade, ensinada nestas denominações, não tem tempo nem lugar para o amor a Deus, nem para o amor ao próximo, somente para o lucro e o bem estar dos seus aficionados. No que diz respeito as igrejas pentecostais históricas, estas ainda não conseguiram se desvencilhar do legalismo que, já no tempo de Jesus, excluía quase que totalmente a chama do amor verdadeiro, pois, todo legalista acaba amando mais a denominação e suas doutrinas do que as pessoas, que são a verdadeira igreja. E, finalmente, quanto às denominações históricas, a maioria das igrejas locais encontra-se em franco declínio numérico, uma vez que suas divisões internas as tornam incapazes de atrair novos membros, pois, na maioria das vezes, quando alguém começa a frequentar uma dessas igrejas, muito antes de ter conseguido compreender as verdades essenciais do evangelho de Jesus Cristo, essa pessoa já tomou conhecimento de muitos dos supostos problemas desta igreja local. Muitas vezes o que acontece ao final de algum tempo, é que esta pessoa está vacinada contra o evangelho, decepcionada ela afasta-se da referida igreja, pois, em vez de ser envolvida por um ambiente de amor ao começar sua vivência eclesiástica, ela acabou envolvida em um ambiente de intrigas e desamor ao próximo, no qual a maioria das pessoas com quem conviveu, tentou simplesmente conquistar sua lealdade, unicamente para impedi-la, de dedicar esta mesma lealdade a outros membros, supostamente “errados”, contra os quais, “deveria” manter-se alerta. Esta é a grande tragédia de muitas das igrejas históricas. As pessoas simplesmente não se amam, e não se dão conta do prejuízo espiritual que isso lhes acarreta. Habituaram-se a viver sem o amor sincero umas das outras, habituaram-se a fingir que se amam, sem, de fato, se amarem, consequentemente, habituaram-se a viver sem o poder de Deus, sem as manifestações da graça de Deus, sem verem os milagres de Deus, sem ver conversões reais e, a maior de todas as tragédias, começaram a acreditar que a vida cristã é assim mesmo. As igrejas estão morrendo, muitas já estão mortas, e poucos estão se apercebendo da verdade.

Jesus previu tal situação. Foi por isso que, nos seus momentos finais com eles, antes de sua prisão e paixão, disse-lhes: “Novo mandamento vos dou: que vos amei uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (Jo 13.34). Aquele era um momento especial no ministério terreno de nosso Senhor Jesus. Ele estava reunido com seus discípulos, e lhes dava as instruções finais antes de ser preso. Era um momento único, solene, no qual o mestre tinha a preocupação de preparar seus seguidores mais íntimos para os eventos apavorantes, que se seguiriam à sua, iminente, prisão. Foi neste contexto, de enorme intensidade emocional, que ele disse aos seus discípulos que lhes dava um novo mandamento. Na verdade, em certo sentido, não era exatamente um mandamento novo. Jesus, já havia orientado seus discípulos a se amarem mutuamente, inúmeras vezes. Já havia, até mesmo, ordenado que eles amassem também os seus inimigos (Mt 5.44). Portanto, o mandamento de amar, em si, não é um mandamento novo. O que há então, de novo, no mandamento dado por Jesus? Em primeiro lugar, precisamos entender que quando Jesus pronunciou estas palavras, ele afirmou estar dando um mandamento. Portanto, somos obrigados a nos amar, sob pena de viver em desobediência a uma ordem direta do Senhor da Igreja. Amar não é uma opção entre outras, é uma obrigação imperiosa da vida cristã.

Em segundo lugar, Jesus acrescenta um qualificativo a ordem de amar. Ele diz: “… assim como eu vos amei”. Este é o aspecto novo no mandamento de Jesus. Esta é a novidade que Jesus apresenta aos seus discípulos, e a qual, eles precisavam prestar atenção. Estas palavras significam que não podemos estabelecer os critérios para expressar o nosso amor. Estes critérios foram estabelecidos pela forma como Jesus viveu e amou. Existem pelo menos quatro aspectos estabelecidos pela forma de viver e amar do Senhor Jesus, que devem nortear a nossa maneira de amarmos uns aos outros. O primeiro deles é que ele nos amou primeiro. Jesus não esperou que nós merecêssemos seu amor. Ele tomou a iniciativa de nos amar quando nós ainda eramos seus inimigos (Rm 5.10). Várias décadas depois de ouvir este mandamento, dos lábios do próprio Jesus, o apóstolo João explicou aos seus leitores: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4.19). Como crentes em Jesus Cristo, temos que abandonar a ideia de que as pessoas precisam ser aprovadas pelos nossos padrões e exigências, a fim de que nos disponhamos a amá-las. Temos que tomar a iniciativa de amar, e crer que, só a nossa total obediência honra a vocação que recebemos para gozar a vida abundante, que Jesus veio trazer. O segundo destes aspectos é que ele nos amou incondicionalmente. O amor de Jesus por nós nunca foi condicionado ao fato de atendermos às suas expectativas. No momento em que ele lhes ordenou que se amassem como ele os amava, ele sabia que seus discípulos, em poucas horas, o abandonariam. Ele sabia que Judas o entregaria às autoridades judaicas. Ele conhecia a fraqueza de Pedro, e sabia que, em breve, o mesmo negaria conhecê-lo. Nada disso, porém, afetou a capacidade de Jesus de amar seus discípulos. Seu amor não dependia das circunstâncias. Ele os amava pelo que Ele era (1 Jo 4.8,16), e não pelo que eles eram ou faziam. O terceiro destes aspectos é que ele nos amou altruisticamente. Jesus, em todo o tempo de convívio com seus discípulos, jamais se preocupou consigo mesmo. Durante todo seu ministério, sua motivação e ação sempre buscavam a glória do Pai e o bem-estar dos seus discípulos. Esta é, provavelmente, uma das áreas onde mais fracassamos em nossa obrigação de amar. A maior parte do tempo pensamos apenas em nossos próprios interesses. Dificilmente, encontraríamos em nosso meio, muitos exemplos de preocupação com as necessidades das pessoas ao nosso redor. Parece que nós, enquanto igreja, só nos sentimos sensibilizados pelas dores e carências alheias, em momentos de grandes tragédias. Quando os meios de comunicação nos mostram milhares de desabrigados em nossas proximidades, então,  por um breve período de tempo, nos unimos para doar algumas das coisas que estão sobrando em nossas casas. Isto, porém, de modo algum significa que a situação doméstica tenha mudado. O clima de desamor dentro do ambiente eclesiástico, continua sendo percebido pelos de fora, que, quase sempre, coerentemente, continuam preferindo manter-se afastados da igreja. O apóstolo Paulo, tratando deste assunto, nos orienta a amar-nos uns aos outros com amor fraternal: “preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.10b). E, o apóstolo João chega ao ponto de nos dizer com toda clareza: “Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1 Jo 3.18). O que o apóstolo João está querendo corrigir com suas palavras é a prática, ainda hoje comum, de afirmar com a boca, um amor que é negado com as atitudes e as escolhas do dia a dia. Precisamos parar de apenas dizer que amamos uns aos outros, e começar a ter atitudes de amor verdadeiro em relação aos que estão ao nosso redor. Pedro, ao orientar seus leitores, coloca as coisas nos seguintes termos: “... amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente” (1 Pe 1.22b). Ora, amar alguém ardentemente, vai bem além de dizer simplesmente às pessoas ao nosso redor que as amamos, sem nos comprometer com o bem estar das mesmas. Amar-nos ardentemente exige compromisso mútuo, exige participação na vida do outro e participação do outro em nossas próprias vidas. E, por último, o quarto aspecto estabelecido pelas palavras de Jesus, é que ele nos amou sacrificialmente. A maior barreira ao amor verdadeiro, é o egoísmo, sempre verdadeiro. Amor não é um sentimento, que surge no coração e que nos arrebata para fazermos coisas legais uns para os outros. Amor é uma escolha. Escolhemos amar e escolhemos não amar. E, quando escolhemos amar, escolhemos os limites até onde admitimos amar. É por isso que, quando um ente querido, como um filho ou filha, estão em perigo, nos expomos até ao risco de morrer para tentar salvá-los, e, quando alguém que conhecemos apenas superficialmente, está correndo um risco semelhante, na maiorias das vezes não nos dispomos aos mesmos sacrifícios. Este é um exemplo extremo, citado apenas para tornar mais claro este ponto. O amor com que fomos amados, não tinha nenhum limite em Jesus (Jo 13.1). Não havia limites nem quanto a intensidade, nem quanto a extensão temporal, e, portanto, o amor com que temos o dever de amar uns aos outros, não pode estar limitado por nenhuma de nossas conveniências pessoais. Ao tratar desta questão com os irmãos de Corinto, o apóstolo Paulo o faz nos seguintes termos: “Para vós outros, ó coríntios, abrem-se os nossos lábios, e alarga-se o nosso coração. Não tendes limites em nós; mas estais limitados em vossos próprios afetos. Ora, como justa retribuição (falo-vos como a filhos), dilatai-vos também vós” (2 Co 6.11-13). A igreja, nos dias de hoje, habituada como está, às facilidades da vida moderna, tem dificuldade em aceitar a ideia de sofrimento e sacrifício. E, como amar inclui a ideia de renúncia, muitos, simplesmente tem deixado seus corações esfriarem, e solenemente, ignoram o mandamento de amar ao próximo como a si mesmos (Mt 22.39), tratando este mandamento com indiferença, como se ele não tivesse a importância que lhe foi atribuída pelo Senhor Jesus (Mt 22.39). Entretanto, a fé cristã está indissoluvelmente associada ao sofrimento e ao sacrifício. Se nossa ideia de fé cristã exclui a possibilidade de termos de sofrer, e, dessa forma, nos autoriza, a deixarmos de amar quando isto resultar em exigência de sacrifício pessoal, renúncia ou eventual sofrimento, certamente, esta não é a fé bíblica, ensinada por Jesus, e praticada pelos apóstolos e pelos discípulos da igreja primitiva.

Finalmente, precisamos entender que nossa credibilidade como Corpo vivo de Cristo, depende do fato das pessoas de fora da igreja, reconhecerem nossa sinceridade como discípulos de Jesus Cristo de Nazaré. E, de acordo com Jesus: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35). Aqui é importante observar que, em nenhum lugar, Jesus afirmou que seus discípulos seriam reconhecidos pelo fato de fazerem milagres, ou de expulsarem demônios, ou de realizarem curas espetaculares, ou mesmo por pregarem o evangelho. Todas estas coisas poderiam ser, foram, e continuam sendo realizadas pelos crentes ao longo dos séculos, mas nenhuma delas jamais é mencionada como fator identificador de alguém como discípulo de Jesus Cristo. Aliás, muitos que têm praticado todas estas coisas, serão rejeitados por Jesus no dia do grande julgamento (Mt 7.21-23), e o motivo é um só: Ele afirma jamais tê-los conhecido. Ou seja, jamais foram reconhecidos nos céus como discípulos de Cristo, embora fossem conhecidos na terra, como membros da igreja de Cristo.

Neste ponto precisamos reconhecer que esta maneira de amar não é natural em nós. Nossa natureza, caída em pecado, não nos leva naturalmente a prática deste amor divino. Jesus sabia disso. E por isso mesmo ele prometeu que não deixaria seus discípulos órfãos (Jo 14.18). Ele prometeu que voltaria para eles, e naquele, momento, esta promessa estava relacionada a vinda do seu Espírito, o Consolador (Jo 16), que iria guiar a Igreja e conceder-lhe o poder para viver em novidade de Vida. É a isto que Paulo se refere quando ele diz: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20); Os apóstolos ouviram o mandamento, mas naquele instante não estavam capacitados a obedecê-lo. Depois da descida do Espírito Santo, no dia do Pentecostes, eles ficaram cheios do poder do alto e revestidos deste poder, foram capazes de amar de tal forma que os habitantes de Antioquia, pejorativamente começaram a chamar os discípulos de cristãos, reconhecendo que eles haviam estado com Cristo (At 11.26).

Neste momento precisamos reconhecer duas coisas fundamentais: A primeira é que temos o dever de amar. A segunda é que sem a graça de Deus, jamais conseguiremos amar da maneira certa. Somente Jesus vivendo em nós, nos capacita a amar como ele nos ordenou que amássemos (Fp 2.13).

As pessoas precisam nos reconhecer, não necessariamente, como membros da Igreja Presbiteriana Independente. Provavelmente, muitos daqueles com quem nos relacionamos talvez nem conheçam nossa denominação, sua forma de organizar-se, suas doutrinas específicas, etc. Mas todos, depois de algum tempo de convivência conosco, precisam ter motivos para reconhecer que somos discípulos de Jesus. E, a promessa de Jesus é que isto acontecerá se nos amarmos uns aos outros como ele nos amou. Não podemos amar a partir dos nossos critérios, e sim a partir do critério vivido e exigido por Jesus. O critério estabelecido é simples: como ele nos amou! Queridos irmãos, conhecer esta verdade é um privilégio imenso, porque nos livra do risco de sermos condenados por causa da ignorância. O fato de conhecê-la, porém, nada nos aproveitará se não a colocarmos em prática. É por isso que o apóstolo Tiago nos exorta a sermos praticantes da Palavra e não somente ouvintes (Tg 1.22-25). Examinemo-nos a nós mesmos (2 Co 13.5), sondemos o nosso coração com honestidade, e busquemos socorro na graça de nosso Senhor e Redentor Jesus, para que possamos verdadeiramente amar uns aos outros como ele nos amou, e assim, podermos ser reconhecidos pelos que estão ao redor de nós, como seus verdadeiros discípulos. Amém.

sábado, 2 de novembro de 2013

Só Jesus Cristo edifica a sua Igreja

 “Também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Mt 16.18

Quando falamos de igreja, a imagem que normalmente nos vem a mente é a de um templo, com um nome específico que identifica uma determinada instituição religiosa. Esta, porém, é uma noção equivocada acerca daquilo que a Bíblia Sagrada chama de igreja. A palavra igreja, na verdade não designa um local, ou uma construção, nem mesmo uma instituição, mas um grupo de pessoas que amam e servem a Jesus Cristo como seus discípulos. Este é o conceito ao qual Jesus se referiu quando afirmou que iria edificar a sua igreja. É importante destacar que ele não disse que iria edificar suas igrejas mas a sua igreja. Apenas uma única igreja. Só quando começarmos a pensar na igreja como sendo um grupo de pessoas, reunidas pelo poder do Espírito Santo, e que se caracterizam pelo amor a Deus acima de todas as coisas, e ao próximo como a si mesmas. é que teremos como entender certas metáforas que jamais poderíamos compreender enquanto vemos a igreja como uma simples instituição, ou um templo, construído de tijolos. Por exemplo: A igreja é comparada a uma noiva, que deve se preparar para encontrar-se com seu noivo, Jesus Cristo. Esta é uma metáfora impossível de ser compreendida a menos que cheguemos a entender que a igreja são as pessoas, e não o local, onde as pessoas se reúnem.

A partir desta verdade acerca da constituição orgânica da igreja, temos que entender que a edificação da igreja não acontece quando cuidamos das coisas da igreja, como o templo, seu patrimônio ou mesmo de suas tradições históricas. A edificação da igreja só acontece quando cuidamos das pessoas que se reúnem em nome de Jesus Cristo, e as quais estamos ligados pela ação do Espírito Santo de Deus. Infelizmente a igreja de Jesus Cristo encontra-se fragmentada por inúmeras divisões e lutas internas, que tem minado sua capacidade de testemunhar, e roubado sua alegria para celebrar a presença de seu Senhor.

É por isso, que precisamos nos voltar para a revelação de Deus, para que possamos entender como Deus quer promover o desenvolvimento saudável de sua igreja. Existem algumas verdades que são fundamentais e que nós não podemos ignorar.

A primeira destas verdades que nos é revelada no texto sagrado é que só Jesus Cristo é o edificador de sua igreja. Quando ele diz: “Eu edificarei a minha igreja...”, estas palavras excluem qualquer outro edificador. Precisamos perceber que somos apenas cooperadores de Deus (2 Co 6.1; 3 Jo 1.8), e como tal, nossa missão e ação através da igreja deve se pautar pela obediência as suas ordens que são claras. Nosso papel é o de servos e não de senhores. O rei Salomão, que edificou o templo do Senhor em Jerusalém, refletindo acerca da obra que fazia chegou a conclusão que: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Sl 127.1). Ora, se tal conclusão era verdadeira no que diz respeito a construção de um templo para o povo de Deus se reunir, quanto mais verdadeira não será, na edificação da casa espiritual onde o Espírito do Senhor habita, a sua igreja, a noiva de Cristo. Precisamos entender que Jesus está edificando um santuário para habitação da Trindade Santa. É por isso que o apóstolo Paulo, escrevendo aos membros da igreja dos Coríntios, que se encontravam divididos em facões, os repreende dizendo: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado”. (1 Co 3.16-17).

Queridos, Paulo ao escrever aos Coríntios falava do perigo de as divisões internas da igreja virem a causar a sua destruição, e alerta para o risco que isso implicava para os próprios membros daquela igreja. Como igreja, coletivamente reunidos sob os olhos de Cristo, somos um santuário sagrado, e ninguém pode causar dano ao Corpo de Cristo, impunemente. É por isso que temos que amar a igreja, entendendo que a igreja não é a denominação, mas é o grupo de pessoas com quem convivemos, e que foram reunidas por Cristo em um mesmo ambiente eclesiástico. Quem não ama as pessoas ao seu redor, por mais que diga que ama a igreja, na verdade está enganando seu próprio coração.

As divisões surgem nas igrejas porque as pessoas brigam tentando impor sua vontade uns aos outros. Destas brigas surgem ressentimentos que, sendo cultivados, geram divisões internas que tiram da igreja o seu poder para testemunhar e para edificar aqueles que já se encontram em seu meio. Ora, uma igreja edificada sobre o fundamento da vontade humana certamente não é uma igreja cheia do poder do Senhor Jesus Cristo. E é fácil perceber quando isto está acontecendo, porque onde a vontade humana impera no lugar da vontade de Deus, o poder de Deus se torna apenas uma lembrança de tempos passados. Quando a vontade de Deus está reinando, a igreja se torna viva, poderosa, operosa, e produz fruto abundante que glorifica a Deus (Jo 15.8). Queridos, se uma igreja não está produzindo fruto, ela simplesmente não está glorificando a Deus, por mais que sejam lindos os cânticos que são entoados no culto de domingo a noite.

Podemos ver um claro exemplo dessa verdade na história de Israel. A nação de Israel frequentava o templo com regularidade. Sacrifícios de animais eram oferecidos diariamente, de acordo com a prescrição da Lei de Moisés, o ministério dos levitas cantores, organizados em turnos desde a época do Rei Davi, providenciava para que a adoração através de cânticos jamais cessasse. No entanto, o capítulo 37 do livro do profeta Ezequiel registra uma impressionante visão dada por Deus ao seu profeta. É uma imagem terrível, que ilustra o que pode acontecer a uma igreja, onde a vontade humana tenha prevalecido e sido entronizada no lugar da vontade de Deus. Quando o ser humano impõe a sua vontade, independente do grupo eclesiástico ao qual ele pertença, a igreja morre. Temos que amar uns aos outros e não lutar uns contra os outros. Ezequiel viu um vale cheio de ossos secos. Tudo o que via, até onde a vista alcançava eram ossos mortos. Mas o pior ainda estava por vir. A grande surpresa do profeta veio quando Deus lhe informou que aquela visão era o retrato da condição espiritual da nação de Israel. Era a condição espiritual do povo que se reunia no templo de Jerusalém, para adorar o Deus de Israel. Era a realidade acerca das pessoas que afirmavam ser o povo de Deus, mas que aos olhos de Deus, não passavam de um povo espiritualmente morto.

Aqui nós precisamos parar e refletir. Como este povo chegou a esta condição deplorável? O que os levou a este estado de morte espiritual? Porque a nação inteira chegou a esta terrível condição? A resposta a estas perguntas pode ser encontrada nos registros dos profetas que, continuamente, haviam repreendido a nação de Israel, tentando levá-la ao arrependimento. O povo havia abandonado a Palavra do Senhor. Deixaram de lado a vontade de Deus e passaram a fazer sua própria vontade. Acharam que era possível ser o povo de Deus e viver como o povo do mundo. Ao se afastar da vontade de Deus, o povo de Israel se afastou do manancial de onde fluía sua força e sua vida, e acabou tornando-se um vale de ossos ressequidos, sem poder e sem vida.

Queridos irmãos precisamos entender que só os vivos podem gerar vida. Aqueles que estão mortos geram apenas mais morte. Foi por isto que, desde os seus primórdios, os seres humanos perceberam que tinham que se livrar dos corpos mortos dos seus entes queridos. Se não fossem enterrados, os corpos em estado de putrefação começavam rapidamente a provocar doenças e morte. Este é um princípio da vida biológica que também se aplica a vida espiritual. Só os vivos transmitem as sementes da vida, os mortos sempre transmitirão as sementes da morte. Quando você estiver conversando com alguém preste atenção as sua palavras, pergunte a si mesmo: O que estou transmitindo? Sementes de vida ou sementes de morte? Estou edificando com minhas palavras? Ou estou destruindo? Minha conversa vai edificar esta pessoa, tornando-a melhor? Ou vai piorar sua condição espiritual? A que propósitos estou servindo, aos de Jesus Cristo, ou aos meus? Quem ama seus irmãos não fala mal deles, sob nenhuma hipótese, por mais que isto possa parecer ter um motivo justo ou piedoso. Não podemos edificar a igreja do Senhor, falando mal dos filhos do Senhor.

A segunda coisa importante que precisamos entender, é que, aquele que edifica, é o único que possui autoridade absoluta sobre sua igreja. Jesus Cristo é o edificador da igreja. Ele é o seu Senhor, e portanto, ele é o único que possui autoridade plena sobre ela. Toda a autoridade dada por Cristo a sua igreja deve ser exercida em seu nome, e só é legitimamente exercida, dentro dos limites estabelecidos pelo próprio Senhor. Compete a todos os membros da igreja reconhecer, os limites e os propósitos, da autoridade que foi entregue, por Jesus, à sua igreja.

No que diz respeito aos limites, é preciso reconhecer que a autoridade que nos foi entregue é de natureza puramente espiritual. Ninguém que ultrapasse este limite pode arvorar-se em arauto do Senhor. Ninguém pode querer exercer controle sobre a vida de outras pessoas, sobre seus assuntos particulares, sobre sua maneira de viver e administrar seus próprios negócios neste mundo, sem extrapolar os limites da autoridade que nos foi entregue pelo Senhor Jesus. Sempre que este limite foi ultrapassado, a autoridade exercida foi ilegítima, espúria e carnal, trazendo prejuízos e não benefícios à igreja.

Quanto ao propósito, precisamos entender que a autoridade dada por Cristo à sua igreja, visa tão somente a edificação do seu Corpo. Nenhum exercício de autoridade é legítimo se não visa a edificação daqueles sobre quem ela é exercida. Nenhuma admoestação, nenhuma exortação é legítima se não tiver o objetivo de tornar aqueles a quem é dirigida mais parecidos com Jesus. Aqui, novamente, precisamos refletir. Quantas palavras tem sido pronunciadas pela igreja de modo frívolo. Quantas palavras tem sido pronunciadas contra outros irmãos, apenas para firmar uma posição que se quer defender, e para a qual se procuram adeptos, em nome de interesses pessoais, e não em nome dos interesses de Jesus. No fim, as pessoas sentem-se feridas, afastam-se, tornam-se como ossos secos. O poder para transformar vidas desaparece da igreja, e, a medida que as pessoas se justificam umas com as outras, tornam-se como esqueletos ressequidos, disseminando as sementes da morte.

Será este quadro estranho a nós? Parecemos um manancial onde os sedentos deste mundo conseguem matar sua sede de Deus? Quantos se converteram a Jesus com o nosso testemunho nos últimos anos? Deixe-me colocar isto de outra maneira. Quanto tempo faz que alguém encontrou a salvação em Cristo Jesus, e a vida abundante que ele veio trazer, através do nosso testemunho como igreja? O que estamos transmitindo, de fato, as sementes da vida ou as sementes da morte?

O texto sagrado nos informa que, após informar os discípulos que ele iria edificar a sua igreja, Jesus começa a dizer-lhes que era necessário ir a Jerusalém, sofrer nas mãos dos religiosos, ser morto e ressuscitar. Pedro logo escandalizou-se, e foi imediatamente repreendido por Jesus. O Senhor deixa claro, a partir deste ensino, que a igreja não poderia existir sem sua morte e ressurreição (Jo 12.24). Ele precisava morrer a fim de poder produzir o fruto que Deus, o Pai esperava d`Ele. Ele abriu mão de sua vida por nós, e por isso estamos hoje aqui. Se Jesus não tivesse tomado a decisão de morrer por nós, não haveria igreja, não haveria noiva do cordeiro, não haveria bodas do Cordeiro, haveria apenas morte espiritual e a certeza da condenação eterna.

O que nós temos que entender agora é que o Senhor Jesus espera de nós uma atitude igual a sua. Ele espera que nós aceitemos como necessária a morte de nossa velha natureza, a fim de que ele possa nos transformar em novas criaturas (2 Co 5.17). É por isso que o apóstolo Paulo escreve: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena” (Cl 3.5). São as características do velho homem, imperando em nós, que nos afastam uns dos outros e, consequentemente, do poder transformador do evangelho que pregamos. Cristo nos faz novas criaturas quando nos unimos a ele, mas isto não é algo mágico, não acontece uma transformação de nossa natureza caída num momento. Pelo contrário, precisamos deixar-nos revestir do Senhor Jesus a fim de vencermos nossas próprias tendências pecaminosas, e assim, nos tornarmos a igreja gloriosa que ele espera que sejamos.

Quando Deus, após dar ao profeta Ezequiel, a visão do vale de ossos secos, e informá-lo de que aquele vale cheio de morte, era a representação precisa do estado espiritual da nação de Israel, ele pergunta ao seu perplexo profeta: Poderão estes ossos reviver? O profeta não foi capaz de dizer que sim, e talvez, não tenha tido a coragem de dizer que não. A este questionamento ele respondeu simplesmente: "Senhor, tu o sabes" (Ez 37.3b). Diante desta resposta, Deus diz ao atordoado profeta: Profetiza... E ao profetizar, o profeta viu que um grande exército se formava. A nação morta de Israel, continuou em sua caminhada de morte, mas, sob o comando de Jesus Cristo, um grande exército tem marchado pelo mundo, espalhando as sementes da vida.

Quando olhamos para nós mesmos, o que vemos? Um exército que marcha vitorioso e espalha as sementes da vida? Um grupo eclesiástico orgulhoso de sua ortodoxia? Um vale de ossos secos? Quando ouço pessoas afirmando que nossa igreja tem problemas percebo que dificilmente poderíamos se comparados a um grande e vitorioso exército.


A solução para a igreja de Jesus neste dias é a mesma solução apontada por Deus ao Profeta Ezequiel. Ele disse: “Profetiza...” Profetizar é anunciar a vontade de Deus. Precisamos retornar a Palavra para conseguirmos amar a igreja de Jesus. A igreja não é o templo. A igreja não é a instituição religiosa. A igreja é a pessoa que se senta ao seu lado, neste momento. Quando o profeta profetizou, houve um barulho e os ossos foram cobertos de tendões e carnes, mas ainda não havia vida. Então Deus disse-lhe: “Profetiza para que lhes entre o Espírito...”. É disto que precisamos. Que o Espírito Santo nos traga a verdadeira vida. Que ele derrame em nós o amor de Deus (Rm 5.5), e nos encha de sua graça para que possamos viver em amor e ser edificados verdadeiramente como um santuário digno para morada do Senhor. Que Deus nos abençoe.