“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu
inimigo, Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos
que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste,
porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre
justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa
tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes
somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios
também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o
vosso Pai celeste”.
Mt 5.43-48
Jesus,
pela sexta vez consecutiva, dirige-se aos seus ouvintes dizendo:
“Ouvistes o que foi dito aos antigos”, e, como das vezes
anteriores, ele corrige o ensino errados dos escribas e fariseus.
Ocorre que estes interpretavam a ordem dada a nação de Israel em Lv
19.18, de maneira extremamente estreita, ensinando que o próximo
era apenas o vizinho ou parente judeu, e considerando todos os
estrangeiros como inimigos, que poderiam e deveriam ser odiados. O
ensino dos escribas e fariseus, neste ponto, era tão radical que,
chegava mesmo a considerar como um dever religioso, o ódio, aos
estrangeiros e aos inimigos. Ocorre, porém, que, de acordo com o
Senhor, o próximo seria qualquer pessoa que estivesse necessitada e
ao alcance do nosso socorro (Lc 10.29-37), e que isto deveria se
estender, inclusive, aos nossos inimigos. Ao ensinar os seus
discípulos acerca do amor aos inimigos, Jesus deixa claro alguns
princípios importantes, que não podem deixar de ser observados pela
igreja. O primeiro destes princípios é que, aqueles que amam aos
que os amam, não estão fazendo nada de mais. Não existe qualquer
mérito em amar aquelas pessoas que nos amam. Amar apenas aqueles que
nos amam, faz com que nos contentemos, em estar nivelados àqueles
que são desonestos ou corruptos. É isto que Jesus afirma, ao
comparar os que amam apenas os que os amam aos publicanos. Todos
conheciam a fama de desonestos e corruptos dos coletores de impostos.
A maioria deles cobravam muito mais do que deviam, e por isso eram
odiados por toda a nação. Por este motivo ele pergunta: “Se
amardes os que os amam, que recompensa tendes? Não fazem os
publicanos também o mesmo?” A resposta lógica à pergunta de
Jesus é que, assim como um publicano desonesto, não merece nenhuma
recompensa por amar aqueles que o amam, também nós não merecemos
nenhuma recompensa especial, por amar aqueles que nos amam. E, por
que, perguntaríamos, não merecemos recompensa por amar os que nos
amam? Pelo simples fato que amar aos que nos amam não envolve
conversão, nem fé, nem obediência a Deus. A maior prova deste
argumento é que, os desonestos publicanos tem a capacidade de amar
aqueles que os amam. Eles amam seus familiares e seus amigos
publicanos. Igualmente, todos os homicidas tem a capacidade de amar
aqueles que os amam. Os ladrões, os políticos corruptos e os
estupradores também tem a capacidade de amar aqueles que os amam. Se
nos dispusermos a amar, apenas aqueles que nos amam, nos colocamos em
igualdade de condições com estas pessoas, que não receberão
nenhuma recompensa por amar os que os amam, porque este tipo de amor
é de natureza carnal, terrena e animal, e pertence aquela espécie
de atributo com que todos foram dotados pela criação natural.
Apesar de sua natureza humana estar degenerada pelo pecado, estas
pessoas ainda retem esta capacidade natural que lhes foi dada no ato
da criação. Tal amor, portanto, não envolve fé, não envolve
obediência a Deus. Para amar apenas aqueles que nos amam, não
precisamos do poder do Espírito Santo, não precisamos nascer de
novo, não precisamos ser novas criaturas, não precisamos ser
crentes.
Jesus
avança em seu argumento ensinando que o amor se manifesta em atos.
Ele pergunta: “E, se saudardes somente os vossos irmãos, que
fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?” Aqui, o
Senhor deixa claro, que os atos de amor dos seus discípulos precisam
ser estendidos, também, aos que não fazem parte do povo de Deus. A
saudação é um dos mais básicos e simples atos de amor que alguém
pode realizar. Deixar de saudar alguém é algo tão grosseiro, que
mesmo os mais ferrenhos adversários costumam saudar-se quando se
encontram em público, a vista de outras pessoas. Devemos entender
aqui, que o ato de saudar alguém é apenas uma ilustração simples,
que o Senhor utiliza de modo genérico. O que devemos aprender com
esta passagem é que nossos atos de amor não podem ficar restritos
aos que são nossos irmãos, mas devem ser igualmente realizados em
benefício de todos os necessitados, independente de quem sejam. É
por isso que Jesus compara aqueles que saúdam apenas a seus irmãos,
aos gentios. Os gentios, aqueles que não faziam parte do povo de
Deus, também se saudavam mutuamente. E, novamente, a mesma lógica
se impõe: fazer o bem apenas aos que são nossos irmãos ou amigos é
um instinto natural, não depende de fé, de conversão e muito menos
é um ato de obediência a Deus. A prova disto é que os gentios que
não conhecem a Deus, o fazem regularmente, desde o princípio do
mundo.
Os
escribas e fariseus, com seu ensino equivocado acerca de quem era o
próximo dos judeus, haviam tornado praticamente impossível à nação
de Israel, a obediência daquele que Jesus afirmou ser o segundo
maior de todos os mandamentos (cf. Mc 12.31,33 e Lv 19.18b). O povo
judeu, enquanto nação teocrática, simplesmente falhou na sua
missão de revelar a glória de Deus às outras nações. Quando
estrangeiros peregrinavam em Israel, ou entravam em contato com o
povo de Israel, em vez de serem impactados pela manifestação do
amor de Deus, tudo o que viam e percebiam neste povo, era o ódio, a
tudo e a todos, que não fossem de origem judaica. O povo de Israel
não percebia, ou não aceitava, que a bênção de Abraão, da qual
tanto se gloriavam, era uma bênção que incluía e objetivava
alcançar todas as nações da terra (Gn 12.1-3).
Neste
instante é necessário que façamos uma pausa em nossa análise das
palavras de Jesus, para fazermos uma reflexão acerca da atuação da
igreja. O povo de Israel falhou por não aceitar o mandamento de amar
aqueles que eles definiam como seus inimigos: Os estrangeiros.
Aqueles que não pertenciam a etnia judaica. E a igreja, tem amado
aqueles que não fazem parte do seu rol de membros? Ou tem reservado
seu “amor” apenas àqueles que são seus membros? Ou, pior
do que isso, a igreja tem amado àqueles que não a amam? Ou somente
tem amado àqueles que a amam ou bajulam? Muitas vezes tenho ouvido
justificativas para a falta de ação da igreja, em favor dos que não
fazem parte do seu rol de membros, como se eles não tivessem nada a
receber da igreja. Ou, então, como se as pessoas para serem amadas e
cuidadas pela igreja, tivessem primeiro que se tornar membros da
comunidade eclesiástica, para depois serem amadas. Quantas vezes já
ouvi a famosa desculpa: Fulano quer a bênção, mas não quer o dono
da bênção, e, é por isso que não podemos fazer nada por ele.
Devemos observar que Israel perdeu sua oportunidade história, como
nação teocrática, por não assumir sua responsabilidade de ser
canal das bênçãos de Deus às nações ao seu redor, e, hoje, com
tristeza, vemos que muitas igrejas locais vivem apenas para si
mesmas, e por isso estão perdendo a oportunidade de manifestar o
amor e o poder de Deus, àqueles que estão em seu entorno. Muitas
destas comunidades locais estão definhando, e muitas já morreram.
Inúmeros templos estão a venda, em várias partes do mundo, pelo
fato que as comunidades que ali se reuniam morreram, e ninguém mais
frequenta aqueles templos, então as denominações a que pertencem,
os colocam a venda, e muitos destes templos tem se transformado em
boates, lojas de departamentos e até mesquitas muçulmanas. Como
teria sido diferente a história destas comunidades, se seus membros
tivessem entendido que amar aqueles que estavam do lado de fora, era
a essência de sua missão. E, quanto a nós, temos compreendido que
precisamos amar os nossos inimigos? Já chegamos a compreender a
diferença entre um irmão e um inimigo? Esta pergunta é importante
porque percebemos facilmente, no dia a dia, que existem pessoas que
não conseguem amar nem mesmo aos seus irmãos na fé. E, pior do que
isso, existem pessoas que parecem não amar nem mesmo aqueles que são
seus amigos devotados. E como vemos isso? Todas as vezes que um amigo
é desleal para com o outro, nesta deslealdade, está se manifestando
a falta de amor exigido por Jesus.
Neste
ponto precisamos perguntar: Como podemos amar os nossos inimigos? A
ordem de Jesus é clara: “Amai os vossos inimigos e orai pelos
que vos perseguem”. Precisamos reconhecer que a natureza humana
destituída da graça de Deus é totalmente incapaz de obedecer a
esta ordem divina. Graças a Deus, porém, que, em Cristo temos toda
a graça necessária para obedecermos. O próprio Jesus nos garantiu
isto (At 1.8). Isto é um privilégio que gera uma grande
responsabilidade. Não temos quaisquer desculpas com que possamos nos
escusar de obedecer a esta ordem. E se desobedecermos a esta ordem,
isto significa que, desobedeceremos ao segundo maior de todos os
mandamentos, e se desobedecermos ao segundo, isto implica no fato de
desobedecermos também ao primeiro de todos os mandamentos pois, como
diz o apóstolo João: “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a
seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a
quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4.20),
e o apóstolo Paulo chega mais longe ao dizer que: “… toda a
lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo
como a ti mesmo” (Gl 5.14). Pode parecer surpreendente que o
apóstolo Paulo resuma toda a lei com a citação de Lv 19.18b, que
Jesus afirmou ser o segundo maior de todos os mandamentos da lei, e
não com a citação do primeiro e maior de todos os mandamentos, que
é amar a Deus acima de todas as coisas (Mc 12.30). Mas o que parece
uma contradição, quando analisado mais atentamente, logo se torna
compreensível, a luz do ensino do apóstolo João, no verso citado
acima. O amor ao próximo é a única evidência verdadeira do amor a
Deus. Só aqueles que verdadeiramente amam ao próximo, realmente,
amam a Deus. Aqueles que afirmam amar a Deus, mas não demonstram
amor ao próximo estão mentindo, enganando a si mesmos. Então,
precisamos avaliar os nossos corações com sinceridade. Estamos
amando os nossos inimigos? Se não estamos, por que não? Normalmente
a resposta a esta última pergunta é uma só. O egoísmo, cultivado
como uma virtude dentro de nós. Para amarmos os nossos inimigos
temos que vencer a tentação de nos justificar a partir das nossas
emoções. Nos sentimos atacados, intimidados ou ofendidos, e, a
partir disso, julgamos que podemos nos justificar por não amar
nossos inimigos. A verdade, porém, é que não podemos. Deus não
aceita nenhuma de nossas desculpas. Sua ordem é clara: “Amai os
vossos inimigos”.
Para
conseguirmos amar aos nossos inimigos, precisamos compreender que
nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra forças
espirituais poderosas (Ef 6.12), das quais nossos inimigos são
apenas vítimas. Precisamos vê-los como pessoas que, ainda que
inconscientes do fato, estão sob a influência dos espíritos
malignos, e que suas eventuais ações contra nós são instigadas
por eles (1 Jo 5.19). Estas pessoas não tem esperança de salvação.
Estão afastadas de Deus e dependem de nós para que venham a ser
libertas, possam conhecer a Cristo e receber a salvação através da
fé em Jesus (Rm 6.23). Só quando deixamos de nos ver como
intocáveis, quando aceitarmos que não somos o centro do universo, e
que não merecemos nenhum tratamento especial, poderemos ver tais
pessoas pelo prisma através do qual o Senhor Jesus as vê: Seres
humanos necessitados da graça de Deus. A maioria de nós, se ofende
facilmente, e a partir dai, resolve tratar os supostos ofensores como
pessoas indignas do nosso amor e muito menos das nossas orações.
Tenho conhecido inúmeros membros de igreja que, quando aconselhados
sobre a necessidade de amar aos inimigos, afirmam admirar o que eu
digo, mas, que eles ainda não chegaram a este estágio de
crescimento espiritual. Afirmam que se Deus quiser que eles cheguem a
amar seus inimigos ele terá que trabalhar bastante para mudá-los.
Quero dizer que esta atitude não passa de uma tentativa de se
esquivar da simples obediência à ordem divina. Quero ensinar-lhes
uma verdade simples, porém, amplamente ignorada. Outras pessoas
podem nos agredir, podem faltar com o respeito para conosco, porém,
ninguém é capaz de nos ofender. Ninguém tem o poder de nos
ofender. Ficar ofendido ou não é uma escolha minha. Nenhuma outra
pessoa tem o poder de tomar esta decisão por mim. Só eu posso
escolher ficar ofendido. E, na maioria esmagadora dos casos, não
vale a pena. Jesus foi preso injustamente, foi cruelmente espancado,
foi insultado com os piores impropérios e finalmente, foi
crucificado, em nenhum momento, porém, percebemos o salvador se
sentido ofendido. Na cruz, em vez de demonstrar estar ofendido com
seus algozes, ele demonstrou sua preocupação com o bem-estar
espiritual dos mesmos, ele orou ao Pai dizendo: “Pai,
perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34). Você
pode alegar: Mas, Jesus é Deus, eu não tenho a mesma capacidade.
Bem, a isto podemos responder que Estevão, era um homem como
qualquer um de nós, e enquanto era assassinado a pedradas, por causa
do evangelho ele também não se mostrava ofendido com seus
assassinos, ele também demonstrou sua preocupação com o bem-estar
dos seus inimigos ele orou a Deus, dizendo: “Senhor, não lhes
imputes este pecado!” (At 7.60). Neste momento, quero pedir
licença a igreja para citar uma situação que me ocorreu
recentemente como ilustração do que estou dizendo. Alguns dias
atrás eu estava esperando minhas filha, do lado de fora do portão
da escola, quando observei que, do lado de dentro, no pátio, um
adolescente de uns 13 ou 14 anos, maltratava seu irmão menor de uns
9 anos de idade. Depois vários chutes e socos que acabaram por
machucar o menino menor, chegando a derrubá-lo no chão, em uma
queda que poderia ter quebrado seus dentes, em função da posição
em que o menino caiu, finalmente, uma funcionária da escola
interveio e determinou que os mesmos saíssem do pátio e fossem para
casa. O adolescente, ao sair do espaço escolar, recomeçou a sessão
de espancamento do menino menor. Resolvi intervir, uma vez que agora
estavam na minha frente, na calçada. Aproximei-me e pedi ao menino
maior que deixasse o pequeno em paz. Aquele adolescente se virou para
mim, e vermelho de ódio, berrou palavrões e insultos com uma
violência verbal assustadora, e virando-se fugiu o mais rápido que
pode. Ao perceber que seria inútil qualquer tentativa de diálogo
com o mesmo, entrei na escola, procurei a diretora pedagógica e
solicitei que ligasse para os pais, a fim de que os mesmos
providenciassem para que algum adulto viesse ao encontros daqueles
meninos, pois, naquele momento, eu temia pela condição física do
menino menor. Avaliando a situação a posteriori, posso dizer que,
aquele adolescente me insultou e logicamente, me faltou com o
respeito. Estas duas ações foram realizadas por este jovem. São
ações que aconteceram fora de mim, embora direcionadas a mim. Mas
ele não me ofendeu. Só eu posso decidir se me sinto ofendido ou
não. Minhas emoções estão dentro de mim, não podem ser acessadas
por alguém do lado de fora. Cabe a mim escolher a reação adequada
a situação. Isto se chama responsabilidade de escolha. E, no caso
específico daqueles que se dizem filhos de Deus, a reação ordenada
pelo senhor é: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos
perseguem”. No momento em que aquele jovem adolescente teve
aquela reação, eu percebi o quanto de dor havia naquela vida, o
quanto aquele jovem precisava de atenção e ajuda, e meu coração
se encheu de ternura por ele. Naquela noite orei por ele e por sua
família, e posso dizer que a serenidade emocional, e a paz que isto
traz a quem o pratica, não tem preço.
Neste
ponto é importante observar que amar não significa gostar. Eu por
exemplo não conheço aquele adolescente e, logicamente, não posso
dizer que gosto dele. É perfeitamente lícito não gostar daqueles
que não gostam de nós. E logicamente não precisamos gostar dos
nossos inimigos. Em que, portanto, consiste o amor aos nossos
inimigos? O apóstolo Paulo nos ajuda a compreender isto quando
orienta a igreja romana acerca da necessidade de amar, ele diz: “ …
se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe
de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua
cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem”
(Rm 12.20-21). Esta orientação nos esclarece acerca do significado
do amor aos inimigos. Amar aos inimigos não é diferente de amar aos
amigos. Amar significa fazer o bem. Se temos um irmão com fome
naturalmente somos inclinados a socorrê-lo dando-lhe de comer. Se
vemos um filho com sede, por amor, naturalmente somos inclinados a
dar-lhe de beber. Amar aos inimigos é fazer exatamente a mesma
coisa, mesmo que no caso destes, não esteja presente o ato de
gostar.
A segunda
ordem de Jesus tem a ver com a necessidade espiritual dos nossos
inimigos. Ele ordena: “orai pelos que vos perseguem”. A
oração é a única arma espiritual que podemos utilizar na batalha
contra as forças espirituais que dominam aqueles que nos atacam. O
apóstolo Paulo nos ensina que embora nossas armas não sejam
carnais, elas são poderosas em Deus (2 Co 10.4). É com estas armas
– a oração e a Palavra de Deus – que nós temos que lutar. É
inútil lutar no plano físico se no plano espiritual estivermos
indolentes. As batalhas terrenas são vencidas ou perdidas no plano
espiritual. Se orarmos pelos que nos perseguem, se pedirmos com
insistência ao Senhor da igreja que os liberte das garras dos nossos
verdadeiros inimigos espirituais (1 Jo 5.19), estaremos nos tornando
verdadeiros filhos de Deus.
Aqui
parece haver uma contradição no ensino de Jesus. Ele nos diz: “para
que vos torneis filhos de vosso Pai celeste”. Poderíamos
perguntar: Já não nos tornamos filhos de Deus quando cremos? O
apóstolo João não ensinou que: “… a todos quantos o
receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber,
aos que creem no seu nome” (Jo 1.12). Queridos, quero dizer que
a contradição é apenas aparente. É verdade que, quando cremos,
nos tornamos filhos de Deus. Isto do ponto de vista legal. Ao crermos
em Jesus, e reconhecê-lo como Senhor de nossas vidas, fomos
legalmente justificados diante de Deus (Rm 5.1; Rm 8.1). A partir
deste momento somos legalmente seus filhos. Mas, após a conversão,
em um primeiro momento, continuamos a ser pecadores totalmente a
merce do poder do pecado que habita em nós. A justificação é a
primeira fase da obra do Espírito Santo em nós. Ele nos convenceu
do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), e quando nos
arrependemos, e depositamos fé em Jesus como Senhor de nossas vidas,
fomos salvos. Fomos libertos da culpa do pecado. Neste momento nos
tornamos, legalmente, filhos de Deus, mas ainda somo pecadores e
nossas vidas estão totalmente envolvidas pelos padrões do mundo
caído em pecado. Deixe-me ilustrar isto com uma situação bastante
comum em regiões de praia. Se uma pessoa cai de um barco, e, por não
saber nadar começa a se afogar, logo alguém pula na água e depois
de alguns minutos consegue retirá-la da água, aplica-lhe os
procedimentos adequados de modo que depois de alguns minutos ela
volta a respirar. Neste momento ela está salva, mas, seu corpo ainda
está molhado, ela ainda está com seu corpo dolorido pelo excesso de
esforço realizado, seu pulmão talvez precise ser aspirado, sua
garganta dói, seus cabelos estão todos desgrenhados e
naturalmente, ela precisará de cuidados extras até que volte a ter
sua vida normalizada. Assim é a obra do Espírito Santo em nossas
vidas. Sua obra não termina com a justificação. Imediatamente após
crermos em Jesus e nos entregarmos sem reservas aos seus cuidados,
estamos salvos, mas, ainda estamos dominados pelos paradigmas da
velha natureza, nossos hábitos pecaminosos ainda são reais, ainda
vivemos sob o poder do pecado, precisamos então fazer morrer a nossa
velha natureza e nos revestir do novo homem (Cl 3.1-17). É por isso
que imediatamente, após a nossa justificação, o Espírito Santo
inicia em nós a obra da santificação, que é a obra através da
qual o Senhor Jesus vai, pouco a pouco, nos libertando do poder do
pecado. Santificar-se nada mais é do que obedecer a vontade de Deus,
ou seja, obedecer aos seus mandamentos. O processo de santificação
nada mais é do que o processo, através do qual, o Espírito do
Senhor que habita em nós nos ensina a obediência à sua vontade
revelada. É por esta razão que Jesus não nega que já somos filhos
de Deus, pelo contrário, ele diz que o objetivo é nos tornar filhos
de nosso Pai celeste. Observe que o Pai celeste já é
nosso. Apesar disso devemos obedecer a ordem de amar aos nossos
inimigos, e orar pelos que nos perseguem, para que nos tornemos
filhos de nosso Pai celeste. Como assim? Simples. Já somos filhos de
Deus do ponto de vista judicial. Agora devemos nos tornar filhos de
Deus do ponto de vista moral. A palavra grega (ginomai), aqui
traduzida como “vos torneis” significa, vir a existência,
começar a ser, receber a vida, erguer-se, aparecer na história,
aparecer no cenário. Ou seja, aquilo que é real do ponto de vista
legal, agora deve começar a ser real do ponto de vista moral,
precisa vir a existência, precisa aparecer na história, precisa se
tornar visível no cenário da existência humana. Os filhos devem
refletir o caráter do Pai. É por isso que o Senhor Jesus nos dá o
exemplo da ação do Pai como padrão a ser seguido: “… Ele
faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e
injustos”. Deus, o Pai, apesar de não ser amado por muitas
pessoas, e até mesmo, apesar de ser odiado por tantos outros,
abençoa tanto os que o amam como aqueles que não o amam. Ele quer e
espera que seu exemplo seja seguido por nós. É a este, tornar-se
filhos de nosso Pai celeste, que o apóstolo Paulo se refere quando
diz aos irmãos de Filipos: “... desenvolvei a vossa salvação
com temor e tremor” (Fp 2.12c). Se a primeira parte da obra que
o Espírito Santo realiza em nós foi efetivamente realizada,
certamente ele realizará a segunda parte também (Fp 1.6). Isto
significa que todos os verdadeiros crentes estão, ou serão,
capacitados a amar os seus inimigos, e orar pelos que os perseguem.
Se falharmos nestes deveres e não nos sentirmos em falta diante de
Deus, isto é sinal de que alguma coisa está errada com nossa
profissão de fé.
Jesus
termina esta passagem dizendo: “Portanto, sede vós perfeitos
como perfeito é o vosso Pai celeste”. Aqui precisamos
perguntar: Que perfeição é esta que Jesus exige de nós?
Certamente não é a perfeição moral, nem espiritual, pois, neste
caso nenhum de nós jamais conseguiria obedecê-lo. O apóstolo Paulo
mesmo lutava contra suas imperfeições e nos deixou seu testemunho a
respeito (Rm 7.15-20). A palavra teleios, aqui traduzida como
perfeitos tem o sentido de algo que é levado ao seu fim,
finalizado, que não carece de nada necessário para estar completo.
Ou seja, durante esta vida, perfeito, diante de Deus, é aquele que
cumpre o propósito para o qual foi criado. Ou seja, nos tornamos
perfeitos quando nós imitamos a Deus (Ef 5.1-2), e vivemos segundo
os propósitos para os quais fomos salvos. Amar a Deus sobre todas as
coisas e ao próximo como a nós mesmos.
Quero
finalizar esta mensagem lembrando que, se, por um lado o apóstolo
Paulo diz que todo o conteúdo da lei se cumpre no ato de amar ao
próximo como a si mesmo (Gl 5.14), o Senhor Jesus nos informa que
seremos julgados, não pelo cumprimento do primeiro e maior dos
mandamentos, mas, pelo cumprimento ou não, do segundo (Mt 25.31-46).
O amor ao próximo se manifesta em ações que demonstram o cuidado
de Deus pelo ser humano em suas necessidades diárias, e Jesus nos
ensina que próximo é qualquer pessoa que esteja necessitada ao
nosso redor, mesmo que este seja um inimigo (Lc 10.29-37). Por isso
não há qualquer desculpa para deixarmos de amar quem quer que seja.
Amor é um substantivo, porém, amar é verbo, ação. Os critérios
que Jesus estabelece para julgar a fé dos que se dizem cristãos,
com vistas a admissão no reino eterno, são tão simples que ninguém
poderá alegar falta de condições para cumpri-los. Um prato de
comida, para alguém faminto; um copo de água, para um sedento; uma
muda de roupa, para alguém que esteja nu; uma visita para um
enfermo, ou um preso; uma atitude de hospitalidade, para com um
estrangeiro. Aqui precisamos dar uma palavra de esclarecimento, Jesus
não está dizendo que se alguém realizar cada uma destas ações
uma ou duas vezes na vida, estará salvo. Ele está dizendo que o
estilo de vida dos que serão salvos, se caracterizou pelo socorro
aos necessitados deste mundo, bem como que, o estilo de vida dos não
salvos, se caracterizou pela indiferença a dor e aos sofrimentos dos
mesmos necessitados. Ou seja, aqueles que verdadeiramente foram
justificados pela fé em Jesus Cristo, jamais deixarão de obedecer
ao dois maiores mandamentos da lei de Deus. E, o amor a Deus, a quem
não vemos, irá se manifestar no amor ao próximo, a quem vemos e
cujas dores compartilhamos. Quero finalizar esta reflexão com
algumas perguntas que me parecem importantes neste momento: Quando o
dia do grande julgamento chegar, de que lado você acha que estará?
Do lado direito ou do lado esquerdo? Com base em que você tem esta
opinião? Você já reparou que, na lista de Jesus, não há nada
daquilo que fazemos quando estamos reunidos para celebrar a Deus? Não
há nesta lista nada que nós fazemos normalmente dentro do templo?
Você percebeu que Jesus não diz que alguém poderá ser salvo por
cantar louvores? Ou por frequentar os cultos? Ou por ter feito
profissão de fé? Ou por pregar mensagens bíblicas? Todas estas
coisas são importantes, mas nenhuma delas se encontra na lista de
Jesus. Caso alguma destas perguntas o tenha deixado preocupado, o que
você pode fazer a partir de hoje, para ter a certeza de que estará
do lado direito de Jesus? Queridos, a pior de todas as atitudes que
poderíamos ter, é ignorar a voz do Senhor. Temos o dever de amar os
nossos inimigos porque, do ponto de vista de Deus, eles são tão
próximos quanto quaisquer outras pessoas de nossas relações
pessoais. Se tivermos dificuldades para obedecer a estas ordens, nos
humilhemos diante de Deus, confessemos nossas fraquezas e pecados, e
busquemos no Senhor, a força necessária para obedecermos. Que Deus
nos abençoe, e nos capacite a viver de tal forma que nossas vidas o
glorifiquem de fato. Amém.