segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Amai-vos uns aos outros - Mt 24.12

“E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos” (Mt 24.12)

O maior de todos os perigos que, em todos os tempos, já rondaram e já afligiram a Igreja, não tem qualquer relação com perseguição política ou religiosa, independente de quão duras tenham sido tais perseguições ao longo dos séculos. O maior de todos os flagelos que já afetou, e ainda afeta grandes segmentos da igreja de Cristo, é o esfriamento do amor entre aqueles que pertencem à igreja institucional, mas não se apercebem de sua própria frieza em relação às necessidades do Corpo de Cristo, e do mundo ao seu redor.

Vivemos tempos difíceis. Milhões de pessoas congregam em milhares de templos, de milhares de denominações diferentes, e praticando milhares de conceitos igualmente diferentes de “fé”, todos estes, supostamente cristãos. Quando, porém, analisamos os resultados dessas manifestações de fé, não percebemos nenhum impacto positivo em nossa sociedade. A humanidade segue seu rumo cada vez mais secularizada, os meios de comunicação estão saturados de informação negativa, daqueles que se auto intitulam representantes do povo evangélico, nas diversas mídias em que se disputam a preferência deste público, uma vez que, não existem quaisquer evidências de que não evangélicos assistam quaisquer destes programas, que são mantidos unicamente para atender aos desejos e ambições, totalmente inconfessáveis, de seus idealizadores.

E, por que, podemos nos perguntar, a igreja moderna não exerce praticamente nenhuma influencia positiva sobre aqueles que vivem ao seu redor? Por que, apesar de pregarmos inúmeras mensagens falando do amor de Deus, a maioria das pessoas ao nosso redor simplesmente não demonstra qualquer interesse em nossa mensagem? Será que as pessoas já não se interessam pelo tema do amor? É claro que não! A prova disso é que as produções televisivas e cinematográficas que tratam desses temas faturam milhões de dólares todos os anos. O ser humano nasceu com a necessidade de amar e de ser amado. O grande problema é que infelizmente, quando a sociedade ao redor da igreja, a observa, não percebe os sinais do amor de Deus se manifestando entre aqueles que dizem ser membros do Corpo de Cristo. Para sermos minimamente honestos, quando falamos de igrejas em termos denominacionais, a triste realidade que podemos constatar é que, as neopentecostais então lotadas de pessoas ávidas por dinheiro, luxo e uma vida farta de bens materiais, e toda a sua mensagem visa convencer as pessoas de que se investirem bastante, vão lucrar bastante. A teologia da prosperidade, ensinada nestas denominações, não tem tempo nem lugar para o amor a Deus, nem para o amor ao próximo, somente para o lucro e o bem estar dos seus aficionados. No que diz respeito as igrejas pentecostais históricas, estas ainda não conseguiram se desvencilhar do legalismo que, já no tempo de Jesus, excluía quase que totalmente a chama do amor verdadeiro, pois, todo legalista acaba amando mais a denominação e suas doutrinas do que as pessoas, que são a verdadeira igreja. E, finalmente, quanto às denominações históricas, a maioria das igrejas locais encontra-se em franco declínio numérico, uma vez que suas divisões internas as tornam incapazes de atrair novos membros, pois, na maioria das vezes, quando alguém começa a frequentar uma dessas igrejas, muito antes de ter conseguido compreender as verdades essenciais do evangelho de Jesus Cristo, essa pessoa já tomou conhecimento de muitos dos supostos problemas desta igreja local. Muitas vezes o que acontece ao final de algum tempo, é que esta pessoa está vacinada contra o evangelho, decepcionada ela afasta-se da referida igreja, pois, em vez de ser envolvida por um ambiente de amor ao começar sua vivência eclesiástica, ela acabou envolvida em um ambiente de intrigas e desamor ao próximo, no qual a maioria das pessoas com quem conviveu, tentou simplesmente conquistar sua lealdade, unicamente para impedi-la, de dedicar esta mesma lealdade a outros membros, supostamente “errados”, contra os quais, “deveria” manter-se alerta. Esta é a grande tragédia de muitas das igrejas históricas. As pessoas simplesmente não se amam, e não se dão conta do prejuízo espiritual que isso lhes acarreta. Habituaram-se a viver sem o amor sincero umas das outras, habituaram-se a fingir que se amam, sem, de fato, se amarem, consequentemente, habituaram-se a viver sem o poder de Deus, sem as manifestações da graça de Deus, sem verem os milagres de Deus, sem ver conversões reais e, a maior de todas as tragédias, começaram a acreditar que a vida cristã é assim mesmo. As igrejas estão morrendo, muitas já estão mortas, e poucos estão se apercebendo da verdade.

Jesus previu tal situação. Foi por isso que, nos seus momentos finais com eles, antes de sua prisão e paixão, disse-lhes: “Novo mandamento vos dou: que vos amei uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (Jo 13.34). Aquele era um momento especial no ministério terreno de nosso Senhor Jesus. Ele estava reunido com seus discípulos, e lhes dava as instruções finais antes de ser preso. Era um momento único, solene, no qual o mestre tinha a preocupação de preparar seus seguidores mais íntimos para os eventos apavorantes, que se seguiriam à sua, iminente, prisão. Foi neste contexto, de enorme intensidade emocional, que ele disse aos seus discípulos que lhes dava um novo mandamento. Na verdade, em certo sentido, não era exatamente um mandamento novo. Jesus, já havia orientado seus discípulos a se amarem mutuamente, inúmeras vezes. Já havia, até mesmo, ordenado que eles amassem também os seus inimigos (Mt 5.44). Portanto, o mandamento de amar, em si, não é um mandamento novo. O que há então, de novo, no mandamento dado por Jesus? Em primeiro lugar, precisamos entender que quando Jesus pronunciou estas palavras, ele afirmou estar dando um mandamento. Portanto, somos obrigados a nos amar, sob pena de viver em desobediência a uma ordem direta do Senhor da Igreja. Amar não é uma opção entre outras, é uma obrigação imperiosa da vida cristã.

Em segundo lugar, Jesus acrescenta um qualificativo a ordem de amar. Ele diz: “… assim como eu vos amei”. Este é o aspecto novo no mandamento de Jesus. Esta é a novidade que Jesus apresenta aos seus discípulos, e a qual, eles precisavam prestar atenção. Estas palavras significam que não podemos estabelecer os critérios para expressar o nosso amor. Estes critérios foram estabelecidos pela forma como Jesus viveu e amou. Existem pelo menos quatro aspectos estabelecidos pela forma de viver e amar do Senhor Jesus, que devem nortear a nossa maneira de amarmos uns aos outros. O primeiro deles é que ele nos amou primeiro. Jesus não esperou que nós merecêssemos seu amor. Ele tomou a iniciativa de nos amar quando nós ainda eramos seus inimigos (Rm 5.10). Várias décadas depois de ouvir este mandamento, dos lábios do próprio Jesus, o apóstolo João explicou aos seus leitores: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4.19). Como crentes em Jesus Cristo, temos que abandonar a ideia de que as pessoas precisam ser aprovadas pelos nossos padrões e exigências, a fim de que nos disponhamos a amá-las. Temos que tomar a iniciativa de amar, e crer que, só a nossa total obediência honra a vocação que recebemos para gozar a vida abundante, que Jesus veio trazer. O segundo destes aspectos é que ele nos amou incondicionalmente. O amor de Jesus por nós nunca foi condicionado ao fato de atendermos às suas expectativas. No momento em que ele lhes ordenou que se amassem como ele os amava, ele sabia que seus discípulos, em poucas horas, o abandonariam. Ele sabia que Judas o entregaria às autoridades judaicas. Ele conhecia a fraqueza de Pedro, e sabia que, em breve, o mesmo negaria conhecê-lo. Nada disso, porém, afetou a capacidade de Jesus de amar seus discípulos. Seu amor não dependia das circunstâncias. Ele os amava pelo que Ele era (1 Jo 4.8,16), e não pelo que eles eram ou faziam. O terceiro destes aspectos é que ele nos amou altruisticamente. Jesus, em todo o tempo de convívio com seus discípulos, jamais se preocupou consigo mesmo. Durante todo seu ministério, sua motivação e ação sempre buscavam a glória do Pai e o bem-estar dos seus discípulos. Esta é, provavelmente, uma das áreas onde mais fracassamos em nossa obrigação de amar. A maior parte do tempo pensamos apenas em nossos próprios interesses. Dificilmente, encontraríamos em nosso meio, muitos exemplos de preocupação com as necessidades das pessoas ao nosso redor. Parece que nós, enquanto igreja, só nos sentimos sensibilizados pelas dores e carências alheias, em momentos de grandes tragédias. Quando os meios de comunicação nos mostram milhares de desabrigados em nossas proximidades, então,  por um breve período de tempo, nos unimos para doar algumas das coisas que estão sobrando em nossas casas. Isto, porém, de modo algum significa que a situação doméstica tenha mudado. O clima de desamor dentro do ambiente eclesiástico, continua sendo percebido pelos de fora, que, quase sempre, coerentemente, continuam preferindo manter-se afastados da igreja. O apóstolo Paulo, tratando deste assunto, nos orienta a amar-nos uns aos outros com amor fraternal: “preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.10b). E, o apóstolo João chega ao ponto de nos dizer com toda clareza: “Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1 Jo 3.18). O que o apóstolo João está querendo corrigir com suas palavras é a prática, ainda hoje comum, de afirmar com a boca, um amor que é negado com as atitudes e as escolhas do dia a dia. Precisamos parar de apenas dizer que amamos uns aos outros, e começar a ter atitudes de amor verdadeiro em relação aos que estão ao nosso redor. Pedro, ao orientar seus leitores, coloca as coisas nos seguintes termos: “... amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente” (1 Pe 1.22b). Ora, amar alguém ardentemente, vai bem além de dizer simplesmente às pessoas ao nosso redor que as amamos, sem nos comprometer com o bem estar das mesmas. Amar-nos ardentemente exige compromisso mútuo, exige participação na vida do outro e participação do outro em nossas próprias vidas. E, por último, o quarto aspecto estabelecido pelas palavras de Jesus, é que ele nos amou sacrificialmente. A maior barreira ao amor verdadeiro, é o egoísmo, sempre verdadeiro. Amor não é um sentimento, que surge no coração e que nos arrebata para fazermos coisas legais uns para os outros. Amor é uma escolha. Escolhemos amar e escolhemos não amar. E, quando escolhemos amar, escolhemos os limites até onde admitimos amar. É por isso que, quando um ente querido, como um filho ou filha, estão em perigo, nos expomos até ao risco de morrer para tentar salvá-los, e, quando alguém que conhecemos apenas superficialmente, está correndo um risco semelhante, na maiorias das vezes não nos dispomos aos mesmos sacrifícios. Este é um exemplo extremo, citado apenas para tornar mais claro este ponto. O amor com que fomos amados, não tinha nenhum limite em Jesus (Jo 13.1). Não havia limites nem quanto a intensidade, nem quanto a extensão temporal, e, portanto, o amor com que temos o dever de amar uns aos outros, não pode estar limitado por nenhuma de nossas conveniências pessoais. Ao tratar desta questão com os irmãos de Corinto, o apóstolo Paulo o faz nos seguintes termos: “Para vós outros, ó coríntios, abrem-se os nossos lábios, e alarga-se o nosso coração. Não tendes limites em nós; mas estais limitados em vossos próprios afetos. Ora, como justa retribuição (falo-vos como a filhos), dilatai-vos também vós” (2 Co 6.11-13). A igreja, nos dias de hoje, habituada como está, às facilidades da vida moderna, tem dificuldade em aceitar a ideia de sofrimento e sacrifício. E, como amar inclui a ideia de renúncia, muitos, simplesmente tem deixado seus corações esfriarem, e solenemente, ignoram o mandamento de amar ao próximo como a si mesmos (Mt 22.39), tratando este mandamento com indiferença, como se ele não tivesse a importância que lhe foi atribuída pelo Senhor Jesus (Mt 22.39). Entretanto, a fé cristã está indissoluvelmente associada ao sofrimento e ao sacrifício. Se nossa ideia de fé cristã exclui a possibilidade de termos de sofrer, e, dessa forma, nos autoriza, a deixarmos de amar quando isto resultar em exigência de sacrifício pessoal, renúncia ou eventual sofrimento, certamente, esta não é a fé bíblica, ensinada por Jesus, e praticada pelos apóstolos e pelos discípulos da igreja primitiva.

Finalmente, precisamos entender que nossa credibilidade como Corpo vivo de Cristo, depende do fato das pessoas de fora da igreja, reconhecerem nossa sinceridade como discípulos de Jesus Cristo de Nazaré. E, de acordo com Jesus: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35). Aqui é importante observar que, em nenhum lugar, Jesus afirmou que seus discípulos seriam reconhecidos pelo fato de fazerem milagres, ou de expulsarem demônios, ou de realizarem curas espetaculares, ou mesmo por pregarem o evangelho. Todas estas coisas poderiam ser, foram, e continuam sendo realizadas pelos crentes ao longo dos séculos, mas nenhuma delas jamais é mencionada como fator identificador de alguém como discípulo de Jesus Cristo. Aliás, muitos que têm praticado todas estas coisas, serão rejeitados por Jesus no dia do grande julgamento (Mt 7.21-23), e o motivo é um só: Ele afirma jamais tê-los conhecido. Ou seja, jamais foram reconhecidos nos céus como discípulos de Cristo, embora fossem conhecidos na terra, como membros da igreja de Cristo.

Neste ponto precisamos reconhecer que esta maneira de amar não é natural em nós. Nossa natureza, caída em pecado, não nos leva naturalmente a prática deste amor divino. Jesus sabia disso. E por isso mesmo ele prometeu que não deixaria seus discípulos órfãos (Jo 14.18). Ele prometeu que voltaria para eles, e naquele, momento, esta promessa estava relacionada a vinda do seu Espírito, o Consolador (Jo 16), que iria guiar a Igreja e conceder-lhe o poder para viver em novidade de Vida. É a isto que Paulo se refere quando ele diz: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20); Os apóstolos ouviram o mandamento, mas naquele instante não estavam capacitados a obedecê-lo. Depois da descida do Espírito Santo, no dia do Pentecostes, eles ficaram cheios do poder do alto e revestidos deste poder, foram capazes de amar de tal forma que os habitantes de Antioquia, pejorativamente começaram a chamar os discípulos de cristãos, reconhecendo que eles haviam estado com Cristo (At 11.26).

Neste momento precisamos reconhecer duas coisas fundamentais: A primeira é que temos o dever de amar. A segunda é que sem a graça de Deus, jamais conseguiremos amar da maneira certa. Somente Jesus vivendo em nós, nos capacita a amar como ele nos ordenou que amássemos (Fp 2.13).

As pessoas precisam nos reconhecer, não necessariamente, como membros da Igreja Presbiteriana Independente. Provavelmente, muitos daqueles com quem nos relacionamos talvez nem conheçam nossa denominação, sua forma de organizar-se, suas doutrinas específicas, etc. Mas todos, depois de algum tempo de convivência conosco, precisam ter motivos para reconhecer que somos discípulos de Jesus. E, a promessa de Jesus é que isto acontecerá se nos amarmos uns aos outros como ele nos amou. Não podemos amar a partir dos nossos critérios, e sim a partir do critério vivido e exigido por Jesus. O critério estabelecido é simples: como ele nos amou! Queridos irmãos, conhecer esta verdade é um privilégio imenso, porque nos livra do risco de sermos condenados por causa da ignorância. O fato de conhecê-la, porém, nada nos aproveitará se não a colocarmos em prática. É por isso que o apóstolo Tiago nos exorta a sermos praticantes da Palavra e não somente ouvintes (Tg 1.22-25). Examinemo-nos a nós mesmos (2 Co 13.5), sondemos o nosso coração com honestidade, e busquemos socorro na graça de nosso Senhor e Redentor Jesus, para que possamos verdadeiramente amar uns aos outros como ele nos amou, e assim, podermos ser reconhecidos pelos que estão ao redor de nós, como seus verdadeiros discípulos. Amém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário