sábado, 2 de novembro de 2013

Só Jesus Cristo edifica a sua Igreja

 “Também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Mt 16.18

Quando falamos de igreja, a imagem que normalmente nos vem a mente é a de um templo, com um nome específico que identifica uma determinada instituição religiosa. Esta, porém, é uma noção equivocada acerca daquilo que a Bíblia Sagrada chama de igreja. A palavra igreja, na verdade não designa um local, ou uma construção, nem mesmo uma instituição, mas um grupo de pessoas que amam e servem a Jesus Cristo como seus discípulos. Este é o conceito ao qual Jesus se referiu quando afirmou que iria edificar a sua igreja. É importante destacar que ele não disse que iria edificar suas igrejas mas a sua igreja. Apenas uma única igreja. Só quando começarmos a pensar na igreja como sendo um grupo de pessoas, reunidas pelo poder do Espírito Santo, e que se caracterizam pelo amor a Deus acima de todas as coisas, e ao próximo como a si mesmas. é que teremos como entender certas metáforas que jamais poderíamos compreender enquanto vemos a igreja como uma simples instituição, ou um templo, construído de tijolos. Por exemplo: A igreja é comparada a uma noiva, que deve se preparar para encontrar-se com seu noivo, Jesus Cristo. Esta é uma metáfora impossível de ser compreendida a menos que cheguemos a entender que a igreja são as pessoas, e não o local, onde as pessoas se reúnem.

A partir desta verdade acerca da constituição orgânica da igreja, temos que entender que a edificação da igreja não acontece quando cuidamos das coisas da igreja, como o templo, seu patrimônio ou mesmo de suas tradições históricas. A edificação da igreja só acontece quando cuidamos das pessoas que se reúnem em nome de Jesus Cristo, e as quais estamos ligados pela ação do Espírito Santo de Deus. Infelizmente a igreja de Jesus Cristo encontra-se fragmentada por inúmeras divisões e lutas internas, que tem minado sua capacidade de testemunhar, e roubado sua alegria para celebrar a presença de seu Senhor.

É por isso, que precisamos nos voltar para a revelação de Deus, para que possamos entender como Deus quer promover o desenvolvimento saudável de sua igreja. Existem algumas verdades que são fundamentais e que nós não podemos ignorar.

A primeira destas verdades que nos é revelada no texto sagrado é que só Jesus Cristo é o edificador de sua igreja. Quando ele diz: “Eu edificarei a minha igreja...”, estas palavras excluem qualquer outro edificador. Precisamos perceber que somos apenas cooperadores de Deus (2 Co 6.1; 3 Jo 1.8), e como tal, nossa missão e ação através da igreja deve se pautar pela obediência as suas ordens que são claras. Nosso papel é o de servos e não de senhores. O rei Salomão, que edificou o templo do Senhor em Jerusalém, refletindo acerca da obra que fazia chegou a conclusão que: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Sl 127.1). Ora, se tal conclusão era verdadeira no que diz respeito a construção de um templo para o povo de Deus se reunir, quanto mais verdadeira não será, na edificação da casa espiritual onde o Espírito do Senhor habita, a sua igreja, a noiva de Cristo. Precisamos entender que Jesus está edificando um santuário para habitação da Trindade Santa. É por isso que o apóstolo Paulo, escrevendo aos membros da igreja dos Coríntios, que se encontravam divididos em facões, os repreende dizendo: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado”. (1 Co 3.16-17).

Queridos, Paulo ao escrever aos Coríntios falava do perigo de as divisões internas da igreja virem a causar a sua destruição, e alerta para o risco que isso implicava para os próprios membros daquela igreja. Como igreja, coletivamente reunidos sob os olhos de Cristo, somos um santuário sagrado, e ninguém pode causar dano ao Corpo de Cristo, impunemente. É por isso que temos que amar a igreja, entendendo que a igreja não é a denominação, mas é o grupo de pessoas com quem convivemos, e que foram reunidas por Cristo em um mesmo ambiente eclesiástico. Quem não ama as pessoas ao seu redor, por mais que diga que ama a igreja, na verdade está enganando seu próprio coração.

As divisões surgem nas igrejas porque as pessoas brigam tentando impor sua vontade uns aos outros. Destas brigas surgem ressentimentos que, sendo cultivados, geram divisões internas que tiram da igreja o seu poder para testemunhar e para edificar aqueles que já se encontram em seu meio. Ora, uma igreja edificada sobre o fundamento da vontade humana certamente não é uma igreja cheia do poder do Senhor Jesus Cristo. E é fácil perceber quando isto está acontecendo, porque onde a vontade humana impera no lugar da vontade de Deus, o poder de Deus se torna apenas uma lembrança de tempos passados. Quando a vontade de Deus está reinando, a igreja se torna viva, poderosa, operosa, e produz fruto abundante que glorifica a Deus (Jo 15.8). Queridos, se uma igreja não está produzindo fruto, ela simplesmente não está glorificando a Deus, por mais que sejam lindos os cânticos que são entoados no culto de domingo a noite.

Podemos ver um claro exemplo dessa verdade na história de Israel. A nação de Israel frequentava o templo com regularidade. Sacrifícios de animais eram oferecidos diariamente, de acordo com a prescrição da Lei de Moisés, o ministério dos levitas cantores, organizados em turnos desde a época do Rei Davi, providenciava para que a adoração através de cânticos jamais cessasse. No entanto, o capítulo 37 do livro do profeta Ezequiel registra uma impressionante visão dada por Deus ao seu profeta. É uma imagem terrível, que ilustra o que pode acontecer a uma igreja, onde a vontade humana tenha prevalecido e sido entronizada no lugar da vontade de Deus. Quando o ser humano impõe a sua vontade, independente do grupo eclesiástico ao qual ele pertença, a igreja morre. Temos que amar uns aos outros e não lutar uns contra os outros. Ezequiel viu um vale cheio de ossos secos. Tudo o que via, até onde a vista alcançava eram ossos mortos. Mas o pior ainda estava por vir. A grande surpresa do profeta veio quando Deus lhe informou que aquela visão era o retrato da condição espiritual da nação de Israel. Era a condição espiritual do povo que se reunia no templo de Jerusalém, para adorar o Deus de Israel. Era a realidade acerca das pessoas que afirmavam ser o povo de Deus, mas que aos olhos de Deus, não passavam de um povo espiritualmente morto.

Aqui nós precisamos parar e refletir. Como este povo chegou a esta condição deplorável? O que os levou a este estado de morte espiritual? Porque a nação inteira chegou a esta terrível condição? A resposta a estas perguntas pode ser encontrada nos registros dos profetas que, continuamente, haviam repreendido a nação de Israel, tentando levá-la ao arrependimento. O povo havia abandonado a Palavra do Senhor. Deixaram de lado a vontade de Deus e passaram a fazer sua própria vontade. Acharam que era possível ser o povo de Deus e viver como o povo do mundo. Ao se afastar da vontade de Deus, o povo de Israel se afastou do manancial de onde fluía sua força e sua vida, e acabou tornando-se um vale de ossos ressequidos, sem poder e sem vida.

Queridos irmãos precisamos entender que só os vivos podem gerar vida. Aqueles que estão mortos geram apenas mais morte. Foi por isto que, desde os seus primórdios, os seres humanos perceberam que tinham que se livrar dos corpos mortos dos seus entes queridos. Se não fossem enterrados, os corpos em estado de putrefação começavam rapidamente a provocar doenças e morte. Este é um princípio da vida biológica que também se aplica a vida espiritual. Só os vivos transmitem as sementes da vida, os mortos sempre transmitirão as sementes da morte. Quando você estiver conversando com alguém preste atenção as sua palavras, pergunte a si mesmo: O que estou transmitindo? Sementes de vida ou sementes de morte? Estou edificando com minhas palavras? Ou estou destruindo? Minha conversa vai edificar esta pessoa, tornando-a melhor? Ou vai piorar sua condição espiritual? A que propósitos estou servindo, aos de Jesus Cristo, ou aos meus? Quem ama seus irmãos não fala mal deles, sob nenhuma hipótese, por mais que isto possa parecer ter um motivo justo ou piedoso. Não podemos edificar a igreja do Senhor, falando mal dos filhos do Senhor.

A segunda coisa importante que precisamos entender, é que, aquele que edifica, é o único que possui autoridade absoluta sobre sua igreja. Jesus Cristo é o edificador da igreja. Ele é o seu Senhor, e portanto, ele é o único que possui autoridade plena sobre ela. Toda a autoridade dada por Cristo a sua igreja deve ser exercida em seu nome, e só é legitimamente exercida, dentro dos limites estabelecidos pelo próprio Senhor. Compete a todos os membros da igreja reconhecer, os limites e os propósitos, da autoridade que foi entregue, por Jesus, à sua igreja.

No que diz respeito aos limites, é preciso reconhecer que a autoridade que nos foi entregue é de natureza puramente espiritual. Ninguém que ultrapasse este limite pode arvorar-se em arauto do Senhor. Ninguém pode querer exercer controle sobre a vida de outras pessoas, sobre seus assuntos particulares, sobre sua maneira de viver e administrar seus próprios negócios neste mundo, sem extrapolar os limites da autoridade que nos foi entregue pelo Senhor Jesus. Sempre que este limite foi ultrapassado, a autoridade exercida foi ilegítima, espúria e carnal, trazendo prejuízos e não benefícios à igreja.

Quanto ao propósito, precisamos entender que a autoridade dada por Cristo à sua igreja, visa tão somente a edificação do seu Corpo. Nenhum exercício de autoridade é legítimo se não visa a edificação daqueles sobre quem ela é exercida. Nenhuma admoestação, nenhuma exortação é legítima se não tiver o objetivo de tornar aqueles a quem é dirigida mais parecidos com Jesus. Aqui, novamente, precisamos refletir. Quantas palavras tem sido pronunciadas pela igreja de modo frívolo. Quantas palavras tem sido pronunciadas contra outros irmãos, apenas para firmar uma posição que se quer defender, e para a qual se procuram adeptos, em nome de interesses pessoais, e não em nome dos interesses de Jesus. No fim, as pessoas sentem-se feridas, afastam-se, tornam-se como ossos secos. O poder para transformar vidas desaparece da igreja, e, a medida que as pessoas se justificam umas com as outras, tornam-se como esqueletos ressequidos, disseminando as sementes da morte.

Será este quadro estranho a nós? Parecemos um manancial onde os sedentos deste mundo conseguem matar sua sede de Deus? Quantos se converteram a Jesus com o nosso testemunho nos últimos anos? Deixe-me colocar isto de outra maneira. Quanto tempo faz que alguém encontrou a salvação em Cristo Jesus, e a vida abundante que ele veio trazer, através do nosso testemunho como igreja? O que estamos transmitindo, de fato, as sementes da vida ou as sementes da morte?

O texto sagrado nos informa que, após informar os discípulos que ele iria edificar a sua igreja, Jesus começa a dizer-lhes que era necessário ir a Jerusalém, sofrer nas mãos dos religiosos, ser morto e ressuscitar. Pedro logo escandalizou-se, e foi imediatamente repreendido por Jesus. O Senhor deixa claro, a partir deste ensino, que a igreja não poderia existir sem sua morte e ressurreição (Jo 12.24). Ele precisava morrer a fim de poder produzir o fruto que Deus, o Pai esperava d`Ele. Ele abriu mão de sua vida por nós, e por isso estamos hoje aqui. Se Jesus não tivesse tomado a decisão de morrer por nós, não haveria igreja, não haveria noiva do cordeiro, não haveria bodas do Cordeiro, haveria apenas morte espiritual e a certeza da condenação eterna.

O que nós temos que entender agora é que o Senhor Jesus espera de nós uma atitude igual a sua. Ele espera que nós aceitemos como necessária a morte de nossa velha natureza, a fim de que ele possa nos transformar em novas criaturas (2 Co 5.17). É por isso que o apóstolo Paulo escreve: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena” (Cl 3.5). São as características do velho homem, imperando em nós, que nos afastam uns dos outros e, consequentemente, do poder transformador do evangelho que pregamos. Cristo nos faz novas criaturas quando nos unimos a ele, mas isto não é algo mágico, não acontece uma transformação de nossa natureza caída num momento. Pelo contrário, precisamos deixar-nos revestir do Senhor Jesus a fim de vencermos nossas próprias tendências pecaminosas, e assim, nos tornarmos a igreja gloriosa que ele espera que sejamos.

Quando Deus, após dar ao profeta Ezequiel, a visão do vale de ossos secos, e informá-lo de que aquele vale cheio de morte, era a representação precisa do estado espiritual da nação de Israel, ele pergunta ao seu perplexo profeta: Poderão estes ossos reviver? O profeta não foi capaz de dizer que sim, e talvez, não tenha tido a coragem de dizer que não. A este questionamento ele respondeu simplesmente: "Senhor, tu o sabes" (Ez 37.3b). Diante desta resposta, Deus diz ao atordoado profeta: Profetiza... E ao profetizar, o profeta viu que um grande exército se formava. A nação morta de Israel, continuou em sua caminhada de morte, mas, sob o comando de Jesus Cristo, um grande exército tem marchado pelo mundo, espalhando as sementes da vida.

Quando olhamos para nós mesmos, o que vemos? Um exército que marcha vitorioso e espalha as sementes da vida? Um grupo eclesiástico orgulhoso de sua ortodoxia? Um vale de ossos secos? Quando ouço pessoas afirmando que nossa igreja tem problemas percebo que dificilmente poderíamos se comparados a um grande e vitorioso exército.


A solução para a igreja de Jesus neste dias é a mesma solução apontada por Deus ao Profeta Ezequiel. Ele disse: “Profetiza...” Profetizar é anunciar a vontade de Deus. Precisamos retornar a Palavra para conseguirmos amar a igreja de Jesus. A igreja não é o templo. A igreja não é a instituição religiosa. A igreja é a pessoa que se senta ao seu lado, neste momento. Quando o profeta profetizou, houve um barulho e os ossos foram cobertos de tendões e carnes, mas ainda não havia vida. Então Deus disse-lhe: “Profetiza para que lhes entre o Espírito...”. É disto que precisamos. Que o Espírito Santo nos traga a verdadeira vida. Que ele derrame em nós o amor de Deus (Rm 5.5), e nos encha de sua graça para que possamos viver em amor e ser edificados verdadeiramente como um santuário digno para morada do Senhor. Que Deus nos abençoe.

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