“Também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra
edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão
contra ela”. Mt 16.18
Quando
falamos de igreja, a imagem que normalmente nos vem a mente é a de
um templo, com um nome específico que identifica uma determinada
instituição religiosa. Esta, porém, é uma noção equivocada
acerca daquilo que a Bíblia Sagrada chama de igreja. A palavra
igreja, na verdade não designa um local, ou uma construção, nem
mesmo uma instituição, mas um grupo de pessoas que amam e servem a
Jesus Cristo como seus discípulos. Este é o conceito ao qual Jesus
se referiu quando afirmou que iria edificar a sua igreja. É
importante destacar que ele não disse que iria edificar suas igrejas
mas a sua igreja. Apenas uma única igreja. Só quando começarmos a
pensar na igreja como sendo um grupo de pessoas, reunidas pelo poder
do Espírito Santo, e que se caracterizam pelo amor a Deus acima de
todas as coisas, e ao próximo como a si mesmas. é que teremos como
entender certas metáforas que jamais poderíamos compreender
enquanto vemos a igreja como uma simples instituição, ou um templo, construído de tijolos. Por exemplo: A igreja é comparada a uma
noiva, que deve se preparar para encontrar-se com seu noivo, Jesus
Cristo. Esta é uma metáfora impossível de ser compreendida a menos
que cheguemos a entender que a igreja são as pessoas, e não o
local, onde as pessoas se reúnem.
A partir
desta verdade acerca da constituição orgânica da igreja, temos que
entender que a edificação da igreja não acontece quando cuidamos
das coisas da igreja, como o templo, seu patrimônio ou mesmo de suas
tradições históricas. A edificação da igreja só acontece quando
cuidamos das pessoas que se reúnem em nome de Jesus Cristo, e as
quais estamos ligados pela ação do Espírito Santo de Deus.
Infelizmente a igreja de Jesus Cristo encontra-se fragmentada por
inúmeras divisões e lutas internas, que tem minado sua capacidade de
testemunhar, e roubado sua alegria para celebrar a presença de seu
Senhor.
É por
isso, que precisamos nos voltar para a revelação de Deus, para que
possamos entender como Deus quer promover o desenvolvimento saudável
de sua igreja. Existem algumas verdades que são fundamentais e que
nós não podemos ignorar.
A
primeira destas verdades que nos é revelada no texto sagrado é que
só Jesus Cristo é o edificador de sua igreja. Quando ele diz: “Eu
edificarei a minha igreja...”, estas palavras excluem qualquer
outro edificador. Precisamos perceber que somos apenas cooperadores
de Deus (2 Co 6.1; 3 Jo 1.8), e como tal, nossa missão e ação
através da igreja deve se pautar pela obediência as suas ordens que
são claras. Nosso papel é o de servos e não de senhores. O rei
Salomão, que edificou o templo do Senhor em Jerusalém, refletindo
acerca da obra que fazia chegou a conclusão que: “Se o Senhor
não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Sl
127.1). Ora, se tal conclusão era verdadeira no que diz respeito a
construção de um templo para o povo de Deus se reunir, quanto mais
verdadeira não será, na edificação da casa espiritual onde o
Espírito do Senhor habita, a sua igreja, a noiva de Cristo.
Precisamos entender que Jesus está edificando um santuário para
habitação da Trindade Santa. É por isso que o apóstolo Paulo,
escrevendo aos membros da igreja dos Coríntios, que se encontravam
divididos em facões, os repreende dizendo: “Não sabeis que sois
santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se
alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o
santuário de Deus, que sois vós, é sagrado”. (1 Co 3.16-17).
Queridos,
Paulo ao escrever aos Coríntios falava do perigo de as divisões
internas da igreja virem a causar a sua destruição, e alerta para o
risco que isso implicava para os próprios membros daquela igreja.
Como igreja, coletivamente reunidos sob os olhos de Cristo, somos um
santuário sagrado, e ninguém pode causar dano ao Corpo de Cristo, impunemente. É por isso que temos que amar a igreja, entendendo que
a igreja não é a denominação, mas é o grupo de pessoas com quem
convivemos, e que foram reunidas por Cristo em um mesmo ambiente
eclesiástico. Quem não ama as pessoas ao seu redor, por mais que
diga que ama a igreja, na verdade está enganando seu próprio
coração.
As
divisões surgem nas igrejas porque as pessoas brigam tentando impor
sua vontade uns aos outros. Destas brigas surgem ressentimentos que, sendo cultivados, geram divisões internas que tiram da igreja o seu
poder para testemunhar e para edificar aqueles que já se encontram
em seu meio. Ora, uma igreja edificada sobre o fundamento da vontade
humana certamente não é uma igreja cheia do poder do Senhor Jesus
Cristo. E é fácil perceber quando isto está acontecendo, porque
onde a vontade humana impera no lugar da vontade de Deus, o poder de
Deus se torna apenas uma lembrança de tempos passados. Quando a
vontade de Deus está reinando, a igreja se torna viva, poderosa,
operosa, e produz fruto abundante que glorifica a Deus (Jo 15.8).
Queridos, se uma igreja não está produzindo fruto, ela simplesmente
não está glorificando a Deus, por mais que sejam lindos os cânticos
que são entoados no culto de domingo a noite.
Podemos ver um claro exemplo dessa verdade na história de Israel. A nação de Israel frequentava o templo com regularidade. Sacrifícios de animais eram oferecidos diariamente, de acordo com a prescrição da Lei de Moisés, o ministério dos levitas cantores, organizados em turnos desde a época do Rei Davi, providenciava para que a adoração através de cânticos jamais cessasse. No entanto, o capítulo 37 do livro do profeta Ezequiel registra uma impressionante
visão dada por Deus ao seu profeta. É uma imagem terrível, que ilustra
o que pode acontecer a uma igreja, onde a vontade humana tenha
prevalecido e sido entronizada no lugar da vontade de Deus. Quando o
ser humano impõe a sua vontade, independente do grupo eclesiástico
ao qual ele pertença, a igreja morre. Temos que amar uns aos outros
e não lutar uns contra os outros. Ezequiel viu um vale cheio de
ossos secos. Tudo o que via, até onde a vista alcançava eram ossos
mortos. Mas o pior ainda estava por vir. A grande surpresa do profeta
veio quando Deus lhe informou que aquela visão era o retrato da
condição espiritual da nação de Israel. Era a condição
espiritual do povo que se reunia no templo de Jerusalém, para adorar
o Deus de Israel. Era a realidade acerca das pessoas que afirmavam
ser o povo de Deus, mas que aos olhos de Deus, não passavam de um
povo espiritualmente morto.
Aqui nós
precisamos parar e refletir. Como este povo chegou a esta condição
deplorável? O que os levou a este estado de morte espiritual? Porque
a nação inteira chegou a esta terrível condição? A resposta a
estas perguntas pode ser encontrada nos registros dos profetas que, continuamente, haviam repreendido a nação de Israel, tentando levá-la
ao arrependimento. O povo havia abandonado a Palavra do Senhor.
Deixaram de lado a vontade de Deus e passaram a fazer sua própria
vontade. Acharam que era possível ser o povo de Deus e viver como o
povo do mundo. Ao se afastar da vontade de Deus, o povo de Israel se
afastou do manancial de onde fluía sua força e sua vida, e acabou
tornando-se um vale de ossos ressequidos, sem poder e sem vida.
Queridos
irmãos precisamos entender que só os vivos podem gerar vida.
Aqueles que estão mortos geram apenas mais morte. Foi por isto que, desde os seus primórdios, os seres humanos perceberam que tinham que
se livrar dos corpos mortos dos seus entes queridos. Se não fossem
enterrados, os corpos em estado de putrefação começavam
rapidamente a provocar doenças e morte. Este é um princípio da
vida biológica que também se aplica a vida espiritual. Só os vivos
transmitem as sementes da vida, os mortos sempre transmitirão as
sementes da morte. Quando você estiver conversando com alguém
preste atenção as sua palavras, pergunte a si mesmo: O que estou
transmitindo? Sementes de vida ou sementes de morte? Estou edificando
com minhas palavras? Ou estou destruindo? Minha conversa vai edificar
esta pessoa, tornando-a melhor? Ou vai piorar sua condição
espiritual? A que propósitos estou servindo, aos de Jesus Cristo, ou
aos meus? Quem ama seus irmãos não fala mal deles, sob nenhuma
hipótese, por mais que isto possa parecer ter um motivo justo ou
piedoso. Não podemos edificar a igreja do Senhor, falando mal dos
filhos do Senhor.
A segunda
coisa importante que precisamos entender, é que, aquele que edifica, é
o único que possui autoridade absoluta sobre sua igreja. Jesus
Cristo é o edificador da igreja. Ele é o seu Senhor, e portanto,
ele é o único que possui autoridade plena sobre ela. Toda a
autoridade dada por Cristo a sua igreja deve ser exercida em seu nome, e só é legitimamente exercida, dentro dos limites estabelecidos pelo
próprio Senhor. Compete a todos os membros da igreja reconhecer, os
limites e os propósitos, da autoridade que foi entregue, por Jesus, à sua igreja.
No que
diz respeito aos limites, é preciso reconhecer que a autoridade que
nos foi entregue é de natureza puramente espiritual. Ninguém que
ultrapasse este limite pode arvorar-se em arauto do Senhor. Ninguém
pode querer exercer controle sobre a vida de outras pessoas, sobre
seus assuntos particulares, sobre sua maneira de viver e administrar
seus próprios negócios neste mundo, sem extrapolar os limites da
autoridade que nos foi entregue pelo Senhor Jesus. Sempre que este
limite foi ultrapassado, a autoridade exercida foi ilegítima,
espúria e carnal, trazendo prejuízos e não benefícios à igreja.
Quanto ao
propósito, precisamos entender que a autoridade dada por Cristo à
sua igreja, visa tão somente a edificação do seu Corpo. Nenhum
exercício de autoridade é legítimo se não visa a edificação
daqueles sobre quem ela é exercida. Nenhuma admoestação, nenhuma
exortação é legítima se não tiver o objetivo de tornar aqueles a
quem é dirigida mais parecidos com Jesus. Aqui, novamente, precisamos
refletir. Quantas palavras tem sido pronunciadas pela igreja de modo
frívolo. Quantas palavras tem sido pronunciadas contra outros
irmãos, apenas para firmar uma posição que se quer defender, e para
a qual se procuram adeptos, em nome de interesses pessoais, e não em
nome dos interesses de Jesus. No fim, as pessoas sentem-se feridas,
afastam-se, tornam-se como ossos secos. O poder para transformar
vidas desaparece da igreja, e, a medida que as pessoas se justificam
umas com as outras, tornam-se como esqueletos ressequidos,
disseminando as sementes da morte.
Será
este quadro estranho a nós? Parecemos um manancial onde os sedentos
deste mundo conseguem matar sua sede de Deus? Quantos se converteram
a Jesus com o nosso testemunho nos últimos anos? Deixe-me colocar
isto de outra maneira. Quanto tempo faz que alguém encontrou a
salvação em Cristo Jesus, e a vida abundante que ele veio trazer,
através do nosso testemunho como igreja? O que estamos transmitindo,
de fato, as sementes da vida ou as sementes da morte?
O texto
sagrado nos informa que, após informar os discípulos que ele iria
edificar a sua igreja, Jesus começa a dizer-lhes que era necessário
ir a Jerusalém, sofrer nas mãos dos religiosos, ser morto e
ressuscitar. Pedro logo escandalizou-se, e foi imediatamente
repreendido por Jesus. O Senhor deixa claro, a partir deste ensino, que
a igreja não poderia existir sem sua morte e ressurreição (Jo
12.24). Ele precisava morrer a fim de poder produzir o fruto que Deus, o Pai esperava d`Ele. Ele abriu mão de sua vida por nós, e por isso
estamos hoje aqui. Se Jesus não tivesse tomado a decisão de morrer
por nós, não haveria igreja, não haveria noiva do cordeiro, não
haveria bodas do Cordeiro, haveria apenas morte espiritual e a
certeza da condenação eterna.
O que nós
temos que entender agora é que o Senhor Jesus espera de nós uma
atitude igual a sua. Ele espera que nós aceitemos como necessária a
morte de nossa velha natureza, a fim de que ele possa nos transformar
em novas criaturas (2 Co 5.17). É por isso que o apóstolo Paulo
escreve: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena”
(Cl 3.5). São as características do velho homem, imperando em nós,
que nos afastam uns dos outros e, consequentemente, do poder
transformador do evangelho que pregamos. Cristo nos faz novas
criaturas quando nos unimos a ele, mas isto não é algo mágico, não
acontece uma transformação de nossa natureza caída num momento.
Pelo contrário, precisamos deixar-nos revestir do Senhor Jesus a fim
de vencermos nossas próprias tendências pecaminosas, e assim, nos
tornarmos a igreja gloriosa que ele espera que sejamos.
Quando
Deus, após dar ao profeta Ezequiel, a visão do vale de ossos secos,
e informá-lo de que aquele vale cheio de morte, era a representação
precisa do estado espiritual da nação de Israel, ele pergunta ao
seu perplexo profeta: Poderão estes ossos reviver? O profeta não
foi capaz de dizer que sim, e talvez, não tenha tido a coragem de
dizer que não. A este questionamento ele respondeu simplesmente: "Senhor, tu o sabes" (Ez 37.3b). Diante desta resposta, Deus diz ao
atordoado profeta: Profetiza... E ao profetizar, o profeta viu que um grande
exército se formava. A nação morta de Israel, continuou em sua
caminhada de morte, mas, sob o comando de Jesus Cristo, um grande
exército tem marchado pelo mundo, espalhando as sementes da vida.
Quando
olhamos para nós mesmos, o que vemos? Um exército que marcha
vitorioso e espalha as sementes da vida? Um grupo eclesiástico
orgulhoso de sua ortodoxia? Um vale de ossos secos? Quando ouço
pessoas afirmando que nossa igreja tem problemas percebo que
dificilmente poderíamos se comparados a um grande e vitorioso
exército.
A solução
para a igreja de Jesus neste dias é a mesma solução apontada por
Deus ao Profeta Ezequiel. Ele disse: “Profetiza...”
Profetizar é anunciar a vontade de Deus. Precisamos retornar a
Palavra para conseguirmos amar a igreja de Jesus. A igreja não é o
templo. A igreja não é a instituição religiosa. A igreja é a
pessoa que se senta ao seu lado, neste momento. Quando o profeta
profetizou, houve um barulho e os ossos foram cobertos de tendões e
carnes, mas ainda não havia vida. Então Deus disse-lhe: “Profetiza
para que lhes entre o Espírito...”. É disto que precisamos.
Que o Espírito Santo nos traga a verdadeira vida. Que ele derrame em
nós o amor de Deus (Rm 5.5), e nos encha de sua graça para que
possamos viver em amor e ser edificados verdadeiramente como um
santuário digno para morada do Senhor. Que Deus nos abençoe.
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