quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Deixe a ansiedade e busque o reino de Deus e sua justiça

           “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”.
Mt 6.33

Estas palavras de Jesus, tantas vezes repetidas, e tão mal compreendidas, são o corolário de um argumento incrivelmente simples e de tremendas consequências para a vida daqueles que, de fato, se entregam totalmente à graça do Senhor, atrevendo-se a confiar na sua promessa.

Jesus começa esta seção de seu ensino no versículo 25, encorajando seus ouvintes a deixar de lado a ansiedade a fim de poderem confiar plenamente em Deus. Ele aborda nesta passagem (Mt 6.25-34), duas questões sensíveis a todos os seres humanos: os cuidados relacionados à manutenção da vida e os cuidados relacionados à manutenção da qualidade da vida. Os cuidados com a preservação da vida são representados através daquilo que é mais básico para a preservação da existência de qualquer criatura: A preocupação com o que comer e com o que beber. Já os cuidados com a manutenção da qualidade da vida são representados com as preocupações relacionadas com o que vestir.

Jesus, em sua argumentação, nos convida a considerar tanto a falta de necessidade de ficarmos ansiosos com estas coisas, como a inutilidade de nossa ansiedade. Para demonstrar a falta de necessidade de ficarmos ansiosos, ele nos convida a observarmos as aves dos céus e os lírios do campo. Seu argumento é simples: as aves não semeiam nem colhem, tampouco ajuntam em celeiros, mas Deus as sustenta em todo o tempo. Ora, se Deus se preocupa em preservar a vida das pequenas aves, como ele não se preocuparia em preservar a vida humana, muito mais valiosa, aos seus olhos, do que as aves. Em seguida, ele nos convida a observarmos os lírios do campo. Pequenas flores que crescem por si mesmas, e que os israelitas estavam acostumados a ver em todo canto. Os lírios não desenvolviam as árduas tarefas relacionadas à produção de fios, que seriam posteriormente transformados em tecidos, para a produção de roupas. O argumento de Cristo aqui é contundente: “Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” (v.29). Jesus afirma, deliberadamente, que nem o mais rico e sábio de todos os reis que a nação de Israel havia tido, se vestira tão bem como qualquer um dos lírios que cresciam nos campos daquela nação. Jesus não diz que Salomão não se vestira como o rei dos lírios, ele diz que ele, com toda a sua riqueza, e toda a sua sabedoria, em toda a sua glória, não havia conseguido se vestir como qualquer um dos lírios, que existiam nas campinas de Israel. Aqui, novamente se impõe a lógica do argumento de Jesus: Se Deus veste tão bem a erva do campo, como não se preocuparia em vestir e cuidar dos seres humanos, que são mais valiosos que quaisquer espécies de plantas? Jesus coroa estes dois argumentos com a seguinte afirmação: a vida vale mais que os alimentos e o corpo vale mais que as vestes, e Deus sabe disso e cuida pessoalmente destas necessidades. Com estas duas comparações, Jesus demonstra que não há qualquer necessidade de vivermos ansiosos com relação às necessidades básicas de sobrevivência.

Jesus, porém, não se limita a demonstrar que não temos necessidade de viver ansiosos. Ele também demonstra a inutilidade deste tipo de ansiedade. Ele o faz quando pergunta: “Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (v.27) Esta é uma pergunta retórica. A resposta a ela é, ninguém. Ninguém, por mais ansioso que esteja consegue acrescentar uma hora sequer a sua própria existência. E, este fato, já é anunciado pelo salmista Davi, muitos séculos antes de Jesus assumir a natureza humana e habitar entre nós. Ele o faz nos seguintes termos: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16). Esta passagem nos ajuda a entender a lógica de Jesus, quando pergunta quem pode acrescentar um côvado a sua vida. O que o rei Davi nos ensina nesta passagem é que, embora não possamos entender como, o ser humano nasce com seus dias determinados. Cada ser humano já nasce com um número fixo de dias para viver. E este número de dias não pode ser esticado pelo querer ou pela ansiedade dos seres humanos.

Olhando as manchetes dos jornais, dia a dia, e vendo a violência ao nosso redor, vendo o número de pessoas que morrem jovens, vitimadas por doenças, pela violência do transito ou pela violência dos criminosos, chegamos a pensar que muitos partem deste mundo antes da hora. Temos a impressão que pessoas que partiram deste mundo, viveriam muitos anos ainda, se não fosse aquela circunstância específica que lhes ceifou a vida. O que o rei Davi nos ensina, porém, é que cada um dos dias de nossas vidas foi escrito e determinado, antes que existisse qualquer um deles. O que Jesus pergunta aos seus ouvintes, tem a ver com esta verdade ensinada por Davi. Quem, por ansioso que esteja, consegue esticar em apenas algumas horas, o tempo de vida que foi determinado por Deus, antes que nascêssemos? E, a única resposta verdadeira, é que nenhum de nós tem este poder. Nenhum de nós, por mais ansiosos que possamos estar, por mais que nos preocupemos, por mais que gastemos dinheiro com todo tipo de providências para tentar esticar nossos dias, ninguém é capaz de fazer avançar o tempo determinado pelo Senhor. Por outro lado, nada nem ninguém é capaz de frustrar os propósitos de Deus. Ele criou a vida, ele nos criou, e ele mesmo determinou o tempo de duração de nossa existência terrena. O que Jesus está tentando nos fazer entender, é que o próprio Deus Pai é o responsável por garantir que cada dia determinado para nossa existência se cumpra, e que ninguém tem o poder de impedi-lo, por isso, podemos confiar em sua provisão para nossa existência.

Existem muitas coisas nesta vida que não sabemos. Certo tipo de ignorância, porém, é uma bênção. Não sabemos quantos anos vamos viver. Não sabemos em que circunstâncias vamos morrer. Não sabemos o dia em que isto acontecerá. E podemos dar graças a Deus por este tipo de ignorância, porque a maioria esmagadora dos seres humanos não saberia lidar com este tipo de informação, e viveria em absoluto desespero, ou de modo absolutamente inconsequente. Existe, porém, uma verdade que precisamos conhecer, com respeito a duração de nossa vida nesta terra. É que ela não terminará, nem antes, nem depois, do tempo determinado por Deus. Quando conseguirmos confiar nesta verdade, seremos livres, para gozar a vida abundante que ele planejou para nós. E esta vida abundante começa, em nossa experiência prática, quando começamos a obedecer a ordem de prioridade estabelecida por Jesus. Quando ele nos diz: “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. Jesus não está apenas dando uma ordem e acrescentando uma promessa de bênção aos obedientes. É claro que, qualquer discípulo do Senhor entende, que esta é uma instrução que deve ser obedecida, e que traz consigo uma promessa de bênçãos materiais, mas, não é somente isto. Ele está, na verdade, estabelecendo uma ordem de prioridades que, se obedecida, tem como consequência natural, o acréscimo da parte de Deus, de tudo aquilo que é necessário a manutenção de nossas vidas e da qualidade de vida que vivemos. Ou seja, é quando obedecemos a esta ordem de prioridade, que podemos, de fato, experimentar a vida abundante (João 10.10) que ele veio tornar possível, a cada um dos seus discípulos. O que Jesus está ensinando é que, assim como os pássaros não se preocupam em semear, mas gastam todo o tempo cantando e louvando a Deus, vivendo como Deus planejou que vivessem, e como consequência natural, Deus os sustenta durante todo o período de suas vidas. E, assim como os lírios, que também não trabalham nem fiam, mas, glorificam a Deus, vivendo a vida que ele planejou para eles, e que como consequência natural, são vestidos de uma maneira tão maravilhosa por Deus. Qualquer um de nós, que ousar confiar no Senhor, a ponto de buscar em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça, terá, como consequência natural, estas outras coisas necessárias a existência, acrescentadas pela graça de Deus. Jesus não está dizendo que não devemos buscar outras coisas. Há certamente coisas que devem ser buscadas em segundo e em terceiro lugar. Todos precisamos trabalhar, pois, desde o pecado de Adão, Deus estabeleceu que “No suor do teu rosto comerás o teu pão….” (Gn 3.19), e o apóstolo Paulo, chega ao extremo de dizer: “se alguém não quer trabalhar, também não coma….” (2 Ts 3.10). Ora, estas passagens deixam clara a responsabilidade humana de lutar por sua subsistência, portanto, o que Jesus está nos ensinando, não é que devemos deixar os compromissos de lado, para viver dentro de um templo, ou apenas orando, mas que, de todos os nossos compromissos, os mais importantes são buscar o seu reino e a sua justiça, e uma vez que estejamos engajados em um estilo de vida que demonstre isto, nossos esforços, em outras áreas de nossa atuação, serão influenciados por estas prioridades, e abençoados de tal forma, que as outras coisas das quais necessitamos serão acrescentadas, naturalmente, a cada um de nós. Neste ponto, cabe então perguntar: O que significa buscar o reino de Deus? Como podemos buscá-lo? E o que significa buscar a justiça do reino? É importante definirmos primeiro o que é o reino de Deus.

Muitos tem entendido que o reino de Deus é composto pela igreja, mas, na verdade, embora a igreja seja parte do reino, ela não pode ser definida como sendo a totalidade do reino de Deus. Gosto de pensar no reino de Deus como sendo a totalidade do universo. Em todo lugar onde o governo de Deus está instalado, ai está o reino de Deus. Jesus chegou a dizer aos fariseus que o inquiriam que o reino de Deus estava “dentro de vós” (Lc 17.21). Naturalmente, ele não estava ensinando que o reino estava dentro dos fariseus incrédulos, mas entre eles, no meio da nação. Creio que ele quis dizer que, onde quer que alguém estivesse obedecendo a Deus, ou seja, onde quer que alguém aceitasse o seu governo, ali estava o reino de Deus em ação. Buscar o reino de Deus em primeiro lugar, portanto, é buscar colocar-se sob o governo de Deus. Esta é a principal preocupação que devemos ter na vida. Devemos procurar, sempre, ter a certeza que cada uma de nossas ações, seja no âmbito do trabalho secular, em nossas atividades recreativas ou em nossas relações eclesiásticas, tudo o que fizermos, reflete a escolha consciente, de nos colocar sob o governo divino. Que nossas ações sejam marcadas pela obediência a vontade revelada de Deus. E, é evidente que, do ponto de vista carnal, não temos quaisquer condições de viver este estilo de vida (cf. Rm 7.14-20). É por isso que se faz necessário lançar mão dos recursos, que o próprio Senhor Jesus utilizou, para viver sua vida entre nós (Fp 2.12-13). Ele dedicou-se intensamente a oração e ao estudo da palavra de Deus, e nós devemos fazer o mesmo, pois, é na intimidade com o Senhor, que encontramos forças para vivermos em obediência à sua palava.

E quanto a buscar a justiça do reino? Bem, está questão está intimamente ligada a anterior e diretamente subordinada a ela. É impossível buscar a justiça do reino, sem antes buscar o reino. Esta é uma daquelas questões, que nos revelam a total incapacidade dos governantes deste mundo, de implantarem um governo justo, para todos os seus cidadãos, sem levar em conta os ditames da palavra de Deus. Buscar o reino de Deus, é buscar colocar-se sob o governo de Deus. E buscar a justiça do reino de Deus, é relacionar-se com as pessoas ao seu redor, a partir da obediência aos valores do reino. Aqueles que não buscam conscientemente se colocar sob o governo de Deus, jamais conseguirão governar bem em nome de Deus. O apóstolo Paulo resumiu toda a lei de Deus, ou seja, todos os valores do reino de Deus, em um único preceito, ao dizer que: “… toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14). Buscar a justiça do reino de Deus, portanto, é procurar relacionar-se com as pessoas ao seu redor, a partir do princípio de que é preciso amar as pessoas de maneira incondicional. Amar, não porque as pessoas ao nosso redor merecem ser amadas, certamente elas não merecem, mas, porque elas precisam ser amadas. Jesus não nos amou porque merecíamos ser amados, mas, porque, precisávamos desesperadamente do seu amor. Buscar a justiça do reino de Deus, significa viver uma vida semelhante àquela que o próprio Jesus viveu. Esta é a exortação do apóstolo Paulo, quando nos desafia, dizendo: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef 5.1-2). Ninguém, neste mundo, buscou mais o reino de Deus e a sua justiça, do que o próprio Senhor Jesus Cristo. Buscar, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, significa procurar ser um imitador de Jesus Cristo. Imitá-lo em sua vida de oração; imitá-lo em seus relacionamentos pessoais; imitá-lo na forma como ele dava testemunho das coisas de Deus; imitá-lo na forma como ele condenava o pecado humano, sem, no entanto, condenar o ser humano. Principalmente, imitá-lo na sua atitude perdoadora em relação àqueles que são flagrados em alguma falha ou pecado grave, ainda que jamais relativizando a gravidade do pecado (João 8.1-11).
Nossos problemas geralmente podem ser resumidos a um só. Aturdidos pelas necessidades e enganados pela ansiedade, em conseguir as coisas que são essenciais a manutenção da vida, geralmente, invertemos as prioridades estabelecidas por Jesus. Em primeiro lugar, nos desgastamos com o trabalho secular, para garantir o dinheiro necessário a fim de bancar as necessidades da vida; depois gastamos uma parcela significativa de nosso tempo restante, para nos divertir e distrair, a fim de nos refazermos emocionalmente do estresse causado pelo trabalho; e só então, se sobrar um tempinho, nos lembramos de Deus e das coisas de Deus; e se o cansaço não for muito, então nos dispomos a dar uma passadinha no templo; e a assistirmos um culto de adoração ao Senhor. Ou seja, em vez de darmos ao Senhor, as primícias de nosso tempo, de nossa atenção, de nossas forças e de nossas alegrias, damos a ele, na melhor das hipóteses, as sobras. Isto quando damos alguma coisa, pois, há muitos que, por se sentirem cansados, não dão nada a Deus durante o dia inteiro, lembrando-se dele apenas em alguma necessidade urgente. O convite de Jesus Cristo é para invertermos esta rotina. Que deixemos a ansiedade com as coisas relacionadas a esta vida, e busquemos o seu reino e a sua justiça em primeiro lugar, confiando que, as demais coisas, nos serão amplamente acrescentadas.

Buscar o reino de Deus e a sua justiça, porém, implica em pelo menos duas outras coisas. A primeira é o compromisso com a igreja de Deus. Muitos, nos dias de hoje, se dizem cristãos, porém, rejeitam assumir quaisquer compromissos com a igreja. O Senhor Jesus, porém, jamais ensinou ser possível tornar-se um dos seus discípulos, sem ser membro de sua igreja. Uma forma mais branda desta postura, é aquela adotada por aqueles que não rejeitam a igreja em si, porém, se limitam a assistir a um culto uma vez ou outra, chegando há ficar meses sem aparecer no templo, ou sem experimentar qualquer outra forma de comunhão com os irmãos. O escritor aos hebreus nos admoesta para que: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quento vedes que o Dia se aproxima. Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10.25-27). Ora, é evidente que o autor sacro supracitado, considerava o ato de abandonar a igreja, ou de não assumir compromisso com a mesma, como uma decisão de viver deliberadamente em pecado, e é claro, que quem vive deliberadamente em pecado, não está, de modo algum, buscando o reino de Deus.

A segunda responsabilidade de quem busca em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, é o compromisso de ser uma fiel testemunha de Cristo. Em diversas ocasiões, Jesus ordenou que seus discípulos dessem testemunho acerca de sua pessoa e de sua obra, e deixou claro que, este é o único meio de alcançar aqueles que foram destinados à salvação (Mc 16.15-16; Jo 20.21-23; At 1.8; Mt 28.18-20). Ninguém, que sinceramente busca o reino de Deus e sua justiça, pode deixar de ser uma testemunha idônea do Senhor Jesus Cristo.

Estes são, portanto, os compromissos que precisamos assumir, se queremos, de fato, buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça. Se assim o fizermos, a promessa de Jesus é que todas as outras coisas de que necessitamos, nos serão acrescentadas. Que Deus nos abençoe, capacite e ajude a sermos fiéis. Amém.

O que celebramos no Natal?


           “Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura. E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem”.
Lc 2.8-14



Em uma época em que o Natal é celebrado com significados tão diferentes, por pessoas tão diferentes como os budistas japoneses, os ateus europeus e americanos, que podem ser divididos em dois grandes grupos, que são os ateus práticos, que formam a maioria esmagadora dos ateus e os ateus dogmáticos, que são aqueles que buscam argumentos lógicos para negar a existência de Deus, os comunistas russos e chineses, os agnósticos, os espíritas: Kardecistas, umbandistas, adeptos do candomblé e da quimbanda, e, milhões de pessoas sem religião definida, mas que afirmam, acreditar na existência divina, e praticar algum tipo de espiritualidade. Em um tempo em que, por outro lado, muitos líderes de igrejas evangélicas, tem ensinado suas congregações a não celebrar o Natal, tratando esta celebração como uma festa pagã, é importante refletirmos acerca do que significa o Natal, e o que nós, servos do Senhor, temos para celebrar nesta época do ano.

A partir do texto de Lucas, quero avaliar algumas verdades, que deveriam nos levar a reflexão, e a uma avaliação sincera, dos nossos verdadeiros motivos para a celebração do Natal. A primeira destas verdades, é que a data precisa do nascimento de Jesus Cristo é desconhecida. O texto sagrado não nos dá quaisquer indícios, que nos permitam afirmar, em que época do ano, Jesus Cristo nasceu. Alguns dos líderes, que não celebram mais o natal em suas comunidades, alegam que, o fato de naquela região, o mês de dezembro ser inverno, torna impossível que Jesus tenha nascido nesta época do ano, pois o rebanho estava sendo cuidado a céu aberto, e segundo eles, isto significa que não poderia ser inverno. Esta é uma afirmação equivocada, pois, naquela região, os animais usados para o sacrifício no templo, eram mantidos nos campos, mesmo no inverno. Esta questão de data, portanto, jamais deveria ser um empecilho, para, quem quer que seja, deixar de celebrar o Natal. Outros alegam que já celebram a vinda de Cristo o ano inteiro, e que, portanto, não há necessidade de celebrar o Natal, em um dia específico. Quero dizer que conheço muitos líderes que adotam tal argumento, mas que, em suas vidas pessoais, jamais deixaram de celebrar o próprio aniversário em data específica, ou o aniversário dos filhos, ou o aniversário de casamento. Este, portanto, é outro argumento fraco para justificar a não celebração da encarnação do Filho de Deus. Devemos nos perguntar: O que, de fato, aconteceu de importante naquela noite em Belém, que deveria ser celebrado por nós? Afinal de contas, o que há de mais, no fato de uma mulher pobre, dar a luz, solitária, em algum lugar perdido, de uma região rural da Palestina, a mais de dois mil anos atrás? Não haveria nada a celebrar, se o fato não tivesse sido celebrado nos céus. O texto sagrado nos informa que, logo após o anuncio do nascimento de Jesus, por parte do anjo enviado por Deus, “subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial louvando a Deus…” exatamente pelo fato de Jesus ter nascido naquela noite. Sem dúvida, aquilo que foi digno de ser celebrado pelos anjos de Deus, deve ser digno de ser celebrado por aqueles, a quem Jesus veio buscar e salvar. A milícia celestial celebrou o nascimento de Jesus, louvando a Deus na presença dos pastores, e, nós também, devemos celebrar o nascimento do Salvador, louvando a Deus, na presença de todos aqueles que ainda não o conhecem como seu Senhor e Salvador, na esperança de que, alguns sejam alcançados pela sua graça, e venham a fazer parte do seu povo. Neste ponto, precisamos perguntar: O que devemos celebrar no Natal? Em primeiro lugar, celebramos a encarnação do verbo divino. Os deístas, afirmam que Deus criou o mundo e, como um relojoeiro que dá corda no relógio e o põe para funcionar, Deus teria colocado ordem no mundo e, após estabelecer suas leis básicas de funcionamento, se afastou, deixando-nos a sós, com a responsabilidade de resolver os nossos próprios problemas. Esta é a meu ver, a doutrina da omissão divina. Um erro crasso. Uma doutrina ótima para atender aos interesses dos poderosos deste mundo, mas que nos deixa sem alguém a quem chamar de Pai. O nascimento de Jesus prova-nos que Deus não se omitiu em vista da nossa miséria. Ao contemplar a nossa condição decaída, e nossa completa incapacidade de fazer algo em nosso próprio benefício, o Senhor, movido de compaixão, nos enviou seu próprio filho, a fim de nos redimir de nossos pecados. Ao celebrar o nascimento de Cristo, celebramos o fato dele, por amor a nós, ter deixado a sua glória e entrado no estado de humilhação, assumindo a natureza humana e todas as suas limitações, assumindo entre os homens a condição de servo, pois ele mesmo disse que “… não veio para ser servido mas para servir…” (Mt 20.28; Mc 10.45), e, nesta condição, se humilhou e foi obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2.5-8).

Em segundo lugar, celebramos sua identificação conosco. A palavra de Deus nos diz que o mundo inteiro jaz no maligno (1 João 5.19b). Ou seja, nesta presente era, este mundo está sob o poder controlador do diabo. As evidências deste fato são inúmeras. Entre muitas outras, podemos destacar: o sofrimento generalizado da humanidade, as guerras, as doenças e a morte. Uma das maiores evidências, porém, de que o mundo jaz no maligno, é o estado de miséria moral do ser humano, e a dominação cruel que os ricos e poderosos exercem sobre os pobres. Ao profetizar a vinda do messias, Isaías nos informa que seu nome seria Emanuel, que quer dizer, Deus conosco (Is 7.14). Isto não significa que Isaías queria dizer que Jesus se identificaria com a humanidade de modo universal, como alguns defendem, mas, que ele estaria conosco, com aqueles que aceitassem o seu chamado, e se submetessem à sua autoridade. Quando os anjos vem anunciar o nascimento de Jesus, fica claro o seu compromisso com aqueles que estão desassistidos neste mundo. Eles não anunciam seu nascimento no palácio de Herodes, nem no Palácio do governador romano, nem tampouco, no templo, ou na casa do sumo sacerdote. Eles anunciam seu nascimento a um grupo de pastores que guardavam o rebanho no campo. Ora, o que há de significativo nisto? Bem, para começar os pastores eram uma das classes sociais mais pobres daquela época. Eram desprezados pelos religiosos, pelo fato de que sua profissão não lhes permitia a guarda da lei cerimonial, e, como viajavam pelo país inteiro, em busca de pastagens para os rebanhos, alguns acabavam tornando-se ladrões, o que colocava toda a classe dos pastores sob suspeita, de modo que seu testemunho sequer era aceito nos tribunais. Enfim, era uma classe totalmente desprezada, apesar do importante trabalho que realizavam. Deus quis anunciar o nascimento de seu filho, primeiramente, aos que eram desprezados por aqueles que se julgavam importantes, do ponto de vista social, político e religioso. Em segundo lugar, as condições do nascimento de Jesus, igualmente, demonstram, a opção do Senhor, em identificar-se com os fracos deste mundo. Ele nasceu de uma virgem pobre, sabemos disso porque ao nascer, precisou ser colocado em uma manjedoura. Seu primeiro berço foi um lugar onde os animais comem. E, finalmente, seus pais, ao apresentarem-no no templo, cumprindo os preceitos da lei, para a purificação de Maria, tiveram que oferecer a oferta daqueles que não tinham recursos financeiros, ou seja, em vez de um cordeiro para holocausto e um pombo pela oferta pelo pecado, foram obrigados, pela falta de recursos financeiros, a oferecer a oferta que os pobres eram obrigados a oferecer, um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lv 12.6-8; Ex 13.2). Celebramos, portanto, o fato de Jesus ter se identificado conosco, a fim de salvar-nos. Ao anunciar, aos pastores, o nascimento de Jesus, o anjo do Senhor nos fala de sua humildade, ao nos dizer que ele seria encontrado em uma manjedoura; nos fala de sua missão, ao nos informar que ele seria o salvador; e nos fala de sua glória, ao nos dizer que ele é o Senhor. Um senhor que deixou a sua glória, e assumiu a nossa humanidade, para nos resgatar de nossa miséria. Um senhor que, diferente do que fazem os senhores neste mundo, que põem fardos pesados nos ombros de seus servos, nos convida a nos aproximar dele, a fim de acharmos descanso para nossas almas  (Mt 11.28-30).

Em terceiro lugar, celebramos nossa eleição, para a salvação, pela fé em Cristo. Ao contrário daquilo que ensinam, aqueles que apregoam uma salvação universal, a milícia celestial, que aparece diante dos pastores, ensina uma expiação limitada. Este é o ensino claro, expresso no louvor da milícia celestial, que aparece repentinamente diante dos pastores, e que louvavam a Deus dizendo: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem”. Os anjos não dizem paz na terra entre todos os homens, mas apenas, entre aqueles a quem ele quer bem. Ora, os que defendem a salvação universal, afirmam que todos os homens serão salvos ao final dos tempos, mas não é isto que o Novo Testamento ensina. O anjo, que foi enviado a José, para tranquilizá-lo, quando ele pensava deixar Maria, secretamente, lhe diz acerca da missão de Jesus: “…ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). O anjo deixa claro a José que Jesus viria salvar o seu povo, e não todo o povo, mas somente aqueles que seriam o seu povo, ou seja, a sua igreja (Mt 16.18). Ele não disse a José: Ele salvará o teu povo, indicando o povo judeu, que era o povo ao qual José pertencia. Ao usar o possessivo, “seu”, o anjo, que se dirige a José, deixa claro que está se referindo ao povo do Senhor. E o próprio Senhor Jesus Cristo deixou claro que não veio salvar todos os seres humanos, mas apenas aqueles que reconhecia como seus. Em sua oração sacerdotal, ele ora ao Pai e deixa claro que não está orando por todos os seres humanos, mas diz claramente ao Pai que: “não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (Jo 17.9). Jesus, nesta passagem, faz uma clara distinção entre “aqueles que me deste”, pelos quais ele orava, e aqueles outros, que estavam no mundo, mas pelos quais ele não orava. Portanto, o nascimento de Jesus, não beneficia a todos, em termos de vida eterna, mas somente àqueles que, eleitos por Deus, ao ouvirem o chamado da graça, entregam-se aos ternos cuidados do Salvador (Ef 2.8-9). Celebramos, portanto, o privilégio de estarmos em Cristo, de termos sido eleitos pela graça de Deus para a salvação, em um mundo que jaz em trevas, e que caminha rapidamente para a destruição.


Em muitos países o natal não é celebrado. Geralmente nos países em que o cristianismo é uma religião proibida, e onde predominam outras religiões. Esta é uma situação natural do ponto de vista lógico. Aqueles que não reconhecem Jesus como o Messias e o Senhor, não podem reconhecê-lo, e nem tê-lo, como Salvador, portanto, para estes, nada há para celebrar nesta época do ano. O que não é lógico, nem natural, são as festas realizadas pelos milhões de pessoas que celebram o Natal sem reconhecer Jesus como Senhor, e sem tê-lo como Salvador. Quero terminar esta reflexão com uma pergunta pessoal: E você, tem alguma coisa para celebrar neste Natal?