quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Deixe a ansiedade e busque o reino de Deus e sua justiça

           “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”.
Mt 6.33

Estas palavras de Jesus, tantas vezes repetidas, e tão mal compreendidas, são o corolário de um argumento incrivelmente simples e de tremendas consequências para a vida daqueles que, de fato, se entregam totalmente à graça do Senhor, atrevendo-se a confiar na sua promessa.

Jesus começa esta seção de seu ensino no versículo 25, encorajando seus ouvintes a deixar de lado a ansiedade a fim de poderem confiar plenamente em Deus. Ele aborda nesta passagem (Mt 6.25-34), duas questões sensíveis a todos os seres humanos: os cuidados relacionados à manutenção da vida e os cuidados relacionados à manutenção da qualidade da vida. Os cuidados com a preservação da vida são representados através daquilo que é mais básico para a preservação da existência de qualquer criatura: A preocupação com o que comer e com o que beber. Já os cuidados com a manutenção da qualidade da vida são representados com as preocupações relacionadas com o que vestir.

Jesus, em sua argumentação, nos convida a considerar tanto a falta de necessidade de ficarmos ansiosos com estas coisas, como a inutilidade de nossa ansiedade. Para demonstrar a falta de necessidade de ficarmos ansiosos, ele nos convida a observarmos as aves dos céus e os lírios do campo. Seu argumento é simples: as aves não semeiam nem colhem, tampouco ajuntam em celeiros, mas Deus as sustenta em todo o tempo. Ora, se Deus se preocupa em preservar a vida das pequenas aves, como ele não se preocuparia em preservar a vida humana, muito mais valiosa, aos seus olhos, do que as aves. Em seguida, ele nos convida a observarmos os lírios do campo. Pequenas flores que crescem por si mesmas, e que os israelitas estavam acostumados a ver em todo canto. Os lírios não desenvolviam as árduas tarefas relacionadas à produção de fios, que seriam posteriormente transformados em tecidos, para a produção de roupas. O argumento de Cristo aqui é contundente: “Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” (v.29). Jesus afirma, deliberadamente, que nem o mais rico e sábio de todos os reis que a nação de Israel havia tido, se vestira tão bem como qualquer um dos lírios que cresciam nos campos daquela nação. Jesus não diz que Salomão não se vestira como o rei dos lírios, ele diz que ele, com toda a sua riqueza, e toda a sua sabedoria, em toda a sua glória, não havia conseguido se vestir como qualquer um dos lírios, que existiam nas campinas de Israel. Aqui, novamente se impõe a lógica do argumento de Jesus: Se Deus veste tão bem a erva do campo, como não se preocuparia em vestir e cuidar dos seres humanos, que são mais valiosos que quaisquer espécies de plantas? Jesus coroa estes dois argumentos com a seguinte afirmação: a vida vale mais que os alimentos e o corpo vale mais que as vestes, e Deus sabe disso e cuida pessoalmente destas necessidades. Com estas duas comparações, Jesus demonstra que não há qualquer necessidade de vivermos ansiosos com relação às necessidades básicas de sobrevivência.

Jesus, porém, não se limita a demonstrar que não temos necessidade de viver ansiosos. Ele também demonstra a inutilidade deste tipo de ansiedade. Ele o faz quando pergunta: “Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (v.27) Esta é uma pergunta retórica. A resposta a ela é, ninguém. Ninguém, por mais ansioso que esteja consegue acrescentar uma hora sequer a sua própria existência. E, este fato, já é anunciado pelo salmista Davi, muitos séculos antes de Jesus assumir a natureza humana e habitar entre nós. Ele o faz nos seguintes termos: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16). Esta passagem nos ajuda a entender a lógica de Jesus, quando pergunta quem pode acrescentar um côvado a sua vida. O que o rei Davi nos ensina nesta passagem é que, embora não possamos entender como, o ser humano nasce com seus dias determinados. Cada ser humano já nasce com um número fixo de dias para viver. E este número de dias não pode ser esticado pelo querer ou pela ansiedade dos seres humanos.

Olhando as manchetes dos jornais, dia a dia, e vendo a violência ao nosso redor, vendo o número de pessoas que morrem jovens, vitimadas por doenças, pela violência do transito ou pela violência dos criminosos, chegamos a pensar que muitos partem deste mundo antes da hora. Temos a impressão que pessoas que partiram deste mundo, viveriam muitos anos ainda, se não fosse aquela circunstância específica que lhes ceifou a vida. O que o rei Davi nos ensina, porém, é que cada um dos dias de nossas vidas foi escrito e determinado, antes que existisse qualquer um deles. O que Jesus pergunta aos seus ouvintes, tem a ver com esta verdade ensinada por Davi. Quem, por ansioso que esteja, consegue esticar em apenas algumas horas, o tempo de vida que foi determinado por Deus, antes que nascêssemos? E, a única resposta verdadeira, é que nenhum de nós tem este poder. Nenhum de nós, por mais ansiosos que possamos estar, por mais que nos preocupemos, por mais que gastemos dinheiro com todo tipo de providências para tentar esticar nossos dias, ninguém é capaz de fazer avançar o tempo determinado pelo Senhor. Por outro lado, nada nem ninguém é capaz de frustrar os propósitos de Deus. Ele criou a vida, ele nos criou, e ele mesmo determinou o tempo de duração de nossa existência terrena. O que Jesus está tentando nos fazer entender, é que o próprio Deus Pai é o responsável por garantir que cada dia determinado para nossa existência se cumpra, e que ninguém tem o poder de impedi-lo, por isso, podemos confiar em sua provisão para nossa existência.

Existem muitas coisas nesta vida que não sabemos. Certo tipo de ignorância, porém, é uma bênção. Não sabemos quantos anos vamos viver. Não sabemos em que circunstâncias vamos morrer. Não sabemos o dia em que isto acontecerá. E podemos dar graças a Deus por este tipo de ignorância, porque a maioria esmagadora dos seres humanos não saberia lidar com este tipo de informação, e viveria em absoluto desespero, ou de modo absolutamente inconsequente. Existe, porém, uma verdade que precisamos conhecer, com respeito a duração de nossa vida nesta terra. É que ela não terminará, nem antes, nem depois, do tempo determinado por Deus. Quando conseguirmos confiar nesta verdade, seremos livres, para gozar a vida abundante que ele planejou para nós. E esta vida abundante começa, em nossa experiência prática, quando começamos a obedecer a ordem de prioridade estabelecida por Jesus. Quando ele nos diz: “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. Jesus não está apenas dando uma ordem e acrescentando uma promessa de bênção aos obedientes. É claro que, qualquer discípulo do Senhor entende, que esta é uma instrução que deve ser obedecida, e que traz consigo uma promessa de bênçãos materiais, mas, não é somente isto. Ele está, na verdade, estabelecendo uma ordem de prioridades que, se obedecida, tem como consequência natural, o acréscimo da parte de Deus, de tudo aquilo que é necessário a manutenção de nossas vidas e da qualidade de vida que vivemos. Ou seja, é quando obedecemos a esta ordem de prioridade, que podemos, de fato, experimentar a vida abundante (João 10.10) que ele veio tornar possível, a cada um dos seus discípulos. O que Jesus está ensinando é que, assim como os pássaros não se preocupam em semear, mas gastam todo o tempo cantando e louvando a Deus, vivendo como Deus planejou que vivessem, e como consequência natural, Deus os sustenta durante todo o período de suas vidas. E, assim como os lírios, que também não trabalham nem fiam, mas, glorificam a Deus, vivendo a vida que ele planejou para eles, e que como consequência natural, são vestidos de uma maneira tão maravilhosa por Deus. Qualquer um de nós, que ousar confiar no Senhor, a ponto de buscar em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça, terá, como consequência natural, estas outras coisas necessárias a existência, acrescentadas pela graça de Deus. Jesus não está dizendo que não devemos buscar outras coisas. Há certamente coisas que devem ser buscadas em segundo e em terceiro lugar. Todos precisamos trabalhar, pois, desde o pecado de Adão, Deus estabeleceu que “No suor do teu rosto comerás o teu pão….” (Gn 3.19), e o apóstolo Paulo, chega ao extremo de dizer: “se alguém não quer trabalhar, também não coma….” (2 Ts 3.10). Ora, estas passagens deixam clara a responsabilidade humana de lutar por sua subsistência, portanto, o que Jesus está nos ensinando, não é que devemos deixar os compromissos de lado, para viver dentro de um templo, ou apenas orando, mas que, de todos os nossos compromissos, os mais importantes são buscar o seu reino e a sua justiça, e uma vez que estejamos engajados em um estilo de vida que demonstre isto, nossos esforços, em outras áreas de nossa atuação, serão influenciados por estas prioridades, e abençoados de tal forma, que as outras coisas das quais necessitamos serão acrescentadas, naturalmente, a cada um de nós. Neste ponto, cabe então perguntar: O que significa buscar o reino de Deus? Como podemos buscá-lo? E o que significa buscar a justiça do reino? É importante definirmos primeiro o que é o reino de Deus.

Muitos tem entendido que o reino de Deus é composto pela igreja, mas, na verdade, embora a igreja seja parte do reino, ela não pode ser definida como sendo a totalidade do reino de Deus. Gosto de pensar no reino de Deus como sendo a totalidade do universo. Em todo lugar onde o governo de Deus está instalado, ai está o reino de Deus. Jesus chegou a dizer aos fariseus que o inquiriam que o reino de Deus estava “dentro de vós” (Lc 17.21). Naturalmente, ele não estava ensinando que o reino estava dentro dos fariseus incrédulos, mas entre eles, no meio da nação. Creio que ele quis dizer que, onde quer que alguém estivesse obedecendo a Deus, ou seja, onde quer que alguém aceitasse o seu governo, ali estava o reino de Deus em ação. Buscar o reino de Deus em primeiro lugar, portanto, é buscar colocar-se sob o governo de Deus. Esta é a principal preocupação que devemos ter na vida. Devemos procurar, sempre, ter a certeza que cada uma de nossas ações, seja no âmbito do trabalho secular, em nossas atividades recreativas ou em nossas relações eclesiásticas, tudo o que fizermos, reflete a escolha consciente, de nos colocar sob o governo divino. Que nossas ações sejam marcadas pela obediência a vontade revelada de Deus. E, é evidente que, do ponto de vista carnal, não temos quaisquer condições de viver este estilo de vida (cf. Rm 7.14-20). É por isso que se faz necessário lançar mão dos recursos, que o próprio Senhor Jesus utilizou, para viver sua vida entre nós (Fp 2.12-13). Ele dedicou-se intensamente a oração e ao estudo da palavra de Deus, e nós devemos fazer o mesmo, pois, é na intimidade com o Senhor, que encontramos forças para vivermos em obediência à sua palava.

E quanto a buscar a justiça do reino? Bem, está questão está intimamente ligada a anterior e diretamente subordinada a ela. É impossível buscar a justiça do reino, sem antes buscar o reino. Esta é uma daquelas questões, que nos revelam a total incapacidade dos governantes deste mundo, de implantarem um governo justo, para todos os seus cidadãos, sem levar em conta os ditames da palavra de Deus. Buscar o reino de Deus, é buscar colocar-se sob o governo de Deus. E buscar a justiça do reino de Deus, é relacionar-se com as pessoas ao seu redor, a partir da obediência aos valores do reino. Aqueles que não buscam conscientemente se colocar sob o governo de Deus, jamais conseguirão governar bem em nome de Deus. O apóstolo Paulo resumiu toda a lei de Deus, ou seja, todos os valores do reino de Deus, em um único preceito, ao dizer que: “… toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14). Buscar a justiça do reino de Deus, portanto, é procurar relacionar-se com as pessoas ao seu redor, a partir do princípio de que é preciso amar as pessoas de maneira incondicional. Amar, não porque as pessoas ao nosso redor merecem ser amadas, certamente elas não merecem, mas, porque elas precisam ser amadas. Jesus não nos amou porque merecíamos ser amados, mas, porque, precisávamos desesperadamente do seu amor. Buscar a justiça do reino de Deus, significa viver uma vida semelhante àquela que o próprio Jesus viveu. Esta é a exortação do apóstolo Paulo, quando nos desafia, dizendo: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef 5.1-2). Ninguém, neste mundo, buscou mais o reino de Deus e a sua justiça, do que o próprio Senhor Jesus Cristo. Buscar, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, significa procurar ser um imitador de Jesus Cristo. Imitá-lo em sua vida de oração; imitá-lo em seus relacionamentos pessoais; imitá-lo na forma como ele dava testemunho das coisas de Deus; imitá-lo na forma como ele condenava o pecado humano, sem, no entanto, condenar o ser humano. Principalmente, imitá-lo na sua atitude perdoadora em relação àqueles que são flagrados em alguma falha ou pecado grave, ainda que jamais relativizando a gravidade do pecado (João 8.1-11).
Nossos problemas geralmente podem ser resumidos a um só. Aturdidos pelas necessidades e enganados pela ansiedade, em conseguir as coisas que são essenciais a manutenção da vida, geralmente, invertemos as prioridades estabelecidas por Jesus. Em primeiro lugar, nos desgastamos com o trabalho secular, para garantir o dinheiro necessário a fim de bancar as necessidades da vida; depois gastamos uma parcela significativa de nosso tempo restante, para nos divertir e distrair, a fim de nos refazermos emocionalmente do estresse causado pelo trabalho; e só então, se sobrar um tempinho, nos lembramos de Deus e das coisas de Deus; e se o cansaço não for muito, então nos dispomos a dar uma passadinha no templo; e a assistirmos um culto de adoração ao Senhor. Ou seja, em vez de darmos ao Senhor, as primícias de nosso tempo, de nossa atenção, de nossas forças e de nossas alegrias, damos a ele, na melhor das hipóteses, as sobras. Isto quando damos alguma coisa, pois, há muitos que, por se sentirem cansados, não dão nada a Deus durante o dia inteiro, lembrando-se dele apenas em alguma necessidade urgente. O convite de Jesus Cristo é para invertermos esta rotina. Que deixemos a ansiedade com as coisas relacionadas a esta vida, e busquemos o seu reino e a sua justiça em primeiro lugar, confiando que, as demais coisas, nos serão amplamente acrescentadas.

Buscar o reino de Deus e a sua justiça, porém, implica em pelo menos duas outras coisas. A primeira é o compromisso com a igreja de Deus. Muitos, nos dias de hoje, se dizem cristãos, porém, rejeitam assumir quaisquer compromissos com a igreja. O Senhor Jesus, porém, jamais ensinou ser possível tornar-se um dos seus discípulos, sem ser membro de sua igreja. Uma forma mais branda desta postura, é aquela adotada por aqueles que não rejeitam a igreja em si, porém, se limitam a assistir a um culto uma vez ou outra, chegando há ficar meses sem aparecer no templo, ou sem experimentar qualquer outra forma de comunhão com os irmãos. O escritor aos hebreus nos admoesta para que: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quento vedes que o Dia se aproxima. Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10.25-27). Ora, é evidente que o autor sacro supracitado, considerava o ato de abandonar a igreja, ou de não assumir compromisso com a mesma, como uma decisão de viver deliberadamente em pecado, e é claro, que quem vive deliberadamente em pecado, não está, de modo algum, buscando o reino de Deus.

A segunda responsabilidade de quem busca em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, é o compromisso de ser uma fiel testemunha de Cristo. Em diversas ocasiões, Jesus ordenou que seus discípulos dessem testemunho acerca de sua pessoa e de sua obra, e deixou claro que, este é o único meio de alcançar aqueles que foram destinados à salvação (Mc 16.15-16; Jo 20.21-23; At 1.8; Mt 28.18-20). Ninguém, que sinceramente busca o reino de Deus e sua justiça, pode deixar de ser uma testemunha idônea do Senhor Jesus Cristo.

Estes são, portanto, os compromissos que precisamos assumir, se queremos, de fato, buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça. Se assim o fizermos, a promessa de Jesus é que todas as outras coisas de que necessitamos, nos serão acrescentadas. Que Deus nos abençoe, capacite e ajude a sermos fiéis. Amém.

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