“buscai,
pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos
serão acrescentadas”.
Mt 6.33
Estas palavras de Jesus, tantas
vezes repetidas, e tão mal compreendidas, são o corolário de um argumento
incrivelmente simples e de tremendas consequências para a vida daqueles que, de
fato, se entregam totalmente à graça do Senhor, atrevendo-se a confiar na sua
promessa.
Jesus começa esta seção de seu
ensino no versículo 25, encorajando seus ouvintes a deixar de lado a ansiedade
a fim de poderem confiar plenamente em Deus. Ele aborda nesta passagem (Mt 6.25-34), duas questões sensíveis a todos os
seres humanos: os cuidados relacionados à manutenção da vida e os cuidados
relacionados à manutenção da qualidade da vida. Os cuidados com a preservação
da vida são representados através daquilo que é mais básico para a preservação
da existência de qualquer criatura: A preocupação com o que comer e com o que
beber. Já os cuidados com a manutenção da qualidade da vida são representados
com as preocupações relacionadas com o que vestir.
Jesus, em sua argumentação, nos
convida a considerar tanto a falta de necessidade de ficarmos ansiosos com
estas coisas, como a inutilidade de nossa ansiedade. Para demonstrar a falta de
necessidade de ficarmos ansiosos, ele nos convida a observarmos as aves dos
céus e os lírios do campo. Seu argumento é simples: as aves não semeiam nem
colhem, tampouco ajuntam em celeiros, mas Deus as sustenta em todo o tempo.
Ora, se Deus se preocupa em preservar a vida das pequenas aves, como ele não se
preocuparia em preservar a vida humana, muito mais valiosa, aos seus olhos, do
que as aves. Em seguida, ele nos convida a observarmos os lírios do campo.
Pequenas flores que crescem por si mesmas, e que os israelitas estavam acostumados
a ver em todo canto. Os lírios não desenvolviam as árduas tarefas relacionadas
à produção de fios, que seriam posteriormente transformados em tecidos, para a
produção de roupas. O argumento de Cristo aqui é contundente: “Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua
glória, se vestiu como qualquer deles” (v.29).
Jesus afirma, deliberadamente, que nem o mais rico e sábio de todos os reis que
a nação de Israel havia tido, se vestira tão bem como qualquer um dos lírios
que cresciam nos campos daquela nação. Jesus não diz que Salomão não se vestira
como o rei dos lírios, ele diz que ele, com toda a sua riqueza, e toda a sua
sabedoria, em toda a sua glória, não havia conseguido se vestir como qualquer
um dos lírios, que existiam nas campinas de Israel. Aqui, novamente se impõe a
lógica do argumento de Jesus: Se Deus veste tão bem a erva do campo, como não
se preocuparia em vestir e cuidar dos seres humanos, que são mais valiosos que
quaisquer espécies de plantas? Jesus coroa estes dois argumentos com a seguinte
afirmação: a vida vale mais que os alimentos e o corpo vale mais que as vestes,
e Deus sabe disso e cuida pessoalmente destas necessidades. Com estas duas
comparações, Jesus demonstra que não há qualquer necessidade de vivermos
ansiosos com relação às necessidades básicas de sobrevivência.
Jesus, porém, não se limita a
demonstrar que não temos necessidade de viver ansiosos. Ele também demonstra a
inutilidade deste tipo de ansiedade. Ele o faz quando pergunta: “Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um
côvado ao curso da sua vida?” (v.27)
Esta é uma pergunta retórica. A resposta a ela é, ninguém. Ninguém, por mais
ansioso que esteja consegue acrescentar uma hora sequer a sua própria
existência. E, este fato, já é anunciado pelo salmista Davi, muitos séculos
antes de Jesus assumir a natureza humana e habitar entre nós. Ele o faz nos
seguintes termos: “Os teus olhos me viram a
substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias,
cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda”
(Sl 139.16). Esta passagem nos ajuda a
entender a lógica de Jesus, quando pergunta quem pode acrescentar um côvado a
sua vida. O que o rei Davi nos ensina nesta passagem é que, embora não possamos
entender como, o ser humano nasce com seus dias determinados. Cada ser humano
já nasce com um número fixo de dias para viver. E este número de dias não pode
ser esticado pelo querer ou pela ansiedade dos seres humanos.
Olhando as manchetes dos jornais,
dia a dia, e vendo a violência ao nosso redor, vendo o número de pessoas que
morrem jovens, vitimadas por doenças, pela violência do transito ou pela
violência dos criminosos, chegamos a pensar que muitos partem deste mundo antes
da hora. Temos a impressão que pessoas que partiram deste mundo, viveriam
muitos anos ainda, se não fosse aquela circunstância específica que lhes ceifou
a vida. O que o rei Davi nos ensina, porém, é que cada um dos dias de nossas
vidas foi escrito e determinado, antes que existisse qualquer um deles. O que
Jesus pergunta aos seus ouvintes, tem a ver com esta verdade ensinada por Davi.
Quem, por ansioso que esteja, consegue esticar em apenas algumas horas, o tempo
de vida que foi determinado por Deus, antes que nascêssemos? E, a única
resposta verdadeira, é que nenhum de nós tem este poder. Nenhum de nós, por
mais ansiosos que possamos estar, por mais que nos preocupemos, por mais que
gastemos dinheiro com todo tipo de providências para tentar esticar nossos
dias, ninguém é capaz de fazer avançar o tempo determinado pelo Senhor. Por
outro lado, nada nem ninguém é capaz de frustrar os propósitos de Deus. Ele
criou a vida, ele nos criou, e ele mesmo determinou o tempo de duração de nossa
existência terrena. O que Jesus está tentando nos fazer entender, é que o
próprio Deus Pai é o responsável por garantir que cada dia determinado para
nossa existência se cumpra, e que ninguém tem o poder de impedi-lo, por isso,
podemos confiar em sua provisão para nossa existência.
Existem muitas coisas nesta vida
que não sabemos. Certo tipo de ignorância, porém, é uma bênção. Não sabemos
quantos anos vamos viver. Não sabemos em que circunstâncias vamos morrer. Não
sabemos o dia em que isto acontecerá. E podemos dar graças a Deus por este tipo
de ignorância, porque a maioria esmagadora dos seres humanos não saberia lidar
com este tipo de informação, e viveria em absoluto desespero, ou de modo
absolutamente inconsequente. Existe, porém, uma verdade que precisamos
conhecer, com respeito a duração de nossa vida nesta terra. É que ela não
terminará, nem antes, nem depois, do tempo determinado por Deus. Quando
conseguirmos confiar nesta verdade, seremos livres, para gozar a vida abundante
que ele planejou para nós. E esta vida abundante começa, em nossa experiência
prática, quando começamos a obedecer a ordem de prioridade estabelecida por
Jesus. Quando ele nos diz: “buscai, pois, em
primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão
acrescentadas”. Jesus não está apenas dando uma ordem e
acrescentando uma promessa de bênção aos obedientes. É claro que, qualquer
discípulo do Senhor entende, que esta é uma instrução que deve ser obedecida, e
que traz consigo uma promessa de bênçãos materiais, mas, não é somente isto.
Ele está, na verdade, estabelecendo uma ordem de prioridades que, se obedecida,
tem como consequência natural, o acréscimo da parte de Deus, de tudo aquilo que
é necessário a manutenção de nossas vidas e da qualidade de vida que vivemos.
Ou seja, é quando obedecemos a esta ordem de prioridade, que podemos, de fato,
experimentar a vida abundante (João 10.10) que
ele veio tornar possível, a cada um dos seus discípulos. O que Jesus está
ensinando é que, assim como os pássaros não se preocupam em semear, mas gastam
todo o tempo cantando e louvando a Deus, vivendo como Deus planejou que
vivessem, e como consequência natural, Deus os sustenta durante todo o período
de suas vidas. E, assim como os lírios, que também não trabalham nem fiam, mas,
glorificam a Deus, vivendo a vida que ele planejou para eles, e que como
consequência natural, são vestidos de uma maneira tão maravilhosa por Deus.
Qualquer um de nós, que ousar confiar no Senhor, a ponto de buscar em primeiro
lugar o seu reino e a sua justiça, terá, como consequência natural, estas
outras coisas necessárias a existência, acrescentadas pela graça de Deus. Jesus
não está dizendo que não devemos buscar outras coisas. Há certamente coisas que
devem ser buscadas em segundo e em terceiro lugar. Todos precisamos trabalhar,
pois, desde o pecado de Adão, Deus estabeleceu que “No
suor do teu rosto comerás o teu pão….” (Gn 3.19), e o apóstolo
Paulo, chega ao extremo de dizer: “se alguém não
quer trabalhar, também não coma….” (2 Ts
3.10). Ora, estas passagens deixam clara a responsabilidade humana de
lutar por sua subsistência, portanto, o que Jesus está nos ensinando, não é que
devemos deixar os compromissos de lado, para viver dentro de um templo, ou
apenas orando, mas que, de todos os nossos compromissos, os mais importantes
são buscar o seu reino e a sua justiça, e uma vez que estejamos engajados em um
estilo de vida que demonstre isto, nossos esforços, em outras áreas de nossa
atuação, serão influenciados por estas prioridades, e abençoados de tal forma,
que as outras coisas das quais necessitamos serão acrescentadas, naturalmente,
a cada um de nós. Neste ponto, cabe então perguntar: O que significa buscar o
reino de Deus? Como podemos buscá-lo? E o que significa buscar a justiça do
reino? É importante definirmos primeiro o que é o reino de Deus.
Muitos tem entendido que o reino
de Deus é composto pela igreja, mas, na verdade, embora a igreja seja parte do
reino, ela não pode ser definida como sendo a totalidade do reino de Deus.
Gosto de pensar no reino de Deus como sendo a totalidade do universo. Em todo
lugar onde o governo de Deus está instalado, ai está o reino de Deus. Jesus
chegou a dizer aos fariseus que o inquiriam que o reino de Deus estava “dentro
de vós” (Lc 17.21). Naturalmente, ele não
estava ensinando que o reino estava dentro dos fariseus incrédulos, mas entre
eles, no meio da nação. Creio que ele quis dizer que, onde quer que alguém
estivesse obedecendo a Deus, ou seja, onde quer que alguém aceitasse o seu
governo, ali estava o reino de Deus em ação. Buscar o reino de Deus em primeiro
lugar, portanto, é buscar colocar-se sob o governo de Deus. Esta é a principal
preocupação que devemos ter na vida. Devemos procurar, sempre, ter a certeza
que cada uma de nossas ações, seja no âmbito do trabalho secular, em nossas
atividades recreativas ou em nossas relações eclesiásticas, tudo o que
fizermos, reflete a escolha consciente, de nos colocar sob o governo divino.
Que nossas ações sejam marcadas pela obediência a vontade revelada de Deus. E,
é evidente que, do ponto de vista carnal, não temos quaisquer condições de
viver este estilo de vida (cf. Rm 7.14-20). É
por isso que se faz necessário lançar mão dos recursos, que o próprio Senhor
Jesus utilizou, para viver sua vida entre nós (Fp
2.12-13). Ele dedicou-se intensamente a oração e ao estudo da palavra de
Deus, e nós devemos fazer o mesmo, pois, é na intimidade com o Senhor, que
encontramos forças para vivermos em obediência à sua palava.
E quanto a buscar a justiça do
reino? Bem, está questão está intimamente ligada a anterior e diretamente
subordinada a ela. É impossível buscar a justiça do reino, sem antes buscar o
reino. Esta é uma daquelas questões, que nos revelam a total incapacidade dos
governantes deste mundo, de implantarem um governo justo, para todos os seus
cidadãos, sem levar em conta os ditames da palavra de Deus. Buscar o reino de
Deus, é buscar colocar-se sob o governo de Deus. E buscar a justiça do reino de
Deus, é relacionar-se com as pessoas ao seu redor, a partir da obediência aos
valores do reino. Aqueles que não buscam conscientemente se colocar sob o
governo de Deus, jamais conseguirão governar bem em nome de Deus. O apóstolo
Paulo resumiu toda a lei de Deus, ou seja, todos os valores do reino de Deus,
em um único preceito, ao dizer que: “… toda a lei
se cumpre em um só preceito, a saber: amarás o teu próximo como a ti mesmo”
(Gl 5.14). Buscar a justiça do reino de Deus,
portanto, é procurar relacionar-se com as pessoas ao seu redor, a partir do
princípio de que é preciso amar as pessoas de maneira incondicional. Amar, não
porque as pessoas ao nosso redor merecem ser amadas, certamente elas não
merecem, mas, porque elas precisam ser amadas. Jesus não nos amou porque
merecíamos ser amados, mas, porque, precisávamos desesperadamente do seu amor.
Buscar a justiça do reino de Deus, significa viver uma vida semelhante àquela
que o próprio Jesus viveu. Esta é a exortação do apóstolo Paulo, quando nos
desafia, dizendo: “Sede, pois, imitadores de
Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou e se
entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave”
(Ef 5.1-2). Ninguém, neste mundo, buscou mais
o reino de Deus e a sua justiça, do que o próprio Senhor Jesus Cristo. Buscar,
pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, significa procurar ser
um imitador de Jesus Cristo. Imitá-lo em sua vida de oração; imitá-lo em seus
relacionamentos pessoais; imitá-lo na forma como ele dava testemunho das coisas
de Deus; imitá-lo na forma como ele condenava o pecado humano, sem, no entanto,
condenar o ser humano. Principalmente, imitá-lo na sua atitude perdoadora em
relação àqueles que são flagrados em alguma falha ou pecado grave, ainda que
jamais relativizando a gravidade do pecado (João
8.1-11).
Nossos problemas geralmente podem
ser resumidos a um só. Aturdidos pelas necessidades e enganados pela ansiedade,
em conseguir as coisas que são essenciais a manutenção da vida, geralmente,
invertemos as prioridades estabelecidas por Jesus. Em primeiro lugar, nos
desgastamos com o trabalho secular, para garantir o dinheiro necessário a fim
de bancar as necessidades da vida; depois gastamos uma parcela significativa de
nosso tempo restante, para nos divertir e distrair, a fim de nos refazermos
emocionalmente do estresse causado pelo trabalho; e só então, se sobrar um
tempinho, nos lembramos de Deus e das coisas de Deus; e se o cansaço não for
muito, então nos dispomos a dar uma passadinha no templo; e a assistirmos um
culto de adoração ao Senhor. Ou seja, em vez de darmos ao Senhor, as primícias
de nosso tempo, de nossa atenção, de nossas forças e de nossas alegrias, damos
a ele, na melhor das hipóteses, as sobras. Isto quando damos alguma coisa,
pois, há muitos que, por se sentirem cansados, não dão nada a Deus durante o
dia inteiro, lembrando-se dele apenas em alguma necessidade urgente. O convite
de Jesus Cristo é para invertermos esta rotina. Que deixemos a ansiedade com as
coisas relacionadas a esta vida, e busquemos o seu reino e a sua justiça em
primeiro lugar, confiando que, as demais coisas, nos serão amplamente
acrescentadas.
Buscar o reino de Deus e a sua
justiça, porém, implica em pelo menos duas outras coisas. A primeira é o
compromisso com a igreja de Deus. Muitos, nos dias de hoje, se dizem cristãos,
porém, rejeitam assumir quaisquer compromissos com a igreja. O Senhor Jesus,
porém, jamais ensinou ser possível tornar-se um dos seus discípulos, sem ser
membro de sua igreja. Uma forma mais branda desta postura, é aquela adotada por
aqueles que não rejeitam a igreja em si, porém, se limitam a assistir a um culto
uma vez ou outra, chegando há ficar meses sem aparecer no templo, ou sem
experimentar qualquer outra forma de comunhão com os irmãos. O escritor aos
hebreus nos admoesta para que: “Não deixemos de
congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto
mais quento vedes que o Dia se aproxima. Porque, se vivermos deliberadamente em
pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta
sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e
fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10.25-27). Ora, é evidente que o autor sacro
supracitado, considerava o ato de abandonar a igreja, ou de não assumir
compromisso com a mesma, como uma decisão de viver deliberadamente em pecado, e
é claro, que quem vive deliberadamente em pecado, não está, de modo algum,
buscando o reino de Deus.
A segunda responsabilidade de
quem busca em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, é o compromisso
de ser uma fiel testemunha de Cristo. Em diversas ocasiões, Jesus ordenou que
seus discípulos dessem testemunho acerca de sua pessoa e de sua obra, e deixou
claro que, este é o único meio de alcançar aqueles que foram destinados à
salvação (Mc 16.15-16; Jo 20.21-23; At 1.8; Mt
28.18-20). Ninguém, que sinceramente busca o reino de Deus e sua
justiça, pode deixar de ser uma testemunha idônea do Senhor Jesus Cristo.
Estes são, portanto, os
compromissos que precisamos assumir, se queremos, de fato, buscar em primeiro
lugar o reino de Deus e sua justiça. Se assim o fizermos, a promessa de Jesus é
que todas as outras coisas de que necessitamos, nos serão acrescentadas. Que
Deus nos abençoe, capacite e ajude a sermos fiéis. Amém.