1.1
Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado
para o evangelho de Deus,
1.2
o qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos
seus profetas nas Sagradas Escrituras, 1.3
com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da
descendência de Davi
1.4
e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito
de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo,
nosso Senhor, 1.5
por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado
por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os
gentios, 1.6
de cujo número sois também vós, chamados para serdes de
Jesus Cristo. 1.7
A todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados para
serdes santos, graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso
Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Rm 1.1-7
Ao dirigir-se à igreja de
Roma o apóstolo Paulo apresenta-se como um servo de Jesus Cristo.
Este é seu costume em todas as suas epístolas, o que nos mostra que
ele praticava aquilo que ensinava, pois, obviamente, ele sabia que
tinha o status de filho de Deus por adoção, conforme fica evidente
pelo seu ensino sobre este assunto, na própria epístola aos Romanos
e também em suas epístolas aos Gálatas e Efésios (cf. Rm
8.15-16,23; Gl 4.4-7; Ef 1.4-5), mas ele cultivava, intencionalmente,
o mesmo sentimento que sabia que fora cultivado pelo Senhor Jesus
Cristo (Fp 2.5-8). Desta forma sempre se apresentava como servo. É,
portanto, na condição de um humilde servo que ele diz ter sido
chamado para ser apóstolo e separado para o evangelho de Cristo.
Já,
na introdução da epístola, ele nos ensina algumas lições
preciosas acerca do evangelho. Nesta reflexão examinaremos o ensino
de Paulo acerca da origem e do propósito do Evangelho. Este é o
nosso tema. Em primeiro lugar Paulo nos ensina que a origem do
evangelho é divina. Não é um modismo que surgiu no século I. Não
foi uma corrupção do judaísmo que surgiu na Palestina e depois se
espalhou pelo mundo ocidental. Não! O primeiro ensino de Paulo sobre
o evangelho tem a ver com sua origem: Ele foi prometido por Deus.
Podemos então perguntar: Prometido a quem? E
por que?
E a resposta é: Primeiramente o Evangelho foi prometido aos nossos
primeiros pais, logo após a queda no Jardim do Éden (Gn 3.15). E
o motivo da promessa é que o Evangelho é a solução de Deus para a
restauração do homem após a queda.
Os teólogos chamam esta passagem de proto-evangelho, e nela o
evangelho é chamado por Deus de “descendência
da mulher”,
logo, podemos concluir que o evangelho não é um conjunto de
preceitos como a lei, e, sim, uma pessoa. Em seguida, ao chamar Abrão
(Gn 12.1-3) e fazer um pacto com ele, Deus preanuncia o evangelho a
Abraão dizendo: “Em
ti, serão abençoados todos os povos”
(Gl 3.8). Ao interpretar esta passagem, o apóstolo Paulo, nos diz:
“Ora, as
promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E
aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E
ao seu descendente, que é Cristo"
(Gl
3.16).
Portanto, a promessa do envio do Evangelho é a promessa do envio de
um descendente da mulher, que seria descendente de Abraão, no qual
todas as nações da terra seriam abençoadas, e este descendente é
Cristo. Ou seja, o evangelho não é uma coisa, não é um conjunto
de leis, nem de doutrinas, o Evangelho é uma pessoa, e esta pessoa é
Jesus Cristo de Nazaré, o Filho unigênito de Deus.
Quando Israel se tornou um
povo, e foi tirado do Egito, antes de entrar na terra de Canaã a
promessa foi novamente ratificada, desta vez, com a promessa do envio
de um profeta. Este profeta seria diferente dos profetas ordinários
que Deus enviava regularmente para falar com seu povo. Ele seria semelhante a Moisés, em seu caráter de legislador e redentor
(Dt 18.15). O apóstolo Pedro interpreta esta passagem e a aplica a
Jesus, afirmando que ele é o Messias prometido através de Moisés
(At 3.22), e identificando-o com o descendente prometido a Abraão
(At 3.25).
No
decorrer dos séculos esta promessa foi sendo esclarecida, através
da pregação dos profetas que falavam inspirados por Deus. Ao mesmo
tempo, por inspiração do Espírito Santo ia sendo registrada nas
Escrituras Sagradas. Poderíamos citar muitas passagens como exemplo
mas bastam algumas das mais significativas como Isaías 9.1-7, Is
52.13-53.12. É significativo que o próprio Jesus, após a sua
ressurreição teve o cuidado de instruir seus discípulos sobre o
fato de que era necessário que se cumprisse tudo aquilo que “de
mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”
(cf. Lc 24.44). Bem, esta era a forma como os judeus se referiam a
todo o conjunto de livros do Velho Testamento, ou seja, é o mesmo
que dizer: do primeiro ao último livro do Velho Testamento.
A
segunda questão importante que o apóstolo nos apresenta é que o
Evangelho se manifestou através da pessoa e obra de nosso Senhor
Jesus Cristo. Paulo escreve a uma igreja cuja membresia era mista
sendo formada de judeus e gentíos. É por isso que ele considera
importante informá-los acerca da ascendência de Cristo segundo a
carne, pois todos os judeus, piedosos ou não, sabiam que o Cristo
viria da descendência de Davi. Sendo da descendência de Davi, Jesus
cumpre as profecias messiânicas que afirmavam que ele viria da casa
real de Davi. Mas, Jesus, como o messias prometido, não era apenas
humano, ele era também divino. É importante lembrar que a promessa
inicial diz que ele era o descendente da mulher, não do homem, ou
seja, de acordo com a promessa, não haveria participação do homem na geração do filho de
Deus que seria enviado ao mundo. Este aspecto da promessa inicial foi
esclarecido pelo profeta Isaías quando profetizou: “Eis
que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará
Emanuel”
(Is 7.14). Jesus foi gerado no ventre de Maria pelo poder do Espírito
Santo (Lc 1.26-35). Este, porém, era um fato do qual somente ela e
Deus tinham conhecimento. Era, portanto, natural que José, seu
noivo, se sentisse traído, e sendo justo, não querendo denunciá-la,
resolvesse abandoná-la secretamente, fato que levou Deus a enviar
seu anjo para lembrá-lo da profecia de Isaías e informá-lo de que,
o que estava acontecendo era o cumprimento da promessa de Deus (Mt
1.18-23).
Em sua forma humana, Jesus
Cristo de Nazaré manifestou o poder de Deus sobre todas as coisas
deste mundo. Ele realizou milagres curando milhares de pessoas (Mt
15.29-31), acalmou os ventos e o mar demonstrando seu poder sobre as
coisas inanimadas (Mt 8.23-27), multiplicou pães e peixes para
alimentar as multidões (Mt 14.13-21: Mt 15.32-39), expulsou demônios
demonstrando seu poder sobre os espíritos malignos (Mt 17.18; Mc
5.1-14), mas foi principalmente através da manifestação de sua
misericórdia, recebendo pecadores e perdoando-lhes os pecados (Mc
2.5; Mc 2.13-17; Lc 7.47; Lc 15.1-2; Lc 19.1-10; Jo 8.1-11), que Ele
manifestou mais plenamente a sua face divina.
Ele
também manifestou-se sua divindade ao invadir, na presença de
alguns dos seus discípulos, por alguns momentos, a própria
eternidade. Fez isto ao se transfigurar diante de Pedro, Tiago e
João, conversando por algum tempo com Moisés e Elias (Mt 17.1-8; Mc
9.2-8 e Lc 9.37-42). Nesta ocasião os discípulos não apenas viram
Jesus conversando com Moisés e Elias, mas, tiveram o privilégio de
ouvir a vós do próprio Deus afirmando que Jesus era seu filho e
repetindo a ordem dada por Moisés ao povo de Israel quando prometeu
a vinda do Messias: “a
ele ouvi”
(Dt 18.15).
Finalmente, ele manifestou-se
Senhor sobre a vida e a morte. Primeiramente ressuscitando a Lázaro
(Jo 11.43-44), ao filho da viúva de Naim (Lc 7.11-17) e a filha de
Jairo (Mt 9.23-26). Posteriormente, ressuscitando dentre os mortos e
aparecendo vivo aos seus discípulos por um período de quarenta dias
(1 Co 15.1-8). O próprio Jesus anunciou que daria sua vida pelas
suas ovelhas e que depois ressuscitaria (Jo 10.11-18).
O
apóstolo Pedro em casa do centurião Cornélio diz que “… Deus
ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual
andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do
diabo, porque Deus era com ele”;
e, “Dele
todos os profetas dão testemunho …”
(At 10.38,43). Portanto, Jesus Cristo de Nazaré é o cumprimento da
promessa de Deus, e o Evangelho é a sua vinda, sua vida, seu ensino e sua obra
em favor de todos nós.
Isto nos leva ao terceiro
ensinamento de Paulo nesta passagem. O Evangelho foi manifestado em
nosso benefício. Através do Evangelho recebemos a graça de Deus. A
salvação prometida chega a cada um de nós por causa da graça
divina (Ef 2.8-10) e não por boas obras que tenhamos praticado.
Como o apóstolo Paulo ensina, nenhum ser humano será salvo por causa
da prática de boas obras (Gl 2.16). No Evangelho recebemos uma
missão (cf. Mt 28.18-20; Lc 24.44-48; Mc 16.15-16; Jo 20.21). No
Evangelho recebemos o poder para obedecer a Palavra de Deus (Fp
2.12-13). E, finalmente, no Evangelho recebemos a paz com Deus
através de nosso Senhor e Redentor Jesus Cristo (Rm 5.1; Jo 14.27).
O evangelho foi prometido por
Deus e não é uma coisa, não é uma coleção de preceitos, ou de
doutrinas a serem decoradas e observadas. O Evangelho é uma pessoa e
esta pessoa é Jesus Cristo. O evangelho, as boas novas ou boas
notícias são o relato de tudo o que Jesus Cristo é e de tudo que
Ele ensinou e fez por nós e por todos aqueles que o reconhecem como
o Filho de Deus, o Messias prometido, a salvação de Deus enviada ao
mundo para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a
vida eterna (Jo 3.16).
Estes
fatos precisam nos levar a ação (Tg 2.14-17). Em primeiro lugar não
podemos ignorar o fato de que com a graça de Deus recebemos também
uma missão. Quem ignora ou rejeita a missão, está ignorando ou
rejeitando igualmente à graça. Em segundo lugar, precisamos nos
esforçar para obedecer a vontade de Deus. O apóstolo Paulo chega a
usar uma linguagem forte “… esmurro
o meu corpo e o reduzo à escravidão
…” (1 Co 9.27) para descrever o seu esforço para ser um servo
aprovado. A graça não é incompatível com a lei, que é a
manifestação da vontade moral de Deus, mas, sim, possibilita a sua
obediência. É através da obediência que desenvolvemos a nossa
salvação (Fp 2.12-13). E, finalmente, em terceiro lugar, temos que
viver como pacificadores neste mundo conturbado. Quem desfruta da paz
de Deus torna-se igualmente responsável por promover a paz de Deus
entre os homens (Hb 12.14; Mt 5.9).
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