quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Só quem ama a Palavra de Deus, ama o Deus da Palavra - Ap 1.3

Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo”.
 Ap 1.3

Vários anos após a sua ascensão aos céus, Jesus Cristo aparece ao apóstolo João, à época (c. 98 DC), desterrado na ilha de Patmos, com uma aparência que, no primeiro momento deixa o apóstolo atônito e aterrorizado, a ponto de cair no chão como se estivesse morto (Ap 1.9-20). Após identificar-se, o Senhor lhe ordena que escreva tudo o que ele iria lhe mostrar. E o apóstolo inicia este registro com a surpreendente bem-aventurança mencionada logo no início dessa profecia. Jesus afirma que são bem-aventurados aqueles que leem e os que ouvem as palavras da profecia. Este registro demonstra a misericórdia do Senhor e a sua preocupação para com todos os seus eleitos. A maioria das pessoas da época de João e nos muitos séculos que se seguiram não sabia ler, esta maioria esmagadora poderia apenas ouvir a Palavra, quando fosse pregada por aqueles que a ela tivessem acesso. Muitos milhões de seres humanos, ainda hoje, tem nascido, vivido e morrido sem jamais terem tido a chance de ter qualquer contato com a Palavra de Deus. Vidas preciosas que tem perecido por nada saberem acerca da salvação oferecida por Jesus Cristo.

Durante milhares de anos os cristãos ansiaram por ter acesso a Palavra do Senhor. Este anseio cumpre de certa forma uma promessa divina registrada pelo profeta Amós (Am 8.11). E isso porque até a invenção da imprensa por Gutemberg, cada exemplar da Bíblia Sagrada era copiado a mão, o que fazia que uma única Bíblia custasse uma quantia que as pessoas comuns simplesmente não poderiam pagar. Esta realidade fazia com que as pessoas suspirassem de alegria quando tinham a oportunidade de ouvir a leitura e a pregação da Palavra de Deus. O exemplo de Mary Jones é muito ilustrativo. “Mary Jones viveu a mais de 200 anos no País de Gales, Reino Unido. De família muito pobre, morava com os pais numa pequena propriedade rural. Com apena 9 anos de idade, quando foi alfabetizada, Mary estabeleceu uma meta para si mesma: ter uma Bíblia que fosse sua e estivesse na sua língua – o galês – para ler quando quisesse. Nessa época, ter uma Bíblia era um verdadeiro desafio. Os livros eram muito caros e raros. Apesar das dificuldades, Mary Jones não desistiu: durante seis anos trabalhou duro para reunir a quantia necessária. Aos 15 anos, juntou o suficiente para comprar a Bíblia que tanto queria. Porém, mais um obstáculo se colocou à sua frente: 40 quilômetros que teriam que ser percorridos a pé até a cidade mais próxima, onde poderia adquirir o seu exemplar. Foi uma jornada solitária, exaustiva e arriscada, mas bem-sucedida. Sua fome e sua sede pela Palavra de Deus finalmente seriam saciadas”. (http://www.sbb.com.br/detalhes.asp?idproduto=1116466).

Hoje a situação mudou. Não temos mais dificuldade em conseguir uma Bíblia. A maioria das pessoas pode ter e muitas possuem mais de um exemplar das Escrituras Sagradas em suas casas. Infelizmente, porém, o que a maioria das pessoas não tem é o desejo que queimava o coração de Mary Jones. O desejo de conhecer a intimidade do Deus que se revela através das páginas sagradas.

Algum tempo atrás tomei conhecimento do resultado de uma pesquisa que afirmava que mais da metade de um grupo de pastores entrevistados afirmara jamais ter lido a Bíblia completa nem uma única vez na vida. Alegavam como justificativa a falta de tempo. Ora, se os líderes estão neste estado, como não estarão os liderados?

Uma das razões para esta situação calamitosa que assola a cristandade talvez seja aquilo que certamente é uma das maiores bênçãos dos tempos modernos: a facilidade que temos de adquirir um exemplar da Palavra de Deus. Uma Bíblia comum, bem encadernada, custa hoje em dia bem menos que um livro de ficção ou um romance. Pouco tempo atrás, perguntei a um grupo de jovens cristãos quantos já tinham lido os livros de uma série de ficção bem conhecida – Crepúsculo – cujos personagens são vampiros. Todos os jovens haviam lido todos os livros da série, mas, nenhum deles afirmou já ter lido a Bíblia inteira uma única vez.

Queridos, quero afirmar sem nenhum medo de errar: aqueles que alegam não ter tempo para a Palavra de Deus estão afirmando que não tem tempo para o Deus da Palavra, pois é Ele que se revela a nós nas páginas sagradas. Precisamos reaprender a suspirar pelo desejo de ouvir a Deus, através da leitura e estudo da sua Palavra. O salmista exclamava: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação todo o dia” (Sl 119.97). Precisamos aprender com o salmista de Israel a ter este sentimento pela Palavra do Senhor. Precisamos reaprender a amar a Bíblia Sagrada, pois, sem ela, jamais poderemos conhecer a Deus de verdade.

É por isso que a igreja precisa voltar-se para a Palavra de Deus. Precisamos ler, estudar, memorizar. Precisamos ouvi-la e dar-lhe crédito, porque na Escritura Sagrada encontramos a verdade acerca de Deus, acerca do homem e acerca do seu destino eterno.

Muitas razões poderiam ser citadas pelas quais devemos ter um apreço todo especial pelo estudo da Palavra de Deus. Vou citar apenas algumas: Em primeiro lugar, a Palavra de Deus como a conhecemos hoje em dia, é o registro, por escrito, da Palavra divina que foi verbalizada na história do povo escolhido de Deus. Nela, encontram-se registradas todas as manifestações de Deus para promover a salvação do ser humano. Nela encontramos o registro da ação de Deus através de Jesus Cristo, a Palavra que se fez carne e habitou entre nós.

Quando o apóstolo João inicia o seu evangelho, ele diz que: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. E a Palavra se tornou carne e habitou entre nós...” (Jo 1.1,14). Ao escrever estas palavras o apóstolo João está nos dizendo que Jesus e a sua Palavra são inseparáveis. Não significa que a tinta com que as palavras da Bíblia são escritas sejam sagradas, mas quer dizer que a Palavra pronunciada por Deus, tem uma tal identificação com Ele, que carrega consigo a autoridade do próprio Deus. Ou seja, Jesus e sua Palavra são um. Não é possível desprezar a palavra de Deus sem desprezar o próprio Deus. Não é possível esquecer de um a semana inteira sobre uma estante, sem esquecer igualmente, o Outro. Por mais que neguemos tal esquecimento com nossos lábios, não podemos enganar nossos próprios corações (1 Jo 3.20).

Uma segunda razão pela qual devemos nos voltar para as Escrituras Sagradas é que elas nos revelam o caminho a seguir. O caminho estreito e seguro por onde devemos nos conduzir. É por isso que o salmista exclama: “Lâmpada para os meus pés é a tua Palavra e luz para o meu caminho” (Sl 119.105). Precisamos entender e crer que por mais belo que este mundo tenha sido criado por Deus, ele hoje está envolto em densas trevas espirituais (1 Jo 5.19b). Está sob o poder do maligno e, por isso, muito daquilo que brilha neste mundo nada mais é que o brilho fugaz e enganoso das ciladas com que o diabo atrai a humanidade incrédula para o seu caminho de perdição. Quando o salmista Davi canta os louvores de Deus dizendo que o Senhor: “Leva-me para junto das águas de descanso” (Sl 23.2b). Ele está nos dizendo algo maravilhoso que havia aprendido, na prática diária, no tempo em que trabalhara como pastor de ovelhas. Deixe-me explicar. Na Palestina onde Davi vivia a sua experiência como pastor de ovelhas a região é desértica. É uma região sem água. Para levar as ovelhas para junto das águas onde elas poderiam pastar e beber, era necessário levantar de madrugada e caminhar a frente do rebanho, longas horas na escuridão, para não sofrer e não sacrificar as ovelhas e seus filhotes sob sol escaldante. A tarde, após as ovelhas comerem e beberem era hora de voltar, antes que a noite os envolvesse completamente e o frio fizesse sofrer as ovelhas. Era uma rotina diária em que o pastor guiava suas ovelhas em segurança através da escuridão da madrugada, antes do sol se levantar em todo os seu fulgor, e ao entardecer, antes que o frio da noite viesse oprimir as ovelhas ao relento. É deste cuidado diário que o autor do salmo 119.105 nos fala, porém, deixando claro que o Senhor iluminava seu caminho em meio às trevas deste mundo, através do ensino de sua Palavra. É através da luz que a Palavra de Deus irradia que podemos prosseguir com segurança em nossa própria jornada. Através da orientação segura da Palavra de Deus, Jesus Cristo, o sol da justiça (Ml 4.2), nos faz caminhar em terreno firme e seguro rumo a nossa pátria celestial.

Em terceiro lugar, a Palavra de Deus nos diz quem somos, quem Deus é, e como devemos nos relacionar com Ele. Milhares de seres humanos tem lotado templos religiosos e recitado promessas vãs, acreditando, inutilmente, que sua prática religiosa lhes permitirá viver uma vida rica e despreocupada neste mundo, e que, ao final da vida terrena, os levará ao paraíso. Quando digo inutilmente, estou me referindo às palavras de Jesus acerca daqueles que dizem a seu respeito: Senhor, Senhor (Mt 7.21-23), mas não se preocupam em se relacionar com ele, o Senhor, da forma correta. Não são os que dizem que ele é Senhor os que entram no reino, mas os que o obedecem reconhecendo que ele é, de fato, O Senhor. Essas pessoas a quem Jesus se refere nesta passagem são aquelas que se aproximam dele com intenção meramente utilitarista. Chegam-se a Deus desejando saúde, riquezas, status ou poder político. E, para conseguir isso apegam-se a todo tipo de crendices sem qualquer respaldo na revelação que Deus, de uma vez por todas, entregou aos homens (Jd 1.3). E isto, porque os pregadores do evangelho da prosperidade estão colocando, nos lábios de Jesus, uma promessa que ele nunca fez: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares” (Mt 4.9). Esta é uma promessa bíblica, encontra-se registrada nos evangelhos (Mt 4.9 e Lc 4.6-7), mas não foi feita por Jesus, e sim, pelo diabo. É o diabo que se dispõe a negociar e a pagar em troca de adoração. Jesus Cristo jamais o fez e jamais o fará. E aqueles que lotam templos religiosos acreditando em promessas de que vão receber riquezas, poder, vitórias e glórias neste mundo em troca de ofertas financeiras e cantigas de uma suposta "adoração", não estão servindo a Jesus Cristo de Nazaré, pois, este, assumiu a forma de servo e foi obediente até a morte (Fp 2). E, Ele espera que seus discípulos sigam seu exemplo.

Para seguir o exemplo de Jesus precisamos conhecê-lo. Para conhecê-lo, precisamos conhecer sua Palavra, através da qual Ele se auto revelou. Nosso destino eterno depende disso. Jesus disse em certa ocasião: “Muitos me dirão naquele dia, em teu nome profetizamos, e em teu nome expulsamos demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres. E ele lhes responderá: Nunca vos conheci” (Mt 7.22-24). Jesus está nos dizendo que nunca conheceu estas pessoas que em seu nome profetizaram, em seu nome expulsaram demônios e em seu nome fizeram muitos milagres. Como é possível? Como pôde uma coisa dessas acontecer? Simples. Estas pessoas de fato jamais chegaram a conhecê-lo. Elas usaram seu nome, que está colocado por Deus acima de todos os nomes, e expulsaram demônios, usaram seu nome e fizeram milagres, usaram seu nome e profetizaram, usaram seu nome! Usaram seu nome! E usaram seu nome! Mas jamais o serviram! Serviram-se de Jesus! Jamais serviram a Jesus! Usaram o seu nome, mas o deus a quem serviram de fato, era um ídolo que eles mesmos construíram em suas imaginações, e que correspondia à imagem e semelhança de suas ambições mundanas. Desprezaram a luz da Palavra, que lhes revelaria o verdadeiro Deus, e agora, rejeitados por Jesus Cristo, passarão a eternidade em trevas.

Diante desses fatos, cabe perguntar: E nós, como temos nos relacionado com a Palavra de Deus? Nós a temos amado? Nós a temos lido e estudado regularmente? Temos aprendido a conhecer e a nos relacionar corretamente com o Deus que se revelou e continua a se revelar através dela? Quem é Jesus para nós, hoje? Aquele que é a Palavra que se fez carne (Jo 1.14), tornou-se servo (Fp 2.7), humilhou-se até a morte e morte de cruz (Fp 2.8), ressuscitou dentre os mortos e oferece a salvação àqueles que se arrependem de seus pecados e o reconhecem como Senhor de suas vidas (Rm 10.9), sem nada oferecer em troca além de aflições neste mundo (Jo 16.33), sua presença confortadora (Mt 28.20), seu poder para testemunhar (At 1.8) e um reino eterno? Ou, este que, sem qualquer compromisso com a Palavra de Deus, tem sido apresentado nos meios de comunicação de massa, como disposto a enriquecer e curar milhões de pessoas em troca de cantigas e dinheiro?

No momento em que você se levantar destes bancos, após o final desta celebração, você estará dando seus primeiros passos em direção ao final da sua jornada, rumo ao seu destino eterno. Você pode escolher continuar sua caminhada, em meio às trevas deste mundo sem nenhuma luz, e seguir tranquilamente o seu caminho, ignorando às ciladas que o esperam à sua frente, ou pode escolher fazer como os cidadãos de Beréia, que todos os dias: “examinavam as Escrituras para ver se as coisas eram, de fato, assim” (At 17.11).

Quero desafiar você a tomar a decisão de se enamorar de novo pelas Escrituras Sagradas. Quero desafiá-lo a deixar Deus avivar em seu coração um amor verdadeiro pela Bíblia Sagrada, pois, quem não ama a Palavra de Deus, também não ama o Deus da Palavra. Com isto, quero dizer que estou desafiando você a começar a ler a Bíblia Sagrada regularmente. Comece hoje, leia um salmo ou dois, escolha um dos evangelhos e comece a sua jornada através desta bem-aventurança, pois, como disse Jesus: “... o tempo está próximo” (Ap 1.3).

domingo, 13 de outubro de 2013

Só o Senhor Jesus Cristo, salva - At 2.36

          
“Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”. At 2.36

Quando Pedro afirma, diante dos judeus presentes à festa do Pentecostes, que Jesus fora feito, por Deus, Senhor e Cristo, estes sentem-se compungidos em seus corações. Um sentimento de temor se apodera daqueles que ali estavam e, tal sentimento é tão forte que eles se voltam para os apóstolos perguntando: Que faremos irmãos? (v.37) É interessante notar que estes que fazem esta pergunta são os mesmos que, alguns poucos minutos antes mostravam apenas curiosidade, e no caso de alguns, até escárnios, por causa do fenômeno da descida do Espírito Santo e das manifestações de línguas através dos apóstolos. Porque tal mudança de atitude? O que os levou a sentir tanto temor diante da pregação de Pedro?

Para responder a estas perguntas de modo satisfatório precisamos entender o que os homens daquela época entendiam por Senhor? Hoje em dia, a palavra senhor é usada ordinariamente como uma forma respeitosa de tratamento. Uma palavra que nos permite dirigir-nos a uma pessoa do sexo masculino, adulta ou mais velha do que nós, de forma a demonstrar respeito ou consideração. Não era este o uso da palavra senhor no tempo dos apóstolos. Quando os judeus que, com sinceridade ou não, se aproximavam de Jesus desejando mostrar-lhe respeito ou consideração, chamavam-no de Rabi, ou de Mestre, não de Senhor. Era assim com todos os demais líderes da nação. Isso, porque, a palavra Senhor designava apenas uma única pessoa em todo o império. Senhor era o imperador. Aquele que tinha poder de vida ou morte sobre todos os súditos. No caso daqueles que habitavam o império romano, este era um título que se aplicava unicamente a César, único senhor reconhecido no império, do qual aquela região era apenas uma das províncias. O discurso de Pedro que culmina com esta espantosa revelação traz aos ouvidos daqueles religiosos judeus uma certeza assustadora: Aquele Jesus, que apenas poucas semanas antes, havia sido brutalmente assassinado pelos romanos, a pedido dos judeus, Deus o fizera, Senhor e Cristo. Ele agora tinha, da parte de Deus, poder de vida e morte sobre todos, judeus e gentios. Ele agora era aquele que, no futuro, iria julgar vivos e mortos e lhes anunciar a sentença eterna (Dn 12.2).

Nossa situação hoje é bastante diferente. Vivemos numa época em que muito se fala de Jesus. A palavra senhor é usada indiscriminadamente, inclusive para referir-se a Jesus Cristo. Dificilmente, porém, poderíamos dizer que, em meio às multidões que lotam os templos, há entendimento e submissão real ao senhorio de Cristo. Todos parecem estar dispostos a receber alegremente um salvador, porém, poucos parecem dispostos a permitir que alguém se torne de fato Senhor em relação às suas vidas, mesmo que este Senhor seja o próprio Jesus Cristo de Nazaré. Quero ilustrar este fato com uma lembrança de alguns anos atrás. Ainda tenho bem vivas em minha memória as imagens de uma cerimônia fúnebre, em que os familiares de vários jovens, vítimas de uma acidente automobilístico lotavam o templo de uma igreja evangélica. O pastor da igreja, que presidia a cerimônia, ao iniciar sua prédica fez três perguntas àquelas pessoas. Ele perguntou: quantos aqui acreditam que Deus existe? Todos levantaram suas mãos. Em seguida, ele perguntou: Quantos acreditam que Jesus Cristo é o salvador? E, novamente, todos levantaram suas mãos. Finalmente, ele perguntou: E, quantos aqui, já reconheceram que Jesus é o Senhor de suas vidas? Desta vez, apenas seis pessoas levantaram suas mãos. É disto que trataremos hoje nesta reflexão. Jesus Cristo é o Salvador, mas não salva quem não o reconhece como o Senhor!

É por essa razão que precisamos examinar os motivos pelos quais devemos reconhecer que Jesus é o Senhor  de nossas vidas. E também devemos viver vidas que demonstrem o reconhecimento deste senhorio. Quero listar apenas três razões: Em primeiro lugar, Jesus Cristo de Nazaré é o Senhor por direito de Criação. Aquele que cria é senhor da obra criada. As Escrituras Sagradas nos informam solenemente que “todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Bem, todas as coisas incluem a mim e a vocês. Foi Jesus que, de um modo extraordinário nos gerou no ventre de nossas mães. Foi ele que, antes mesmo de nascermos, escreveu e determinou cada um dos nossos dias (Sl 139.16). Ele, sendo o criador, é também o sustentador de todas as coisas. O escritor aos hebreus refere-se a Jesus como aquele que sustenta “... todas as coisas pela palavra do seu poder..." (Hb 1.3).  Ele é o criador e o sustentador de todas as coisas e, portanto, ele é que irá determinar o fim de cada uma delas. O mundo e o destino do mundo está em suas mãos e ele apenas espera o momento certo para julgá-lo (At 17.30-31).

Em segundo lugar, Jesus Cristo de Nazaré é O Senhor por designação do Pai. Os judeus que ouviram a pregação de Pedro sentiram-se profundamente tocados quando este lhes declarou: “Deus o fez Senhor e Cristo”. Aquele a quem eles adoravam honrara Àquele a quem eles mataram, designando-o como O Senhor e O Cristo. Para os apóstolos este conhecimento viera antes da morte de Jesus. No monte da transfiguração Pedro havia ouvido a voz de Deus de modo claro quando Este lhes falou: “Este é o meu filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi” (Mt 17.1-5). Nesta frase, dirigida aos apóstolos Pedro, Tiago e João, no alto do monte onde Jesus havia se transfigurado diante deles, Deus afirma duas verdades que não podiam ser contestadas: a primeira é que Jesus era seu filho amado. Filho em um sentido que nenhum outro ser humano poderia ser. Nós nos tornamos filhos de Deus por adoção, por um ato da graça de Deus (Rm 8.23, Gl 4.5 e Ef 1.5), ao recebermos Jesus Cristo como Senhor de nossas vidas (Jo 1.12). Jesus, porém, era filho de Deus em um sentido único. Ele é o unigênito do Pai. A segunda pessoa da trindade santa, unido à natureza humana, para resgatar a humanidade do seu destino de perdição. A segunda revelação feita aos discípulos no alto do monte se resume nas palavras: “a ele ouvi”. Pedro já havia confessado em uma outra ocasião “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6.68). A ordem de Deus agora deixa isto mais claro ainda. Jesus Cristo, o carpinteiro de Nazaré, é aquele que deve ser ouvido acima de qualquer outro. Suas palavras tem a autoridade do próprio Deus Pai.

Em terceiro lugar, Jesus Cristo de Nazaré é Senhor por direito de remissão. Um dos direitos que o povo de Israel havia recebido na aliança feita por Deus com a nação, no monte Sinai, era o de remissão. Qualquer israelita que, empobrecido, fosse reduzido a condição de escravo, poderia ser remido, ou seja, comprado de volta por um parente que tivesse condições para isso, de forma a recuperar a liberdade e a dignidade de homem livre. O apóstolo Paulo escrevendo aos coríntios exorta-os a não se fazerem de novo escravos de homens porque eles haviam sido comprados por um elevado preço, e, por causa disso eles deveriam glorificar a Deus nos seus próprios corpos (1 Co 6.20; 7.23). E o apóstolo João, em sua visão das coisas que haveriam de acontecer, teve o privilégio de ouvir o cântico dos remidos que haviam sido comprados da terra (Ap 14.3). Ora, podemos perguntar: Como Jesus Cristo de Nazaré nos comprou? Ele nos comprou na cruz, ao saldar a nossa dívida de valor eterno com sua vida de valor infinito. Juridicamente falando, nenhum ser humano poderia, pode ou poderá salvar-se a si mesmo. Existem religiões que ensinam que o ser humano pode alcançar a salvação através da prática das boas obras, esta, porém, é uma doutrina enganosa, porque desconsidera os fatos como eles de fato são. Bem. vamos aos fatos. Quando nossos primeiros pais pecaram eles cometeram um crime, cuja sentença anunciada era a morte. Seu pecado foi o de querer ser igual a Deus, conhecedores do bem e do mal. Quiseram decidir por si mesmos o que era o bem e o mal e por isso desobedeceram a Deus. Em outras palavras, não ouviram a Deus. Preferiram ouvir a serpente, encarnação do diabo conforme nos informa o livro do apocalipse (Ap 12.9; 20.2). O pecado  cometido era uma ofensa de valor infinito, porque cometido contra o Deus eterno, infinito em todas a suas perfeições, e em todos os seus atributos de poder e bondade. Assim sendo, a penalidade, necessariamente, também é de valor infinito. Isto, posto, podemos entender porque o ser humano jamais poderá salvar-se a si mesmo. Como criatura de Deus, o ser humano é finito. Suas obras, por melhor que sejam, são de valor finito, sua própria vida é de valor finito. Assim, sendo, o único meio do ser humano pagar por sua culpa de valor infinito com sua vida finita é sofrendo a penalidade infinitamente, ou seja, sofrendo a condenação eterna. Não era este o caso de Jesus Cristo de Nazaré. Ele é o Deus homem. Nascido sem pecado. Viveu uma vida perfeita, sem pecado. E, sendo o próprio Deus encarnado, sua vida tem valor infinito. Ele, sim, poderia pagar nossa dívida de valor infinito com sua vida de valor igualmente infinito, e uma vez que a dívida estivesse paga, poderia retornar a vida, pois como sua vida possui valor infinito ele não precisa sofrer a penalidade infinitamente como nós teríamos que sofrer. É por este motivo que o Senhor Jesus nos diz: “... eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi do meu Pai” (Jo 10.17-18). Quando, Jesus, em sua agonia na cruz, disse: “Está consumado”. Ele estava dizendo: A dívida foi totalmente paga. É por isso que após dizer isto ele “inclinando a cabeça rendeu o espírito” (Jo 19.30). Já não havia mais o que sofrer, nem porque sofrer. O valor infinito da ofensa feita à honra da trindade santa havia sido integralmente pago pelo valor infinito de sua vida. Ele é o Senhor porque nos comprou, resgatando-nos de nossa escravidão ao pecado, com o preço de sua vida de valor infinito.

Diante destes fatos, resta-nos perguntar: O que Jesus é para nós? Para milhões de seres humanos ele é apenas um salvador desejado. Um cara legal, que gosta demais dos seres humanos, e que de maneira nenhuma vai deixá-los perecer no inferno. Este, porém, não é o retrato que a Bíblia pinta de Jesus de Nazaré. É verdade que o próprio Jesus disse que “veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10). Mas é igualmente verdadeiro que esta salvação não é oferecida de modo indiscriminado e muito menos de modo banal. O anuncio da salvação, feito pelo próprio Jesus de Nazaré era feito nestes termos: “arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15). Duas exigências encontramos aqui. Arrependimento e confiança no que ele dizia, ou seja, arrependimento e fé. O povo judeu muitas vezes pegou em pedras para tentar matar Jesus, pelo fato de muitas vezes ele ter afirmado que era igual a Deus, ou seja, que ele era O Senhor. O povo queria um Messias, queria um salvador, mas não queria de modo algum um Senhor. Nenhuma outra cena nos evangelhos ilustra este fato tão bem como a cena da crucificação. Os quatro evangelistas registraram a cena. O relato de Lucas, porém, traz detalhes que merecem uma atenção especial para a nossa argumentação. Enquanto Mateus e Marcos parecem descrever a atitude dos dois ladrões que foram crucificados junto com Jesus, no período inicial da crucificação, informando-nos que eles o insultavam da mesma forma que as autoridades presentes, Lucas parece descrever a atitude destes outros condenados num momento mais próximo da hora da morte de Jesus. Os dois primeiros evangelistas narram que até os ladrões insultavam a Jesus. ali na cruz. Lucas, o terceiro dos evangelistas, nos informa que: “Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também” (Lc 23.39). Podemos inferir com razoável grau de certeza, a partir dos relatos de Mateus e Marcos, que estas palavras foram pronunciadas pelos dois ladrões durante as primeiras horas do sofrimento de Jesus. E, sabemos, pelo relato de Lucas que Jesus, até aquele momento não lhes dera resposta. E, porque ele não lhes dera qualquer resposta até então? Jesus não estava indiferente aos fatos ao seu redor. Na cruz, em meio as dores intensas que sentia, ele diz à sua mãe biológica: Mulher, eis ai o teu filho, indicando-lhe o discípulo amado. Ao discípulo amado, ele diz, indicando-lhe Maria: Filho, eis ai a tua mãe. Mesmo ali, Jesus está demonstrando seu cuidado e intenção de prover um lar onde haveria segurança e amor para aquela que  fora o instrumento de Deus para trazê-lo a este mundo. Na cruz, olhando os soldados que o escarneciam, Ele intercede ao Pai, dizendo: Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem. Entretanto, quanto, àqueles dois homens que clamavam por salvação ao seu lado, Jesus os ignorou completamente durante praticamente todo o tempo de sua agonia. Porque? Avaliando a atitude deste ladrão citado por Lucas, três coisas ficam claras: A primeira é que ele reconhecia que Jesus era o Cristo. O Messias. O enviado de Deus para salvar a humanidade. A segunda é que ele reconhecia que Jesus poderia descer da cruz e salvá-lo da morte. A terceira é que, mesmo ali, a poucas horas da morte certa, ele não admitia de modo algum reconhecer que Jesus era o Senhor. Ele queria um salvador. Ele clamava por um salvador. O Salvador estava ao seu lado e, apesar de ser, de fato, o salvador, Jesus o ignorou completamente. Ele morreu na cruz e foi para o inferno onde pagará, por sua vida de pecados, por toda a eternidade. Por que ele foi ignorado? Porque Jesus não salva aqueles que o querem apenas como salvador! O outro ladrão, porém, ao observar a atitude de Jesus, durante as horas de sofrimento na cruz, aos poucos foi percebendo o que de fato estava acontecendo ali. Ele entendeu que não era simplesmente a execução de uma sentença humana, aplicada pelos soldados romanos. Ele compreendeu que estava ali, diante dos seus olhos, o próprio filho de Deus, sofrendo uma sentença determinada pelo próprio Deus, desde a fundação do mundo (Ap 13.8), para pagar pelos pecados daqueles que jamais poderiam pagar por si mesmos sua dívida eterna (Gl 3.13). É por isso que ao se dirigir a seu companheiro de infortúnio ele o faz nestes termos: “Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez” (Jo 23.40-41).  Este malfeitor demonstra com suas palavras que, em primeiro lugar ele reconhece que Jesus é Deus, pois diz que Deus está sofrendo uma sentença igual a deles. Em segundo lugar ele reconhece sua culpa e a justiça da sua sentença, pois era o que seus atos mereciam, uma sentença de morte. Em terceiro lugar fica subentendido que ele percebe que quem aplica a sentença é o próprio Deus, pois, como o homem poderia condenar e sentenciar aquele que, embora em forma humana é reconhecido como sendo o próprio Deus. O que estava sendo castigado ali não eram os crimes cometidos contra o império romano, mas os pecados de toda a humanidade, cometidos contra a vontade soberana de Deus. Estava sendo satisfeita ali, não a justiça dos homens, mas a justiça de Deus. Reconhecendo em Jesus, o Senhor da vida e da morte, ele pode então confiadamente dirigir-se a Jesus, dizendo: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino” (Jo 23.42). Este ladrão, com estas palavras, demonstra ter compreendido algumas das mais importantes verdades reveladas por Deus. A primeira delas é que Jesus iria morrer na cruz, mas não permaneceria morto, ele iria voltar. A segunda destas verdades, é que ele voltaria “no teu reino” ou seja, Jesus possuía um reino que seria a realidade final para os bem aventurados que chegassem a ele. Em terceiro lugar, a entrada neste reino dependia inteiramente do reconhecimento do senhorio de Jesus. É por isso que ele humildemente se dirige a Jesus dizendo: “lembra-te de mim, quando vieres no teu reino”. Eram dois malfeitores, ambos reconheciam que Jesus era o Cristo, ambos reconheciam que ele poderia salvá-los, ambos desejavam um salvador, ambos queriam que Jesus se tornasse seu salvador. Mas, somente um, percebeu que Jesus não iria descer da cruz e livrá-lo da dor e da morte física, porque o próprio Jesus estava ali, sofrendo e entregando, voluntariamente, sua vida de valor infinito, pagando assim a nossa dívida eterna. Ele estava ali remindo-nos da escravidão ao pecado. Estava ali comprando-nos para si mesmo a fim de devolver-nos a liberdade, e conceder-nos a verdadeira vida, no reino eterno (Lc 23.43).

Diante destes fatos precisamos nos perguntar. E, para nós, quem é Jesus? Como queremos nos relacionar com Ele. Reconhecemos que Ele é nosso Senhor ou apenas nosso salvador? Como o temos tratado? Quero terminar esta reflexão contando uma pequena história real que nos foi contada pelo pastor Carlos Queiroz, no Congresso de Pastores da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, realizado em setembro último, em Poços de Caldas, MG. Segundo o pastor Carlos, ele começou a aproximar-se de uma determinada pessoa desejoso de compartilhar o evangelho de Jesus. Este homem sendo muito católico, se mostrava bastante arredio. Quanto mais o pastor Carlos se mostrava simpático e interessado no seu bem estar, mais ele se mostrava desconfiado de suas intenções. Por fim, em determinado dia, ao cumprimentá-lo o mesmo lhe disse: -  antes de mais nada quero lhe informar que sou devoto de são benedito (para ser absolutamente verdadeiro não lembro com certeza se era este o santo). Ao que lhe respondeu o pastor Carlos: - Que bacana, mas me diga, o senhor é devoto ou seguidor? - O homem então lhe  respondeu: - E tem diferença? - E, ele lhe disse: ´- É claro que tem; o devoto admira o santo, fala bem do santo, faz promessas para o santo e em troca deseja receber suas bênçãos. Já o seguidor, vive como o santo viveu. Por exemplo, se o senhor fosse devoto de São Francisco o senhor o admiraria, falaria bem dele, lhe faria promessas e esperaria ser abençoado por ele, mas, se fosse seu seguidor, o senhor não teria este comércio, o senhor o venderia, distribuiria seus bens aos pobres e viveria como São Francisco viveu, pregando o evangelho  e cuidando dos pobres. Naquela noite, quando foi orar, o pastor Carlos, surpreendeu-se ao ouvir a voz suave e amorosa do Espírito Santo dizendo-lhe: - E você, meu filho, é meu devoto ou meu seguidor?

Neste momento precisamos examinar nossos corações com honestidade. Precisamos nos perguntar: O que temos desejado que Jesus seja para nós? O Senhor, ou apenas o Salvador? Se o queremos apenas como salvador, então, somos apenas devotos que o admiram, falam bem dele e esperam ser abençoados em troca. Neste caso, a solução para nós é a mesma oferecida por Pedro aos que o ouviam: Arrependam-se! Se esta for a nossa situação precisamos urgentemente de arrependimento, pois, se não nos arrependermos de querer Jesus com uma intenção meramente utilitarista, nos colocamos no mesmo nível daquele malfeitor que reconhecia que Jesus era o Cristo, que Ele poderia salvá-los, mas que, apesar disso, acabou indo para o inferno. Mas, se reconhecemos que Ele é nosso Senhor, então temos ordens a seguir, uma missão a cumprir (Mt 28.18-20) e precisamos entender que, acima de qualquer outro, Jesus Cristo sendo o Senhor, tem o direito de determinar e controlar a agenda de nossas vidas.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Devemos amar a Deus de todo o nosso coração - Dt 6.4-9

Jesus afirmou ser este o maior de todos os mandamentos (Mc 12.29-30). Não há outra ordem mais importante do que esta, portanto, precisamos obedecê-la. Este mandamento ocupava um lugar de proeminência na vida do povo de Israel. Era recitado diariamente por toda a nação como um ensinamento que jamais deveria ser esquecido. Apesar disso, Jesus deixou claro que a nação de Israel, com toda a sua religiosidade nem conhecia a Deus, nem tampouco o amava (Jo 5.39-40). A rejeição final de Jesus e a Cruz são as provas mais contundentes dessa realidade.

A palavra hebraica traduzida por ouve, é shema; por isso a tradição judaica chama esse versículo de shemá. O povo de Israel, no tempo de Jesus, recitava o Shemá diariamente, porém, a esmagadora maioria do povo, incluindo suas autoridades, não conhecia o Senhor, e não aceitava a descrição profética do Messias como um homem de dores, acalentando e amando, em seus corações, a imagem de um "messias" criado por sua própria imaginação e conformado às suas expectativas de vitória militar contra os seus inimigos estrangeiros.

A ignorância do povo, nos tempos de Jesus, com respeito àquilo que a Palavra de Deus dizia a seu respeito, tinha uma razão simples de entender. A fé do povo era formada e alimentada pelo ensino dos rabinos e doutores da lei (escribas, fariseus e saduceus, alem dos sacerdotes que ministravam no templo) que tinham o acesso ao texto da lei e dos escritos proféticos, mas que os interpretavam para o povo a partir de sua própria tradição que era colocada em pé de igualdade com as Escrituras, e as vezes, até mesmo, acima delas. Ao fazer isso, tais mestres colocavam a Revelação Divina (Palavra de Deus) em pé de igualdade com a tradição (palavra de homens). Ao povo, que nos tempos de Jesus, já não conhecia o hebraico, restava acreditar no que os rabinos diziam. Isso, porque, o povo que havia retornado do exílio na Babilônia, ao voltar, já não conhecia o idioma hebraico, pois durante os setenta anos do cativeiro eles perderam o contato com sua língua materna e a esqueceram. Os que retornaram voltaram falando o aramaico, língua da Babilônia, e já não tinham acesso ao texto sagrado, escrito em hebraico, ficando completamente dependente da interpretação dos rabinos e de sua orientação espiritual. Era um processo semelhante ao que aconteceu durante a idade média no seio da igreja cristã. Nesta, os sacerdotes liam a Bíblia para o povo em latim, recitavam a missa em latim, e ao povo, que não falava nem lia o texto na língua latina, restava apenas acreditar no que os sacerdotes diziam. Tanto num caso como no outro, a Palavra de Deus acabou sendo corrompida e o povo vivia no engano. Por isso, é que foi necessária a sequência ilustrativa dos "Ouvistes o que foi dito aos antigos, ... Eu porém, vos digo..." pronunciados por Jesus, no sermão do monte (Mt 5.21-48).

Esta situação espiritual caracterizava-se por uma profunda religiosidade que se expressava através de rituais realizados mecanicamente no templo e por uma postura legalista em relação aos vários aspectos da vida. É por isso que o apóstolo Mateus, ecoando as palavras do profeta Isaías, ao relatar o início do ministério público de Jesus, o faz em termos de um clarão de luz que surge de repente em meio às trevas (Mt 4.16). Eram trevas espirituais tão intensas que, embora o povo tenha se alegrado inicialmente com os milagres realizados por Jesus, logo, em pouco mais de um ano de ministério, e a medida que o Senhor ia ficando mais e mais conhecido por meio de seu ensino, aumentava gradativamente a rejeição daqueles que ouviam o verdadeiro significado da Palavra de Deus. Tal rejeição culminou no grande clamor diante de Pôncio Pilatos: Crucifica-O, e demonstrou claramente que o "senhor" ao qual a nação se referia diariamente, ao recitar o shemá, não era aquele que havia falado face a face com Moisés e que durante séculos havia protegido, repreendido e exortado à nação ao arrependimento, através de todos os seus profetas. Era, antes, um "senhor" criado à imagem e semelhança dos desejos de seus próprios corações, e ao qual estavam dispostos a "servir" com sua religiosidade em troca da satisfação de seus desejos políticos e sociais.

Diante de tudo isso, a grande pergunta que nós mesmos devemos nos fazer é esta: A que Senhor estamos servindo? Servimos ao Senhor que se auto revelou nas Escrituras Sagradas, e nos deu mandamentos para obedecer? Ou servimos a um "senhor" cujos valores foram elaborados em nossas próprias mentes? Servimos ao Jesus Cristo de Nazaré, cujos ensinos conduzem a vida eterna ou ao cristo do rádio e da televisão que promete  uma vida de riquezas e status? Ao  Jesus Cristo de Nazaré, que nos prometeu que neste mundo teríamos tribulações ou ao "cristo" da mídia e dos shows que nos promete vitórias que se manifestam em em uma vida confortável e livre de problemas e dificuldades?

Creio que o grande perigo que corremos hoje é que venhamos a repetir o erro dos judeus que receberam a visitação histórica do Deus que se fez homem. O erro de praticar uma religião com rituais baseados na Bíblia, porém, servindo, em nossos corações, a um "cristo" criado à imagem e semelhança dos nossos desejos de segurança e conforto. Uma religião na qual recitamos promessas enquanto, através de nosso estilo de vida, rejeitamos os deveres e a vocação ao serviço sacrificial exigido daqueles são chamados para a vida do Reino de Deus. Idolatria não é apenas o ato de se prostrar diante de uma estátua feita de madeira ou gesso e prestar-lhe adoração. Idolatria é serviço religioso oferecido a qualquer ídolo, mesmo que este seja um ídolo imaterial, construído em nossas mentes, e feito à imagem e semelhança de nossos desejos, por mais piedosos que estes possam parecer.

Para fugir a este perigo precisamos ser relembrados constantemente daquilo que Moisés ensinou ao povo e que Jesus afirmou ser a mais importante de todas as ordens dadas por Deus. O Senhor, a quem devemos amar, é o Deus triuno: Pai, Filho e Espírito Santo, que se revelou historicamente ao povo de Israel e se revela a nós, hoje, nas Escrituras Sagradas. E não podemos amá-lo sem conhecê-lo. Não podemos conhecê-lo, sem encontrá-lo. Não podemos encontrá-lo sem procurá-lo, e não podemos procurá-lo sem que o façamos com todo o nosso coração. É isto que Ele nos diz através do profeta Jeremias: Buscar-me-eis e me encontrareis quando me buscardes de todo o vosso coração (Jr 29.13). Deus não se deixa encontrar por aqueles que o buscam com intenções espúrias no coração. Ele não é achado por aqueles que criaram em seus corações a imagem de um deus disposto a satisfazer seus desejos egoístas e a receber adoração oferecida a partir de valores e condições humanas. Quando estas pessoas buscam a Deus desta maneira encontram apenas o enganador, capaz de se transfigurar em anjo de luz (2 Co 11.14), e assumir a forma de qualquer tipo de deus que tenha sido moldada nos corações dos homens. O profeta Oséias falando acerca da nação de Israel, nos revela o sentimento do coração de Deus nestas palavras: "O meu povo consulta o seu pedaço de madeira, e a sua vara lhe dá resposta; porque um espírito de prostituição os enganou, eles, prostituindo-se, abandonaram o seu Deus" (Os 4.12), O que o profeta está ensinando nesta passagem é que o povo consultava os ídolos e os ídolos lhes davam resposta, mas não que os ídolos em si pudessem fazê-lo, na verdade era um demônio, aqui chamado de espírito de prostituição, que os enganava levando-os cada vez mais para longe do seu Deus. E isto é assim porque aqueles que rejeitaram à verdade claramente revelada nas Escrituras, recebem como punição de Deus, nesta vida, a operação do erro (2 Ts 2.11) que é uma autorização dada aos demônios para que continuem a enganar tais pessoas afim de que não se convertam e não sejam salvas (2 Cr 18.21-22).

Em segundo lugar, precisamos compreender, crer e colocar em prática em nossas vidas esta verdade: O amor a Deus só é real quando se expressa através da obediência a sua vontade (Jo 14:21). Jesus foi enfático com respeito a isto (Jo 9.37-40). Obedecer a Deus exige de nós uma espécie singular de desobediência, porque exige que paremos de obedecer aos desejos de nossa própria carne. Dentro de nós há uma batalha constante. O Espírito luta contra a carne e a carne luta contra o Espírito (Gl 5.17). É uma luta diária pela nossa obediência. Quem vencerá esta luta? A resposta honesta para esta pergunta é: aquele que for mais bem alimentado. É por isso que o texto sagrado nos orienta a alimentar o espírito constantemente: assentado em casa, andando pelo caminho, ao levantar e ao deitar. Na condição atual em que nossa natureza humana se encontra, degenerada pelo pecado, não temos forças próprias para resistir ao pecado e obedecer a Deus. É por isso que precisamos nos alimentar de sua Palavra e da comunhão com o Senhor através da oração, para buscar, no próprio Senhor, a força necessária para amá-lo e servi-lo (Rm 5.5 e Ef 6.10).

Em terceiro lugar precisamos entender que recebemos a missão de ensinar outros a amarem e a servirem a Deus, começando por nossas próprias famílias. Precisamos transmitir a Palavra de Deus à próxima geração, através do ensino e através do exemplo (Pv 22.6). Isto não é uma opção para os que amam a Deus. É a nossa missão. É importante entender que o texto de provérbios citado acima não nos diz para ensinar à criança "o" caminho, mas para ensinar "no" caminho. É preciso estar no caminho para poder ensinar o caminho de Deus, porque a criança sempre irá aprender a andar, andando. No caminho em que ela andar a medida que cresce ela continuará a andar quando já for adulta. É por isso que é tão importante ensinar a criança a ter, desde pequena, compromisso com as coisas de Deus. A participação nos cultos, a prática da entrega dos dízimos e de ofertas, o hábito de visitar as pessoas enfermas para desenvolver a sensibilidade pela dor dos que sofrem, a prática da oração e tantas outras disciplinas da vida cristã. Muitas pessoas parecem acreditar que basta ir à igreja domingo a noite e então as coisas se resolverão por si mesmas. Elas ocupam a vida dos filhos com toda espécie de atividade de modo que a semana inteira é passada longe do templo, longe da igreja que se reúne no templo, longe da prática das disciplinas espirituais da comunhão, da oração comunitária, do estudo bíblico devocional, da generosidade auditiva, da responsabilidade coletiva na manutenção do culto a Deus e da oferta da graça, através do testemunho pessoal, aos que ainda não conhecem a Cristo. E ainda esperam que, quando seus filhos cresceram se tornem bons crentes. Isto é quase impossível. Os provérbios são truísmos. Não devem ser interpretados como promessas nem como profecias. Um truísmo é uma declaração tão tendente a ser verdadeira que na maioria dos casos se mostra verdadeira. O que este versículo ensina é que no caminho em que a criança crescer, para o bem ou para o mal, ela provavelmente permanecerá até quando for uma pessoa idosa.

Crianças que desde cedo aprenderem a andar nos caminhos do Senhor tem grandes possibilidades de permanecer neles por toda a sua vida. Aquelas, porém, que crescerem longe dos caminhos do Senhor, tem iguais possibilidades de permanecerem a vida toda longe de Deus. As que crescerem na igreja, praticando uma fé superficial, provavelmente serão adultos que praticarão uma fé igualmente superficial. Andar nos caminhos do Senhor não é imitar o exemplo do povo de Israel, que recitava o shemá diariamente, porém, não amava o Senhor que se revelara nas Escrituras, antes, amavam seus próprios ídolos, criados no interior dos seus próprios corações, aos quais chamavam de Deus. Amar a Deus é dar a ele o espaço devido na agenda de nossas vidas, de modo que  ele e somente ele tenha a primazia em todas as coisas.

Neste ponto torna-se importante perguntarmos. Como podemos saber que amamos a Deus da forma como ele exige? Para responder a esta pergunta precisamos entender no que consiste o desamor a Deus. E para entender tal coisa precisamos voltar nossa atenção ao local onde tudo começou. O Jardim do Éden. Ao criar os seres humanos, Deus os estabeleceu no Jardim e os investiu de autoridade sobre toda a criação, abaixo apenas do próprio criador, com quem mantinham uma relação de submissão amorosa. A obediência a Deus era natural pois nada havia neste relacionamento que induzisse o homem e a mulher á desobediência. Isto, porém, foi até o momento em que entrou em cena um novo personagem. A serpente! O texto sagrado a descreve como "... o mais sagaz de todos os animais selváticos..." (Gn 3.1). Este novo personagem fala à mulher de modo a induzir ao erro. Ao garantir a mulher que eles não morreriam ao comer do fruto proibido, a serpente, identificada no livro do Apocalipse como sendo uma encarnação de satanás (Ap 12.9; 20.2), leva a primeira mulher a crer que Deus havia mentido, que ele proibira que comessem aquele fruto por motivos egoístas, para impedir que se tornassem como ele, conhecedores do bem e do mal. Ao abrigar este pensamento em seu coração Eva, já não era mais uma pessoa numa relação de amorosa submissão a Deus. O desejo de desobedecer se instalara em seu coração. Ela, agora, acreditava que Deus não merecia sua confiança. Pronto! O desamor a Deus havia entrado na história da humanidade. A mulher era, a partir de então, uma pessoa que desconfiava dos propósitos de Deus para sua vida. E estava disposta a ser insubmissa e conquistar o "direito" de conhecer, por si mesma, ou seja, através da experiência pessoal, o que era o bem e o mal. Deixe-me colocar a situação da seguinte maneira: o primeiro casal não se tornou pecador ao comer do fruto proibido. Eles o comeram por já serem pecadores. Esta é a natureza do pecado: antes de ser uma ação objetiva que acontece no tempo e no espaço, como o ato de desobedecer uma ordem dada, o pecado é algo espiritual, uma disposição da vontade, um desejo interno contrário à vontade de Deus. É por este motivo que Jesus afirma que: "O homem que olhar para uma mulher com intenção impura, em seu coração, já adulterou com ela (Mt 5.28).

O desamor a Deus manifestou-se como um desejo interno de nossos primeiros pais de determinar por si mesmos o que era o bem e o mal. Este desejo interno manifestou-se externamente na desobediência do primeiro casal. Ainda hoje, o desamor a Deus continua a manifestar-se na desobediência à vontade de Deus, e, na insistência obstinada da humanidade em determinar, por si mesma, o que é o bem e o mal. As estatísticas sobre abortos, crimes de morte e divórcios. As leis aprovando os casamentos de pessoas do mesmos sexo juntamente com as leis que visam proibir a livre manifestação do pensamento daqueles que discordam, e as passeatas que procuram intimidar o testemunho e a ação da igreja , são todas manifestações externas, daquilo que, internamente, os seres humanos já determinaram em seus corações como sendo o bem e o mal.

Resta então perguntar: E nós, que estamos na igreja de Jesus Cristo. Temos aceitado que a Palavra de Deus defina para nós o que é o bem e o mal, o que é certo e o que é errado em termos morais. Como homens e mulheres de Deus, temos assumido o papel que a Palavra de Deus designa para cada um de nós como maridos, esposas, pais, filhos, empregados, patrões ou cidadãos, ou temos decidido por nós mesmos, o que nos parece ser o certo em cada uma destas áreas.

Uma coisa é certa: Não podemos afirmar que amamos a Deus de todo o nosso coração, com todo o nosso entendimento e com todas as nossas forças, se não estivermos dispostos a ser obedientes em todas estas áreas de nossas vidas.

Ao finalizar esta reflexão quero dizer que temos o desafio de examinar nossos próprios corações, com honestidade, a fim de verificar se em nossas vidas o bem e o mal são definidos de fato pela Palavra de Deus ou pelos ditames do mundo, e, se encontrarmos alguma área ondes estas definições não sejam feitas pela revelação de Deus, que imediatamente, a levemos cativa  à obediência do Senhor Jesus Cristo (2 Co 10.4-5). Amém.