segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Devemos amar a Deus de todo o nosso coração - Dt 6.4-9

Jesus afirmou ser este o maior de todos os mandamentos (Mc 12.29-30). Não há outra ordem mais importante do que esta, portanto, precisamos obedecê-la. Este mandamento ocupava um lugar de proeminência na vida do povo de Israel. Era recitado diariamente por toda a nação como um ensinamento que jamais deveria ser esquecido. Apesar disso, Jesus deixou claro que a nação de Israel, com toda a sua religiosidade nem conhecia a Deus, nem tampouco o amava (Jo 5.39-40). A rejeição final de Jesus e a Cruz são as provas mais contundentes dessa realidade.

A palavra hebraica traduzida por ouve, é shema; por isso a tradição judaica chama esse versículo de shemá. O povo de Israel, no tempo de Jesus, recitava o Shemá diariamente, porém, a esmagadora maioria do povo, incluindo suas autoridades, não conhecia o Senhor, e não aceitava a descrição profética do Messias como um homem de dores, acalentando e amando, em seus corações, a imagem de um "messias" criado por sua própria imaginação e conformado às suas expectativas de vitória militar contra os seus inimigos estrangeiros.

A ignorância do povo, nos tempos de Jesus, com respeito àquilo que a Palavra de Deus dizia a seu respeito, tinha uma razão simples de entender. A fé do povo era formada e alimentada pelo ensino dos rabinos e doutores da lei (escribas, fariseus e saduceus, alem dos sacerdotes que ministravam no templo) que tinham o acesso ao texto da lei e dos escritos proféticos, mas que os interpretavam para o povo a partir de sua própria tradição que era colocada em pé de igualdade com as Escrituras, e as vezes, até mesmo, acima delas. Ao fazer isso, tais mestres colocavam a Revelação Divina (Palavra de Deus) em pé de igualdade com a tradição (palavra de homens). Ao povo, que nos tempos de Jesus, já não conhecia o hebraico, restava acreditar no que os rabinos diziam. Isso, porque, o povo que havia retornado do exílio na Babilônia, ao voltar, já não conhecia o idioma hebraico, pois durante os setenta anos do cativeiro eles perderam o contato com sua língua materna e a esqueceram. Os que retornaram voltaram falando o aramaico, língua da Babilônia, e já não tinham acesso ao texto sagrado, escrito em hebraico, ficando completamente dependente da interpretação dos rabinos e de sua orientação espiritual. Era um processo semelhante ao que aconteceu durante a idade média no seio da igreja cristã. Nesta, os sacerdotes liam a Bíblia para o povo em latim, recitavam a missa em latim, e ao povo, que não falava nem lia o texto na língua latina, restava apenas acreditar no que os sacerdotes diziam. Tanto num caso como no outro, a Palavra de Deus acabou sendo corrompida e o povo vivia no engano. Por isso, é que foi necessária a sequência ilustrativa dos "Ouvistes o que foi dito aos antigos, ... Eu porém, vos digo..." pronunciados por Jesus, no sermão do monte (Mt 5.21-48).

Esta situação espiritual caracterizava-se por uma profunda religiosidade que se expressava através de rituais realizados mecanicamente no templo e por uma postura legalista em relação aos vários aspectos da vida. É por isso que o apóstolo Mateus, ecoando as palavras do profeta Isaías, ao relatar o início do ministério público de Jesus, o faz em termos de um clarão de luz que surge de repente em meio às trevas (Mt 4.16). Eram trevas espirituais tão intensas que, embora o povo tenha se alegrado inicialmente com os milagres realizados por Jesus, logo, em pouco mais de um ano de ministério, e a medida que o Senhor ia ficando mais e mais conhecido por meio de seu ensino, aumentava gradativamente a rejeição daqueles que ouviam o verdadeiro significado da Palavra de Deus. Tal rejeição culminou no grande clamor diante de Pôncio Pilatos: Crucifica-O, e demonstrou claramente que o "senhor" ao qual a nação se referia diariamente, ao recitar o shemá, não era aquele que havia falado face a face com Moisés e que durante séculos havia protegido, repreendido e exortado à nação ao arrependimento, através de todos os seus profetas. Era, antes, um "senhor" criado à imagem e semelhança dos desejos de seus próprios corações, e ao qual estavam dispostos a "servir" com sua religiosidade em troca da satisfação de seus desejos políticos e sociais.

Diante de tudo isso, a grande pergunta que nós mesmos devemos nos fazer é esta: A que Senhor estamos servindo? Servimos ao Senhor que se auto revelou nas Escrituras Sagradas, e nos deu mandamentos para obedecer? Ou servimos a um "senhor" cujos valores foram elaborados em nossas próprias mentes? Servimos ao Jesus Cristo de Nazaré, cujos ensinos conduzem a vida eterna ou ao cristo do rádio e da televisão que promete  uma vida de riquezas e status? Ao  Jesus Cristo de Nazaré, que nos prometeu que neste mundo teríamos tribulações ou ao "cristo" da mídia e dos shows que nos promete vitórias que se manifestam em em uma vida confortável e livre de problemas e dificuldades?

Creio que o grande perigo que corremos hoje é que venhamos a repetir o erro dos judeus que receberam a visitação histórica do Deus que se fez homem. O erro de praticar uma religião com rituais baseados na Bíblia, porém, servindo, em nossos corações, a um "cristo" criado à imagem e semelhança dos nossos desejos de segurança e conforto. Uma religião na qual recitamos promessas enquanto, através de nosso estilo de vida, rejeitamos os deveres e a vocação ao serviço sacrificial exigido daqueles são chamados para a vida do Reino de Deus. Idolatria não é apenas o ato de se prostrar diante de uma estátua feita de madeira ou gesso e prestar-lhe adoração. Idolatria é serviço religioso oferecido a qualquer ídolo, mesmo que este seja um ídolo imaterial, construído em nossas mentes, e feito à imagem e semelhança de nossos desejos, por mais piedosos que estes possam parecer.

Para fugir a este perigo precisamos ser relembrados constantemente daquilo que Moisés ensinou ao povo e que Jesus afirmou ser a mais importante de todas as ordens dadas por Deus. O Senhor, a quem devemos amar, é o Deus triuno: Pai, Filho e Espírito Santo, que se revelou historicamente ao povo de Israel e se revela a nós, hoje, nas Escrituras Sagradas. E não podemos amá-lo sem conhecê-lo. Não podemos conhecê-lo, sem encontrá-lo. Não podemos encontrá-lo sem procurá-lo, e não podemos procurá-lo sem que o façamos com todo o nosso coração. É isto que Ele nos diz através do profeta Jeremias: Buscar-me-eis e me encontrareis quando me buscardes de todo o vosso coração (Jr 29.13). Deus não se deixa encontrar por aqueles que o buscam com intenções espúrias no coração. Ele não é achado por aqueles que criaram em seus corações a imagem de um deus disposto a satisfazer seus desejos egoístas e a receber adoração oferecida a partir de valores e condições humanas. Quando estas pessoas buscam a Deus desta maneira encontram apenas o enganador, capaz de se transfigurar em anjo de luz (2 Co 11.14), e assumir a forma de qualquer tipo de deus que tenha sido moldada nos corações dos homens. O profeta Oséias falando acerca da nação de Israel, nos revela o sentimento do coração de Deus nestas palavras: "O meu povo consulta o seu pedaço de madeira, e a sua vara lhe dá resposta; porque um espírito de prostituição os enganou, eles, prostituindo-se, abandonaram o seu Deus" (Os 4.12), O que o profeta está ensinando nesta passagem é que o povo consultava os ídolos e os ídolos lhes davam resposta, mas não que os ídolos em si pudessem fazê-lo, na verdade era um demônio, aqui chamado de espírito de prostituição, que os enganava levando-os cada vez mais para longe do seu Deus. E isto é assim porque aqueles que rejeitaram à verdade claramente revelada nas Escrituras, recebem como punição de Deus, nesta vida, a operação do erro (2 Ts 2.11) que é uma autorização dada aos demônios para que continuem a enganar tais pessoas afim de que não se convertam e não sejam salvas (2 Cr 18.21-22).

Em segundo lugar, precisamos compreender, crer e colocar em prática em nossas vidas esta verdade: O amor a Deus só é real quando se expressa através da obediência a sua vontade (Jo 14:21). Jesus foi enfático com respeito a isto (Jo 9.37-40). Obedecer a Deus exige de nós uma espécie singular de desobediência, porque exige que paremos de obedecer aos desejos de nossa própria carne. Dentro de nós há uma batalha constante. O Espírito luta contra a carne e a carne luta contra o Espírito (Gl 5.17). É uma luta diária pela nossa obediência. Quem vencerá esta luta? A resposta honesta para esta pergunta é: aquele que for mais bem alimentado. É por isso que o texto sagrado nos orienta a alimentar o espírito constantemente: assentado em casa, andando pelo caminho, ao levantar e ao deitar. Na condição atual em que nossa natureza humana se encontra, degenerada pelo pecado, não temos forças próprias para resistir ao pecado e obedecer a Deus. É por isso que precisamos nos alimentar de sua Palavra e da comunhão com o Senhor através da oração, para buscar, no próprio Senhor, a força necessária para amá-lo e servi-lo (Rm 5.5 e Ef 6.10).

Em terceiro lugar precisamos entender que recebemos a missão de ensinar outros a amarem e a servirem a Deus, começando por nossas próprias famílias. Precisamos transmitir a Palavra de Deus à próxima geração, através do ensino e através do exemplo (Pv 22.6). Isto não é uma opção para os que amam a Deus. É a nossa missão. É importante entender que o texto de provérbios citado acima não nos diz para ensinar à criança "o" caminho, mas para ensinar "no" caminho. É preciso estar no caminho para poder ensinar o caminho de Deus, porque a criança sempre irá aprender a andar, andando. No caminho em que ela andar a medida que cresce ela continuará a andar quando já for adulta. É por isso que é tão importante ensinar a criança a ter, desde pequena, compromisso com as coisas de Deus. A participação nos cultos, a prática da entrega dos dízimos e de ofertas, o hábito de visitar as pessoas enfermas para desenvolver a sensibilidade pela dor dos que sofrem, a prática da oração e tantas outras disciplinas da vida cristã. Muitas pessoas parecem acreditar que basta ir à igreja domingo a noite e então as coisas se resolverão por si mesmas. Elas ocupam a vida dos filhos com toda espécie de atividade de modo que a semana inteira é passada longe do templo, longe da igreja que se reúne no templo, longe da prática das disciplinas espirituais da comunhão, da oração comunitária, do estudo bíblico devocional, da generosidade auditiva, da responsabilidade coletiva na manutenção do culto a Deus e da oferta da graça, através do testemunho pessoal, aos que ainda não conhecem a Cristo. E ainda esperam que, quando seus filhos cresceram se tornem bons crentes. Isto é quase impossível. Os provérbios são truísmos. Não devem ser interpretados como promessas nem como profecias. Um truísmo é uma declaração tão tendente a ser verdadeira que na maioria dos casos se mostra verdadeira. O que este versículo ensina é que no caminho em que a criança crescer, para o bem ou para o mal, ela provavelmente permanecerá até quando for uma pessoa idosa.

Crianças que desde cedo aprenderem a andar nos caminhos do Senhor tem grandes possibilidades de permanecer neles por toda a sua vida. Aquelas, porém, que crescerem longe dos caminhos do Senhor, tem iguais possibilidades de permanecerem a vida toda longe de Deus. As que crescerem na igreja, praticando uma fé superficial, provavelmente serão adultos que praticarão uma fé igualmente superficial. Andar nos caminhos do Senhor não é imitar o exemplo do povo de Israel, que recitava o shemá diariamente, porém, não amava o Senhor que se revelara nas Escrituras, antes, amavam seus próprios ídolos, criados no interior dos seus próprios corações, aos quais chamavam de Deus. Amar a Deus é dar a ele o espaço devido na agenda de nossas vidas, de modo que  ele e somente ele tenha a primazia em todas as coisas.

Neste ponto torna-se importante perguntarmos. Como podemos saber que amamos a Deus da forma como ele exige? Para responder a esta pergunta precisamos entender no que consiste o desamor a Deus. E para entender tal coisa precisamos voltar nossa atenção ao local onde tudo começou. O Jardim do Éden. Ao criar os seres humanos, Deus os estabeleceu no Jardim e os investiu de autoridade sobre toda a criação, abaixo apenas do próprio criador, com quem mantinham uma relação de submissão amorosa. A obediência a Deus era natural pois nada havia neste relacionamento que induzisse o homem e a mulher á desobediência. Isto, porém, foi até o momento em que entrou em cena um novo personagem. A serpente! O texto sagrado a descreve como "... o mais sagaz de todos os animais selváticos..." (Gn 3.1). Este novo personagem fala à mulher de modo a induzir ao erro. Ao garantir a mulher que eles não morreriam ao comer do fruto proibido, a serpente, identificada no livro do Apocalipse como sendo uma encarnação de satanás (Ap 12.9; 20.2), leva a primeira mulher a crer que Deus havia mentido, que ele proibira que comessem aquele fruto por motivos egoístas, para impedir que se tornassem como ele, conhecedores do bem e do mal. Ao abrigar este pensamento em seu coração Eva, já não era mais uma pessoa numa relação de amorosa submissão a Deus. O desejo de desobedecer se instalara em seu coração. Ela, agora, acreditava que Deus não merecia sua confiança. Pronto! O desamor a Deus havia entrado na história da humanidade. A mulher era, a partir de então, uma pessoa que desconfiava dos propósitos de Deus para sua vida. E estava disposta a ser insubmissa e conquistar o "direito" de conhecer, por si mesma, ou seja, através da experiência pessoal, o que era o bem e o mal. Deixe-me colocar a situação da seguinte maneira: o primeiro casal não se tornou pecador ao comer do fruto proibido. Eles o comeram por já serem pecadores. Esta é a natureza do pecado: antes de ser uma ação objetiva que acontece no tempo e no espaço, como o ato de desobedecer uma ordem dada, o pecado é algo espiritual, uma disposição da vontade, um desejo interno contrário à vontade de Deus. É por este motivo que Jesus afirma que: "O homem que olhar para uma mulher com intenção impura, em seu coração, já adulterou com ela (Mt 5.28).

O desamor a Deus manifestou-se como um desejo interno de nossos primeiros pais de determinar por si mesmos o que era o bem e o mal. Este desejo interno manifestou-se externamente na desobediência do primeiro casal. Ainda hoje, o desamor a Deus continua a manifestar-se na desobediência à vontade de Deus, e, na insistência obstinada da humanidade em determinar, por si mesma, o que é o bem e o mal. As estatísticas sobre abortos, crimes de morte e divórcios. As leis aprovando os casamentos de pessoas do mesmos sexo juntamente com as leis que visam proibir a livre manifestação do pensamento daqueles que discordam, e as passeatas que procuram intimidar o testemunho e a ação da igreja , são todas manifestações externas, daquilo que, internamente, os seres humanos já determinaram em seus corações como sendo o bem e o mal.

Resta então perguntar: E nós, que estamos na igreja de Jesus Cristo. Temos aceitado que a Palavra de Deus defina para nós o que é o bem e o mal, o que é certo e o que é errado em termos morais. Como homens e mulheres de Deus, temos assumido o papel que a Palavra de Deus designa para cada um de nós como maridos, esposas, pais, filhos, empregados, patrões ou cidadãos, ou temos decidido por nós mesmos, o que nos parece ser o certo em cada uma destas áreas.

Uma coisa é certa: Não podemos afirmar que amamos a Deus de todo o nosso coração, com todo o nosso entendimento e com todas as nossas forças, se não estivermos dispostos a ser obedientes em todas estas áreas de nossas vidas.

Ao finalizar esta reflexão quero dizer que temos o desafio de examinar nossos próprios corações, com honestidade, a fim de verificar se em nossas vidas o bem e o mal são definidos de fato pela Palavra de Deus ou pelos ditames do mundo, e, se encontrarmos alguma área ondes estas definições não sejam feitas pela revelação de Deus, que imediatamente, a levemos cativa  à obediência do Senhor Jesus Cristo (2 Co 10.4-5). Amém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário