“Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as
palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo
está próximo”.
Ap 1.3
Vários
anos após a sua ascensão aos céus, Jesus Cristo aparece ao
apóstolo João, à época (c. 98 DC), desterrado na ilha de Patmos,
com uma aparência que, no primeiro momento deixa o apóstolo atônito
e aterrorizado, a ponto de cair no chão como se estivesse morto (Ap
1.9-20). Após identificar-se, o Senhor lhe ordena que escreva tudo o
que ele iria lhe mostrar. E o apóstolo inicia este registro com a
surpreendente bem-aventurança mencionada logo no início dessa
profecia. Jesus afirma que são bem-aventurados aqueles que leem e os
que ouvem as palavras da profecia. Este registro demonstra a
misericórdia do Senhor e a sua preocupação para com todos os seus
eleitos. A maioria das pessoas da época de João e nos muitos
séculos que se seguiram não sabia ler, esta maioria esmagadora
poderia apenas ouvir a Palavra, quando fosse pregada por aqueles que
a ela tivessem acesso. Muitos milhões de seres humanos, ainda hoje,
tem nascido, vivido e morrido sem jamais terem tido a chance de ter
qualquer contato com a Palavra de Deus. Vidas preciosas que tem
perecido por nada saberem acerca da salvação oferecida por Jesus
Cristo.
Durante
milhares de anos os cristãos ansiaram por ter acesso a Palavra do
Senhor. Este anseio cumpre de certa forma uma promessa divina
registrada pelo profeta Amós (Am 8.11). E isso porque até a
invenção da imprensa por Gutemberg, cada exemplar da Bíblia
Sagrada era copiado a mão, o que fazia que uma única Bíblia
custasse uma quantia que as pessoas comuns simplesmente não poderiam
pagar. Esta realidade fazia com que as pessoas suspirassem de alegria
quando tinham a oportunidade de ouvir a leitura e a pregação da
Palavra de Deus. O exemplo de Mary Jones é muito ilustrativo. “Mary
Jones viveu a mais de 200 anos no País de Gales, Reino Unido. De
família muito pobre, morava com os pais numa pequena propriedade
rural. Com apena 9 anos de idade, quando foi alfabetizada, Mary
estabeleceu uma meta para si mesma: ter uma Bíblia que fosse sua e
estivesse na sua língua – o galês – para ler quando quisesse.
Nessa época, ter uma Bíblia era um verdadeiro desafio. Os livros
eram muito caros e raros. Apesar das dificuldades, Mary Jones não
desistiu: durante seis anos trabalhou duro para reunir a quantia
necessária. Aos 15 anos, juntou o suficiente para comprar a Bíblia
que tanto queria. Porém, mais um obstáculo se colocou à sua
frente: 40 quilômetros que teriam que ser percorridos a pé até a
cidade mais próxima, onde poderia adquirir o seu exemplar. Foi uma
jornada solitária, exaustiva e arriscada, mas bem-sucedida. Sua fome
e sua sede pela Palavra de Deus finalmente seriam saciadas”.
(http://www.sbb.com.br/detalhes.asp?idproduto=1116466).
Hoje a
situação mudou. Não temos mais dificuldade em conseguir uma
Bíblia. A maioria das pessoas pode ter e muitas possuem mais de um
exemplar das Escrituras Sagradas em suas casas. Infelizmente, porém,
o que a maioria das pessoas não tem é o desejo que queimava o
coração de Mary Jones. O desejo de conhecer a intimidade do Deus
que se revela através das páginas sagradas.
Algum
tempo atrás tomei conhecimento do resultado de uma pesquisa que
afirmava que mais da metade de um grupo de pastores entrevistados
afirmara jamais ter lido a Bíblia completa nem uma única vez na
vida. Alegavam como justificativa a falta de tempo. Ora, se os
líderes estão neste estado, como não estarão os liderados?
Uma das
razões para esta situação calamitosa que assola a cristandade
talvez seja aquilo que certamente é uma das maiores bênçãos dos
tempos modernos: a facilidade que temos de adquirir um exemplar da
Palavra de Deus. Uma Bíblia comum, bem encadernada, custa hoje em
dia bem menos que um livro de ficção ou um romance. Pouco tempo
atrás, perguntei a um grupo de jovens cristãos quantos já tinham
lido os livros de uma série de ficção bem conhecida – Crepúsculo
– cujos personagens são vampiros. Todos os jovens haviam lido
todos os livros da série, mas, nenhum deles afirmou já ter lido a
Bíblia inteira uma única vez.
Queridos,
quero afirmar sem nenhum medo de errar: aqueles que alegam não ter
tempo para a Palavra de Deus estão afirmando que não tem tempo para
o Deus da Palavra, pois é Ele que se revela a nós nas páginas
sagradas. Precisamos reaprender a suspirar pelo desejo de ouvir a
Deus, através da leitura e estudo da sua Palavra. O salmista
exclamava: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação todo o
dia” (Sl 119.97). Precisamos aprender com o salmista de Israel a ter este sentimento pela Palavra do Senhor. Precisamos reaprender a amar a Bíblia Sagrada, pois, sem ela, jamais poderemos conhecer a Deus de verdade.
É por
isso que a igreja precisa voltar-se para a Palavra de Deus.
Precisamos ler, estudar, memorizar. Precisamos ouvi-la e dar-lhe
crédito, porque na Escritura Sagrada encontramos a verdade acerca de
Deus, acerca do homem e acerca do seu destino eterno.
Muitas
razões poderiam ser citadas pelas quais devemos ter um apreço todo
especial pelo estudo da Palavra de Deus. Vou citar apenas algumas: Em
primeiro lugar, a Palavra de Deus como a conhecemos hoje em dia, é o
registro, por escrito, da Palavra divina que foi verbalizada na
história do povo escolhido de Deus. Nela, encontram-se registradas
todas as manifestações de Deus para promover a salvação do ser
humano. Nela encontramos o registro da ação de Deus através de
Jesus Cristo, a Palavra que se fez carne e habitou entre nós.
Quando o
apóstolo João inicia o seu evangelho, ele diz que: “No
princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra
era Deus. E a Palavra se tornou carne e habitou entre nós...”
(Jo 1.1,14). Ao escrever estas palavras o apóstolo João está nos
dizendo que Jesus e a sua Palavra são inseparáveis. Não significa
que a tinta com que as palavras da Bíblia são escritas sejam
sagradas, mas quer dizer que a Palavra pronunciada por Deus, tem uma
tal identificação com Ele, que carrega consigo a autoridade do
próprio Deus. Ou seja, Jesus e sua Palavra são um. Não é possível
desprezar a palavra de Deus sem desprezar o próprio Deus. Não é
possível esquecer de um a semana inteira sobre uma estante, sem
esquecer igualmente, o Outro. Por mais que neguemos tal esquecimento
com nossos lábios, não podemos enganar nossos próprios corações
(1 Jo 3.20).
Uma
segunda razão pela qual devemos nos voltar para as Escrituras
Sagradas é que elas nos revelam o caminho a seguir. O caminho
estreito e seguro por onde devemos nos conduzir. É por
isso que o salmista exclama: “Lâmpada para os meus pés é a
tua Palavra e luz para o meu caminho” (Sl 119.105). Precisamos
entender e crer que por mais belo que este mundo tenha sido criado
por Deus, ele hoje está envolto em densas trevas espirituais (1 Jo
5.19b). Está sob o poder do maligno e, por isso, muito daquilo que
brilha neste mundo nada mais é que o brilho fugaz e enganoso das ciladas com
que o diabo atrai a humanidade incrédula para o seu caminho de
perdição. Quando o salmista Davi canta os louvores de Deus dizendo
que o Senhor: “Leva-me para
junto das águas de descanso” (Sl 23.2b). Ele está nos
dizendo algo maravilhoso que havia aprendido, na prática diária, no
tempo em que trabalhara como pastor de ovelhas. Deixe-me explicar. Na
Palestina onde Davi vivia a sua experiência como pastor de ovelhas a
região é desértica. É uma região sem água. Para levar as
ovelhas para junto das águas onde elas poderiam pastar e beber, era
necessário levantar de madrugada e caminhar a frente do rebanho,
longas horas na escuridão, para não sofrer e não sacrificar as
ovelhas e seus filhotes sob sol escaldante. A tarde, após as ovelhas
comerem e beberem era hora de voltar, antes que a noite os envolvesse
completamente e o frio fizesse sofrer as ovelhas. Era uma rotina
diária em que o pastor guiava suas ovelhas em segurança através da
escuridão da madrugada, antes do sol se levantar em todo os seu
fulgor, e ao entardecer, antes que o frio da noite viesse oprimir as
ovelhas ao relento. É deste cuidado diário que o autor do salmo
119.105 nos fala, porém, deixando claro que o Senhor iluminava seu
caminho em meio às trevas deste mundo, através do ensino de sua
Palavra. É através da luz que a Palavra de Deus irradia que podemos
prosseguir com segurança em nossa própria jornada. Através da
orientação segura da Palavra de Deus, Jesus Cristo, o sol da
justiça (Ml 4.2), nos faz caminhar em terreno firme e seguro rumo a
nossa pátria celestial.
Em
terceiro lugar, a Palavra de Deus nos diz quem somos, quem Deus é, e
como devemos nos relacionar com Ele. Milhares de seres humanos tem
lotado templos religiosos e recitado promessas vãs, acreditando,
inutilmente, que sua prática religiosa lhes permitirá viver uma
vida rica e despreocupada neste mundo, e que, ao final da vida
terrena, os levará ao paraíso. Quando digo inutilmente, estou me
referindo às palavras de Jesus acerca daqueles que dizem a seu
respeito: Senhor, Senhor (Mt 7.21-23), mas não se preocupam em se
relacionar com ele, o Senhor, da forma correta. Não são os que
dizem que ele é Senhor os que entram no reino, mas os que o obedecem
reconhecendo que ele é, de fato, O Senhor. Essas pessoas a quem
Jesus se refere nesta passagem são aquelas que se aproximam dele com
intenção meramente utilitarista. Chegam-se a Deus desejando saúde,
riquezas, status ou poder político. E, para conseguir isso apegam-se
a todo tipo de crendices sem qualquer respaldo na revelação que
Deus, de uma vez por todas, entregou aos homens (Jd 1.3). E isto,
porque os pregadores do evangelho da prosperidade estão colocando,
nos lábios de Jesus, uma promessa que ele nunca fez: “Tudo isto
te darei se, prostrado, me adorares” (Mt 4.9). Esta é uma
promessa bíblica, encontra-se registrada nos evangelhos (Mt 4.9 e Lc
4.6-7), mas não foi feita por Jesus, e sim, pelo diabo. É o diabo
que se dispõe a negociar e a pagar em troca de adoração. Jesus
Cristo jamais o fez e jamais o fará. E aqueles que lotam templos
religiosos acreditando em promessas de que vão receber riquezas,
poder, vitórias e glórias neste mundo em troca de ofertas
financeiras e cantigas de uma suposta "adoração", não estão servindo a Jesus Cristo de
Nazaré, pois, este, assumiu a forma de servo e foi obediente até a
morte (Fp 2). E, Ele espera que seus discípulos sigam seu exemplo.
Para
seguir o exemplo de Jesus precisamos conhecê-lo. Para conhecê-lo,
precisamos conhecer sua Palavra, através da qual Ele se auto
revelou. Nosso destino eterno depende disso. Jesus disse em certa
ocasião: “Muitos me dirão naquele dia, em teu nome
profetizamos, e em teu nome expulsamos demônios, e em teu nome
fizemos muitos milagres. E ele lhes responderá: Nunca vos conheci”
(Mt 7.22-24). Jesus está nos dizendo que nunca conheceu estas
pessoas que em seu nome profetizaram, em seu nome expulsaram demônios
e em seu nome fizeram muitos milagres. Como é possível? Como pôde
uma coisa dessas acontecer? Simples. Estas pessoas de fato jamais
chegaram a conhecê-lo. Elas usaram seu nome, que está colocado por
Deus acima de todos os nomes, e expulsaram demônios, usaram seu nome
e fizeram milagres, usaram seu nome e profetizaram, usaram seu nome!
Usaram seu nome! E usaram seu nome! Mas jamais o serviram!
Serviram-se de Jesus! Jamais serviram a Jesus! Usaram o seu nome, mas
o deus a quem serviram de fato, era um ídolo que eles mesmos
construíram em suas imaginações, e que correspondia à imagem e
semelhança de suas ambições mundanas. Desprezaram a luz da
Palavra, que lhes revelaria o verdadeiro Deus, e agora, rejeitados
por Jesus Cristo, passarão a eternidade em trevas.
Diante
desses fatos, cabe perguntar: E nós, como temos nos relacionado com
a Palavra de Deus? Nós a temos amado? Nós a temos lido e estudado
regularmente? Temos aprendido a conhecer e a nos relacionar
corretamente com o Deus que se revelou e continua a se revelar
através dela? Quem é Jesus para nós, hoje? Aquele que é a Palavra
que se fez carne (Jo 1.14), tornou-se servo (Fp 2.7), humilhou-se até
a morte e morte de cruz (Fp 2.8), ressuscitou dentre os mortos e
oferece a salvação àqueles que se arrependem de seus pecados e o
reconhecem como Senhor de suas vidas (Rm 10.9), sem nada oferecer em
troca além de aflições neste mundo (Jo 16.33), sua presença
confortadora (Mt 28.20), seu poder para testemunhar (At 1.8) e um
reino eterno? Ou, este que, sem qualquer compromisso com a Palavra
de Deus, tem sido apresentado nos meios de comunicação de massa,
como disposto a enriquecer e curar milhões de pessoas em troca de cantigas e dinheiro?
No
momento em que você se levantar destes bancos, após o final desta celebração, você estará dando seus primeiros passos em direção ao
final da sua jornada, rumo ao seu destino eterno. Você pode escolher
continuar sua caminhada, em meio às trevas deste mundo sem nenhuma
luz, e seguir tranquilamente o seu caminho, ignorando às ciladas que
o esperam à sua frente, ou pode escolher fazer como os cidadãos de
Beréia, que todos os dias: “examinavam as Escrituras para ver se
as coisas eram, de fato, assim” (At 17.11).
Quero
desafiar você a tomar a decisão de se enamorar de novo pelas
Escrituras Sagradas. Quero desafiá-lo a deixar Deus avivar em seu
coração um amor verdadeiro pela Bíblia Sagrada, pois, quem não
ama a Palavra de Deus, também não ama o Deus da Palavra. Com isto,
quero dizer que estou desafiando você a começar a ler a Bíblia
Sagrada regularmente. Comece hoje, leia um salmo ou dois, escolha um
dos evangelhos e comece a sua jornada através desta bem-aventurança,
pois, como disse Jesus: “... o tempo está próximo” (Ap
1.3).
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