quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fundamentos necessários para que a igreja cumpra sua missão

 “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número”.
At 9.31

Quando Lucas se dispôs a escrever sobre a conversão do apóstolo Paulo, foi necessário falar acerca da perseguição movida contra a igreja, perseguição que vinha de todos os lados, e no contexto da qual Saulo era apenas mais um dos perseguidores. O capítulo 9 do livro de atos dos apóstolos narra apenas os detalhes relacionados ao apóstolo Paulo e, mostra como ele passou da condição de perseguidor para a condição de perseguido, tão logo converteu-se a Cristo.

É justamente por falar da perseguição e do intenso sofrimento do povo de Deus, que o apóstolo Lucas se apressa a esclarecer que, na verdade, apesar de toda a guerra que lhe era movida externamente, a igreja, internamente, tinha paz em toda a Judeia, Galileia e Samaria. O que aprendemos no capítulo 9 de Atos dos Apóstolos é que, embora o ambiente externo fosse de ódio e perseguição, o ambiente interno da igreja estava cheio de amor e paz. A igreja desfrutava a paz de Cristo (Jo 14.27) e impactava a sociedade ao seu redor a ponto de reconciliar em seu interior povos tão antagônicos como os judeus e os galileus, e os judeus e os samaritanos. Em suma, Lucas está nos dizendo que os obstáculos externos, apesar de formidáveis, não eram capazes de impedir o avanço da igreja no cumprimento de sua missão.

Este fato nos força a refletir acerca dos motivos pelos quais aquela igreja que acabara de nascer, em pouquíssimo tempo, tornou-se tão forte e influente. Quero destacar nesta passagem, quatro fundamentos básicos para o sucesso da igreja primitiva, no cumprimento de sua missão, e que podem trazer vitalidade a qualquer igreja local, em qualquer tempo e lugar. Fundamentos que podem trazer vitalidade a nossa vida e ao nosso testemunho pessoal aqui e agora.

O primeiro deste fundamentos é a paz de Cristo. Ao despedir-se de seus discípulos Jesus, entre outras coisas lhes disse: “deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo(Jo 14.27). Jesus ao afirmar aos discípulos que lhes deixava sua paz como herança a ser desfrutada neste mundo, se apressa a deixar claro que sua paz não era dada da forma como a paz do mundo era dada. Neste mundo a paz é de natureza externa, e é caracterizada pela ausência de conflitos ou perseguições. No tempo de Cristo o mundo vivia sob a Pax Romana. Era a paz do poderoso império Romano imposta aos povos subjugados. Não haveria conflitos, não haveria guerras e nem perseguição do poderoso império sobre as nações vencidas, desde que estas aceitassem pagar os pesadíssimos impostos que lhes eram cobrados. Esta era a paz possível entre os povos. Esta mesma modalidade de paz também é dada pelo mundo no nível dos indivíduos. Os poderosos impõem sua vontade sobre os mais fracos, que se submetem e assim se cria a condição para a manutenção da paz. É um tipo de paz exterior, caracterizada pela ausência de conflitos e pela aceitação da injustiça dos mais fortes sobre os mais fracos. Uma outra forma de paz que o mundo dá é aquela baseada na igualdade entre os indivíduos ou entre as nações. Quando as forças se equivalem, e o conflito pode gerar mais danos que lucros para ambos os lados, celebra-se a paz, baseada no temor mútuo. Todas estas formas de paz tem uma característica em comum: São temporárias. A paz se evapora assim que as condições que a sustenta mudam.

A paz de Cristo é de outro tipo. Não é de natureza externa mas interna. Não depende da ausência de conflitos, mas se mantém inalterada mesmo em meio aos maiores conflitos. Não tem sua base de sustentação em condições estabelecidas pelos poderosos deste mundo, mas se sustenta na obra realizada na cruz, por Jesus Cristo de Nazaré. Aqueles que possuem esta paz em seus corações podem manter paz uns com os outros, mesmo que estes outros sejam inimigos mortais, desejosos de lhes tirar a própria vida. É por isto que o apóstolo Paulo, ao descrever o Reino de Deus, exclui quaisquer aspectos relacionados a vida exterior como comida e bebida mas inclui a paz vinculada a ação divina como um dos seus ingredientes:Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Paulo deixa claro que não é qualquer tipo de justiça, nem qualquer tipo de paz, nem qualquer tipo de alegria, mas são as três coisas praticadas ou desfrutadas no Espírito Santo. A paz de Cristo é algo que só se desfruta quando estamos em íntima relação com o Espírito de Cristo. E uma íntima relação com o Espírito do Senhor só acontece quando nossa fé, amadurecida, consegue chegar ao ponto de orar como o próprio Senhor Jesus orou no Getsemâni: “… contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc 22.42b). A paz de Cristo se caracteriza pela serenidade diante das lutas e tribulações desta vida, entendendo e crendo que as promessas do Senhor são sempre verdadeiras e que seus motivos sempre são bons. Foi por este motivo que o Senhor, em seus momentos finais com seus discípulos, os alertou dizendo: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33). A paz de Cristo é o fundamento básico sobre o qual podem vicejar os outros fundamentos que permitem que a igreja consiga cumprir a sua missão. O apóstolo Tiago no diz que: “… é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz” (Tg 3.18). E pela mesma razão o apóstolo Pedro nos exorta dizendo: “aparte-se do mal, pratique o que é bom, busque a paz e empenhe-se por alcançá-la” (1 Pe 3.11).

Queridos, a igreja só desfruta a paz de Cristo quando seus membros, crendo que tudo coopera para o bem dos que amam a Deus (Rm 8.28), desistem de impor a paz do mundo que se caracteriza pela prevalência da vontade dos mais fortes sobre os mais fracos e aceita a vontade de Cristo que se caracteriza pela submissão mútua de uns aos outros no temor de Cristo (Ef 5.22). Empenhemo-nos por encontrar e desfrutar esta paz.

O segundo fundamento de uma igreja que cumpre sua missão é a edificação mútua. Lucas nos informa que a igreja tinha paz, edificando-se… É importante observar aqui que, por maior que fosse a importância dos apóstolos naqueles momentos iniciais da vida da igreja, o Espírito Santo não nos diz que a igreja era edificada por eles. Jesus afirmou que ele edificaria sua igreja sobre seu próprio fundamento (Mt 16.18) e ele continua a edificá-la usando cada um dos que se deixam encher pelo seu Espírito. É por esta razão que o apóstolo Paulo nos exorta para que: “… seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo; de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15-16). Queridos, estas palavras do apóstolo Paulo deixam claro que a responsabilidade pela edificação da igreja é uma responsabilidade compartilhada por todos os seus membros. Não existe qualquer base escriturística para a ideia de que os discípulos de Cristo podem ser membros da igreja sem assumir responsabilidades por seu próprio crescimento espiritual, pelo crescimento espiritual dos outros discípulos, e, pelo alcance daqueles que ainda não conhecem a Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. A ideia de que o crescimento da igreja é tarefa de seus líderes, eleitos ou contratados é completamente antibíblica e totalmente absurda. É uma ideia forjada no inferno, e habilmente disseminada por Satanás no seio da igreja. Quero ilustrar este fato da seguinte maneira: Imagine que uma nação que está sendo atacada por um poderoso exército inimigo fizesse uma assembleia para debater a melhor estratégia para se defender e atacar seus adversários, e nesta assembleia a população decidisse que para lutar as batalhas desta importante guerra bastava que seus principais líderes fossem designados para o campo de batalha, enquanto os cidadãos continuavam cada um cuidando de seus próprios interesses particulares. Não é necessária muita inteligência para perceber que esta é a estratégia de uma nação a caminho da derrota. Quando a meia dúzia de líderes deste povo se encontrassem no campo de batalha com os milhares e milhares de soldados inimigos, não seria necessário muito tempo para a derrota desta nação. Por incrível que pareça, esta é a ideia que a maioria do povo de Deus aceitou como válida. Frente as inumeráveis hostes de Satanás, a maioria esmagadora dos membros da igreja de Cristo continua a aceitar os argumentos do diabo, acreditando que basta que o pastor e alguns outros líderes eleitos, combatam as batalhas da igreja, enquanto que os crentes continuam cuidando cada um dos seus próprios interesses particulares. Esta é a razão porque mais de 80% das igrejas não conseguem ser eficientes na tarefa de dar testemunho, e alcançar os incrédulos para Cristo. É necessário que a igreja aceite a verdade bíblica segundo a qual ela é responsável pela sua própria edificação e crescimento.

O terceiro fundamento de uma igreja que cumpre a sua missão é que ela caminha no temor do Senhor. Deveríamos nos perguntar: O que é o temor do Senhor? E a resposta bíblica para isto é que o temor do Senhor é um misto de medo e reverência. Ou seja, o temor do Senhor é um medo reverente que leva em conta tanto a sua bondade quanto a sua severidade. É disto que o apóstolo Paulo trata quando diz: “Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte, também tu serás cortado” (Rm 11.22). Nesta passagem o apóstolo está tratando do problema da rejeição da nação de Israel que, por sua desobediência a Deus e seu fracasso em cumprir sua missão de ser uma testemunha para as outras nações, foi lançada fora, sendo colocada no seu lugar, para cumprir a mesma missão, a igreja de Cristo. O apóstolo aqui nos convida a considerar a bondade de Deus, que nos chama, sem nenhum merecimento, e nos credencia para realizar, sob a instrução e debaixo do poder do seu Espírito, a tarefa de edificar a sua igreja, sendo uma testemunha para o mundo. Andar no temor do Senhor implica em levar em conta a severidade de Deus que já rejeitou a Israel, justamente porque esta nação se recusou a ser fiel e obediente no cumprimento da missão para a qual fora criada. A promessa de Deus, nesta passagem, é que se a igreja for infiel, como o foi a nação de Israel, também ela será cortada. Andar no temor do Senhor é entender que Deus não tem nenhum compromisso conosco a parte daqueles que ele assumiu aos estabelecer conosco a sua aliança em Cristo. Assim como na antiga aliança, feita com a nação de Israel, havia promessas de bênçãos para os obedientes e promessas de castigo para os desobedientes, na nova aliança, feita com a igreja, igualmente existem promessas de bênçãos para os obedientes e promessas de castigo para os desobedientes (Hb 12.4-12; Ap 3.19). Todas as promessas de Deus, feitas a Israel, pertencem hoje a igreja, tanto as de bênçãos no caso da obediência aos seus mandamentos, quanto as promessas de castigo, no caso da desobediência. Andar no temor do Senhor é ter a certeza de que a desobediência será severamente castigada, e, por medo deste castigo, viver uma vida de obediência à vontade revelada de Deus.

O quarto fundamento de uma igreja que cumpre a sua missão é que ela caminha no conforto do Espírito Santo. Viver em comunidade é viver em meio a conflitos. A igreja é uma comunidade que, por sua própria definição, é uma comunidade propensa ao conflito. Isto, porque, na igreja, unem-se pessoas de todo tipo, sem distinção de cor, raça, sexo, condição social, cultural ou econômica. A igreja de Jesus é composta de pessoas que tem as mais variadas origens, culturais e religiosas, e todos trazem seus costumes particulares e suas histórias de vida. Este fato gera diferenças de todos os tipos. E estas diferenças, muitas vezes, colocam as pessoas em conflito umas com as outras. A forma como estes conflitos são resolvidos nem sempre é a melhor e mais sábia, gerando frustração e tristezas. O que fazer quando isto acontece? O que fazer quando nos sentimos injustiçados? O que fazer quando somos feridos pelas palavras duras de algum irmão imaturo ou injusto. Nestes momentos, como nos diz o apóstolo Pedro, Satanás está a espreita, rugindo em derredor, a procura de alguém a quem possa devorar (1 Pe 5.8). E como ele devora aqueles a quem ataca? Satanás consegue sua vitória sobre nós quando nos lança uns contra os outros. Ele está te devorando quando te convence a procurar vingança contra seus irmãos em vez de amá-los e de servi-los por amor a Cristo. Ele está te devorando quando te convence a abrir sua boca para difamar aqueles por quem Jesus Cristo morreu, e a quem ele colocou ao seu lado, para lutar junto com você pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos. Satanás está te devorando, toda vez que te convence que você pode ignorar a vontade de Deus e fazer a sua, a fim de evitar o sofrimento e a humilhação, que podem te alcançar, por fazer neste mundo, a vontade de Deus. É nestes momentos que precisamos lembrar que o consolo divino está disponível para quem o busca, na intimidade com o Espírito Santo.

Hoje em dia está na moda, em certos grupos eclesiásticos, o cântico de músicas dizendo que o anjo está trazendo sua vitória. Quero dizer que não existe exemplo nas Escrituras, de um único anjo de Deus, enviado a alguém com o propósito único de trazer vitória em algum empreendimento particular. Mas há exemplos de anjos agindo para garantir o cumprimento da vontade de Deus pelos seus discípulos, como quando Pedro foi liberto da prisão (At 12.6-8), e também para consolar o próprio Senhor Jesus, quando este, no Getsemâni, orava pedindo, se possível, livramento ao Pai (Lc 22.39-43). É importante frisar que Deus não deu o livramento pedido por Jesus, mas o conforto, enviado pelo Espírito Santo, o capacitou a cumprir a sua missão, e, somente por isso, estamos aqui. Que Deus nos abençoe ricamente e nos capacite a desfrutar da paz de Cristo, a nos edificar mutuamente, a andar no temor do Senhor e, no conforto do Espírito Santo. Amém.

Amai os vossos inimigos.

 “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo, Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”.
Mt 5.43-48

Jesus, pela sexta vez consecutiva, dirige-se aos seus ouvintes dizendo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos”; e, como das vezes anteriores, ele corrige o ensino errados dos escribas e fariseus. Ocorre que estes interpretavam a ordem dada a nação de Israel em Lv 19.18, de maneira extremamente estreita, ensinando que o próximo era apenas o vizinho ou parente judeu, e considerando todos os estrangeiros como inimigos, que poderiam e deveriam ser odiados. O ensino dos escribas e fariseus neste ponto era tão radical que chegava mesmo a considerar como um dever religioso o ódio aos estrangeiros e aos inimigos. Ocorre, porém, que de acordo com o Senhor, o próximo seria qualquer pessoa que estivesse necessitada e ao alcance do nosso socorro (Lc 10.29-37), e que isto deveria se estender inclusive aos nossos inimigos. Ao ensinar os seus discípulos acerca do amor aos inimigos, Jesus deixa claro alguns princípios importantes que não podem deixar de ser observados pela igreja. O primeiro destes princípios é que aqueles que amam aos que os amam não estão fazendo qualquer coisa de mais. Não existe qualquer mérito em amar aquelas pessoas que nos amam. Amar apenas aqueles que nos amam faz com que nos contentemos em estar nivelados àqueles que são desonestos ou corruptos. É isto que Jesus afirma ao comparar os que amam apenas os que os amam aos publicanos. Todos conheciam a fama de desonestos e corruptos dos coletores de impostos. A maioria deles cobravam muito mais do que deviam, e por isso eram odiados por toda a nação. Por este motivo ele pergunta: “Se amardes os que os amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?” A resposta lógica à pergunta de Jesus é que assim como um publicano desonesto não merece nenhuma recompensa por amar aqueles que o amam, também nós não merecemos nenhuma recompensa especial por amar aqueles que nos amam. E, por que, perguntaríamos, não merecemos recompensa por amar os que nos amam? Pelo simples fato que amar aos que nos amam não envolve conversão, nem fé, nem obediência a Deus. A maior prova deste argumento é que os desonestos publicanos tem a capacidade de amar aqueles que os amam. Eles amam seus familiares e seus amigos publicanos. Igualmente todos os homicidas tem a capacidade de amar aqueles que os amam. Os ladrões, os políticos corruptos e os estupradores também tem a capacidade de amar aqueles que os amam. Se nos dispusermos a amar, apenas aqueles que nos amam, nos colocamos em igualdade de condições com estas pessoas, que não receberão nenhuma recompensa por amar os que os amam, porque este tipo de amor é de natureza carnal, terrena e animal, e pertence aquela espécie de atributo com que todos foram dotados pela criação natural, apesar de sua natureza humana estar degenerada pelo pecado. Tal amor não envolve fé. Não envolve obediência a Deus. Para amar apenas aqueles que nos amam, não precisamos do poder do Espírito Santo, não precisamos nascer de novo, não precisamos ser novas criaturas, não precisamos ser crentes.

Jesus avança em seu argumento ensinando que o amor se manifesta em atos. Ele pergunta: “E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?” Aqui o Senhor deixa claro que os atos de amor dos seus discípulos precisam ser estendidos também aos que não fazem parte do povo de Deus. A saudação é um dos mais básicos e simples atos de amor que alguém pode realizar. Deixar de saudar alguém é algo tão grosseiro que mesmo os mais ferrenhos adversários costumam saudar-se quando se encontram em público, a vista de outras pessoas. Devemos entender aqui, que o ato de saudar alguém é apenas uma ilustração simples, que o Senhor utiliza de modo genérico. O que devemos aprender com esta passagem é que nossos atos de amor não podem ficar restritos aos que são nossos irmãos, mas devem ser igualmente realizados em benefício de todos os necessitados, independente de quem sejam. É por isso que Jesus compara aqueles que saúdam apenas a seus irmãos aos gentios. Os gentios, aqueles que não faziam parte do povo de Deus, também se saudavam mutuamente. E, novamente, a mesma lógica se impõe: fazer o bem apenas aos que são nossos irmãos ou amigos é um instinto natural, não depende de fé, de conversão e muito menos é um ato de obediência a Deus. A prova disto é que, os gentios que não conhecem a Deus, o fazem regularmente, desde o princípio do mundo.

Os escribas e fariseus, com seu ensino equivocado acerca de quem era o próximo dos judeus, haviam tornado praticamente impossível à nação de Israel, a obediência daquele que Jesus afirmou ser o segundo maior de todos os mandamentos (cf. Mc 12.31,33 e Lv 19.18b). O povo judeu, enquanto nação teocrática, simplesmente falhou na sua missão de revelar a glória de Deus às outras nações. Quando estrangeiros peregrinavam em Israel, ou entravam em contato com o povo de Israel, em vez de serem impactados pela manifestação do amor de Deus, tudo o que viam e percebiam neste povo, era o ódio a tudo e a todos que não fossem de origem judaica. O povo de Israel não percebia, ou não aceitava, que a bênção de Abraão, da qual tanto se gloriavam, era uma bênção que incluía todas as nações da terra (Gn 12.1-3).

Neste instante é necessário que façamos uma pausa em nossa análise das palavras de Jesus para fazermos uma reflexão acerca da atuação da igreja. O povo de Israel falhou por não aceitar o mandamento de amar aqueles que eles definiam como seus inimigos: Os estrangeiros. Aqueles que não pertenciam a etnia judaica. E a igreja, tem amado aqueles que não fazem parte do seu rol de membros? Ou tem reservado seu “amor” apenas àqueles que são membros? Ou pior, do que isso, a igreja tem amado àqueles que não a amam? Ou somente tem amado àqueles que a amam? Muitas vezes tenho ouvido justificativas para a falta de ação da igreja em favor dos que não fazem parte do seu rol de membros, como se eles não tivessem nada a receber da igreja. Ou, então, como se as pessoas para serem amadas e cuidadas pela igreja, tivessem primeiro que se tornar membros da comunidade eclesiástica, para depois serem amadas. Quantas vezes já ouvi a famosa desculpa: Fulano quer a bênção, mas não quer o dono da bênção, e, é por isso que não podemos fazer nada por ele. Israel perdeu sua oportunidade como nação teocrática por não assumir sua responsabilidade de ser canal das bênçãos de Deus às nações ao seu redor, e, hoje, com tristeza, vemos que muitas igrejas locais vivem apenas para si mesmas, e por isso estão perdendo a oportunidade de manifestar o amor e o poder de Deus, àqueles que estão ao seu redor. Muitas destas comunidades locais estão definhando e muitas já morreram. Inúmeros templos estão a venda, em várias partes do mundo, pelo fato que as comunidades que ali se reuniam morreram, e ninguém mais frequenta aqueles templos, então as denominações a que pertencem os colocam a venda, e muitos destes templos tem se transformado em boates, lojas de departamentos e até mesquitas muçulmanas. Como teria sido diferente a história destas comunidades, se seus membros tivessem entendido que amar aqueles que estavam do lado de fora era a essência de sua missão. E, quanto a nós, temos compreendido que precisamos amar os nossos inimigos? Já chegamos a compreender a diferença entre um irmão e um inimigo? Esta pergunta é importante porque percebemos facilmente, no dia a dia, que existem pessoas que não conseguem amar nem mesmo aos seus irmãos na fé. E, pior do que isso, existem pessoas que parecem não amar nem mesmo aqueles que são seus amigos devotados. E como vemos isso? Todas as vezes que um alguém é desleal para com o próximo está manifestando a falta do amor que é exigido por Jesus.

Neste ponto precisamos perguntar: Como podemos amar os nossos inimigos? A ordem de Jesus é clara: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Precisamos reconhecer que a natureza humana destituída da graça de Deus é totalmente incapaz de obedecer a esta ordem divina. Graças a Deus, porém, que em Cristo, temos toda a graça necessária para obedecermos. O próprio Jesus nos garantiu isto (At 1.8). Isto é um privilégio que gera uma grande responsabilidade. Não temos quaisquer desculpas com que possamos nos escusar de obedecer a esta ordem. E se desobedecermos a esta ordem, isto significa que, desobedeceremos ao segundo maior de todos os mandamentos, e se desobedecermos ao segundo, isto implica no fato de desobedecermos também ao primeiro de todos os mandamentos pois, como diz o apóstolo João: “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4.20), e o apóstolo Paulo chega mais longe ao dizer que: “… toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14). Pode parecer surpreendente que o apóstolo Paulo resuma toda a lei com a citação de Lv 19.18b, que Jesus afirmou ser o segundo maior de todos os mandamentos da lei, e não com a citação do primeiro e maior de todos os mandamentos, que é amar a Deus acima de todas as coisas (Mc 12.30). Mas o que parece uma contradição, quando analisado mais atentamente, logo se torna compreensível, a luz do ensino do apóstolo João, no verso citado acima. O amor ao próximo é a única evidência verdadeira do amor a Deus. Só aqueles que verdadeiramente amam ao próximo, realmente, amam a Deus. Aqueles que afirmam amar a Deus, mas não demonstram amor ao próximo estão mentindo, enganando a si mesmos. Então, precisamos avaliar os nossos corações com sinceridade. Estamos amando os nossos inimigos? Se não estamos, por que não? Normalmente a resposta a esta última pergunta é uma só. O egoísmo, cultivado como uma virtude, dentro de nós. Para amarmos os nossos inimigos temos que vencer a tentação de nos justificar a partir das nossas emoções. Nos sentimos atacados, intimidados ou ofendidos, e, a partir disso, julgamos que podemos nos justificar por não amar os nossos inimigos. A verdade, porém, é que não podemos. Deus não aceita nenhuma de nossas desculpas. Sua ordem é clara: “Amai os vossos inimigos”.

Para conseguirmos amar aos nossos inimigos precisamos compreender que nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra forças espirituais poderosas (Ef 6.12), das quais nossos inimigos são apenas vítimas. Precisamos vê-los como pessoas que, ainda que inconscientes do fato, estão sob a influência dos espíritos malignos, e que suas eventuais ações contra nós são instigadas por eles (1 Jo 5.19). Estas pessoas não tem esperança de salvação. Estão afastadas de Deus e dependem de nós para que venham a ser libertas, possam conhecer a Cristo e receber a salvação através da fé em Jesus (Rm 6.23). Só quando deixamos de nos ver como intocáveis, quando aceitarmos que não somos o centro do universo, e que não merecemos nenhum tratamento especial, poderemos ver tais pessoas pelo prisma através do qual o Senhor Jesus as vê: Seres humanos necessitados da graça de Deus.

Neste ponto é importante observar que amar não significa gostar. É perfeitamente lícito não gostar daqueles que não gostam de nós. E logicamente não precisamos gostar dos nossos inimigos. Em que, portanto, consiste o amor aos nossos inimigos? O apóstolo Paulo nos ajuda a compreender isto quando orienta a igreja romana acerca da necessidade de amar, ele diz: “… se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.20-21). Esta orientação nos esclarece acerca do significado do amor aos inimigos. Amar aos inimigos não é diferente de amar aos amigos. Amar significa fazer o bem. Se temos um irmão com fome naturalmente somos inclinados a socorrê-lo dando-lhe de comer. Se vemos um filho com sede, por amor, naturalmente somos inclinados a dar-lhe de beber. Amar aos inimigos é fazer exatamente a mesma coisa, mesmo que no caso destes, não esteja presente o ato de gostar.

A segunda ordem de Jesus tem a ver com a necessidade espiritual dos nossos inimigos. Ele ordena: “orai pelos que vos perseguem”. A oração é a única arma espiritual que podemos utilizar na batalha contra as forças espirituais que dominam aqueles que nos atacam. É inútil lutar no plano físico se no plano espiritual estivermos indolentes. As batalhas terrenas são vencidas ou perdidas no plano espiritual. Se orarmos pelos que nos perseguem, se pedirmos com insistência ao Senhor da igreja que os liberte das garras dos nossos verdadeiros inimigos espirituais, estaremos nos tornando verdadeiros filhos de Deus.

Aqui parece haver uma contradição no ensino de Jesus. Ele nos diz: “para que vos torneis filhos de vosso Pai celeste”. Poderíamos perguntar: Já não nos tornamos filhos de Deus quando cremos? O apóstolo João não ensinou que: “… a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12). Queridos, quero dizer que a contradição é apenas aparente. É verdade que, quando cremos, nos tornamos filhos de Deus. Isto do ponto de vista legal. Ao crermos em Jesus, e reconhecê-lo como Senhor de nossas vidas, fomos legalmente justificados diante de Deus (Rm 5.1; Rm 8.1). A partir deste momento somos legalmente seus filhos. Mas após a conversão, em um primeiro momento, continuamos a ser pecadores totalmente a merce do poder do pecado que habita em nós. A justificação é a primeira fase da obra do Espírito Santo em nós. Ele nos convenceu do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), e quando nos arrependemos, e depositamos fé em Jesus como Senhor de nossas vidas, fomos salvos. Fomos libertos da culpa do pecado. Neste momento nos tornamos, legalmente, filhos de Deus. A obra do Espírito Santo em nós, porém, não termina com a justificação. Imediatamente, após a nossa justificação, Ele inicia a obra da santificação, que é a obra através da qual o Senhor Jesus vai, pouco a pouco, nos libertando do poder do pecado. Santificar-se nada mais é do que obedecer a vontade de Deus, ou seja, obedecer aos seus mandamentos. É por esta razão que Jesus não nega que já somos filhos de Deus, pelo contrário, ele diz que o objetivo é nos tornar filhos de nosso Pai celeste. Observe que o Pai celeste já é nosso. Apesar disto devemos obedecer a ordem de amar aos nossos inimigos o orar pelos que nos perseguem para que nos tornemos filhos de nosso Pai celeste. Como assim? Simples. Já somos filhos de Deus do ponto de vista judicial. Agora devemos nos tornar filhos de Deus do ponto de vista moral. A palavra grega (ginomai), aqui traduzida como “vos torneis” significa, vir a existência, começar a ser, receber a vida, erguer-se, aparecer na história, aparecer no cenário. Ou seja, aquilo que é real do ponto de vista legal, agora deve começar a ser real do ponto de vista moral, precisa vir a existência, precisa aparecer na história, precisa se tornar visível no cenário da existência humana. Os filhos devem refletir o caráter do Pai. É por isso que o Senhor Jesus nos dá o exemplo da ação do Pai como padrão a ser seguido: “… Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”. Deus, o Pai, apesar de não ser amado por muitas pessoas, e até mesmo, apesar de ser odiado por tantos outros, abençoa tanto os que o amam como aqueles que não o amam. Ele quer e espera que seu exemplo seja seguido por nós. É a este, tornar-se filhos de nosso Pai celeste, que o apóstolo Paulo se refere quando diz aos irmãos de Filipos: “... desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor” (Fp 2.12c). Se a primeira parte da obra que o Espírito Santo realiza em nós foi efetivamente realizada, certamente ele realizará a segunda parte também (Fp 1.6). Isto significa que todos os verdadeiros crentes estão ou serão capacitados a amar os seus inimigos e orar pelos que os perseguem. Se falharmos nestes deveres e não nos sentirmos em falta diante de Deus, isto é sinal de que alguma coisa está errada com nossa profissão de fé.

Jesus termina esta passagem dizendo: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”. Aqui precisamos perguntar: Que perfeição é esta que Jesus exige de nós? Certamente não é a perfeição moral, nem espiritual, pois, neste caso nenhum de nós jamais conseguiria obedecê-lo. O apóstolo Paulo mesmo lutava contra suas imperfeições e nos deixou seu testemunho a respeito (Rm 7.15-20). A palavra teleios, aqui traduzida como perfeitos tem o sentido de algo que é levado ao seu fim, finalizado, que não carece de nada necessário para estar completo. Ou seja, durante esta vida, perfeito, diante de Deus é aquele que cumpre o propósito para o qual foi criado. Ou seja, nos tornamos perfeitos quando nós imitamos a Deus (Ef 5.1-2), e vivemos segundo os propósitos para os quais fomos salvos. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.


Quero finalizar esta mensagem lembrando que, se, por um lado o apóstolo Paulo diz que todo o conteúdo da lei se cumpre no ato de amar ao próximo como a si mesmo (Gl 5.14), o Senhor Jesus nos informa que seremos julgados, não pelo cumprimento do primeiro e maior dos mandamentos, mas, pelo cumprimento ou não, do segundo (Mt 25.31-46). O amor ao próximo se manifesta em ações que demonstram o cuidado de Deus pelo ser humano em suas necessidades diárias, e Jesus nos ensina que próximo é qualquer pessoa que esteja necessitada ao nosso redor, mesmo que este seja um inimigo (Lc 10.29-37). Por isso não há qualquer desculpa para deixarmos de amar quem quer que seja. Amor é um substantivo, porém, amar é verbo, ação. Os critérios que Jesus estabelece para julgar a fé dos que se dizem cristãos, com vistas a admissão no reino eterno, são tão simples que ninguém poderá alegar falta de condições para cumpri-los. Um prato de comida para alguém faminto; um copo de água para um sedento; uma muda de roupa para alguém que esteja nu; uma visita para um enfermo ou preso; uma atitude de hospitalidade para com um estrangeiro. Aqui precisamos dar uma palavra de esclarecimento. Jesus não está dizendo que se alguém realizar cada uma destas ações algumas vezes ao longo da vida estará salvo. Ele está dizendo que o estilo de vida dos que serão salvos, se caracterizou pelo socorro aos necessitados deste mundo, bem como que, o estilo de vida dos não salvos, se caracterizou pela indiferença a dor e aos sofrimentos dos mesmos necessitados. Ou seja, que o estilo de vida dos salvos se caracterizou pela obediência visível ao segundo grande mandamento, sendo evidência de uma fé genuína. Quero finalizar com algumas perguntas: Quando o dia do grande julgamento chegar, de que lado você acha que estará? Do lado direito ou do lado esquerdo? Com base em que você tem esta opinião? Você já reparou que, na lista de Jesus, não há nada daquilo que fazemos quando estamos reunidos para celebrar a Deus? Não há nesta lista nada que nós fazemos normalmente dentro do templo? Você percebeu que Jesus não diz que alguém poderá ser salvo por cantar louvores? Ou por frequentar os cultos? Ou por ter feito profissão de fé? Ou por pregar mensagens? Caso alguma destas perguntas o tenha deixado preocupado, o que você pode fazer a partir de hoje, para ter a certeza de que estará do lado direito de Jesus? Queridos, a pior de todas as atitudes que poderíamos ter, é ignorar a voz do Senhor. Temos o dever de amar os nossos inimigos porque eles são tão próximos quanto quaisquer outras pessoas de nossas relações pessoais. Se tivermos dificuldades para obedecer a estas ordens, nos humilhemos diante de Deus, confessemos nossas fraquezas e busquemos no Senhor a força necessária para obedecermos. Que Deus nos abençoe, e nos capacite a viver de tal forma que nossas vidas o glorifiquem de fato. Amém.

Que faremos para realizar aos obras de Deus?

 “Que faremos para realizar as obras de Deus? Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado.”Jo 6.28b-29

Depois de terem comido os pães e peixes que Jesus tinha multiplicado, a multidão ficara maravilhada. Nunca alguém havia alimentado uma multidão com mais de cinco mil homens, fora as mulheres e crianças, com apenas cinco pães e dois peixinhos (Jo 6.1-15). Realmente, fora um milagre extraordinário, sem precedentes na história do profetismo em Israel. O deslumbramento da multidão teve dois efeitos imediatos: Muitas pessoas chegaram a conclusão que Jesus era o profeta que devia vir ao mundo (Jo 6.14); conclusão correta em parte, uma vez que Jesus realmente cumpria a profecia de Moisés (Dt 18.15), porém, equivocada no sentido de percebê-lo apenas como mais um profeta. Eles o viam como uma pessoa que seria capaz de cumprir todas as suas expectativas messiânicas. Esta percepção levou a multidão ao segundo equívoco: Eles resolveram arrebatá-lo com o intuito de proclamá-lo rei. Naquele momento de euforia a multidão não conseguia entender que a realeza de Jesus, associada à sua encarnação, era espiritual e não política. Embora Jesus tenha aceitado o título de rei (Jo 1.49), ele já havia rejeitado a oferta de satanás (Mt 4.8-9 e Lc 4.5-6), e agora, conhecedor das intenções do povo, o Senhor retirou-se sozinho para o monte (Jo 6.15).

Durante a noite, o Senhor Jesus e seus discípulos atravessaram o lago, e chegaram a Cafarnaum onde a multidão o procura e o encontra no dia seguinte. Ao encontrar-se com Jesus, os líderes da multidão perguntam-lhe como ele chegara ali. Jesus ignora a pergunta e responde com uma afirmação que desmascarava seus propósitos meramente utilitaristas. Ele lhes diz: “Vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o filho do homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (Jo 6.26-27). Esta afirmativa de Jesus expõe o coração e as intenções da multidão. Primeiro, Jesus afirma que eles não haviam visto no sinal realizado a sua identificação com o Messias prometido, o que nos revela que a percepção que tiveram dele como o profeta que devia vir ao mundo, era uma percepção equivocada, eles esperavam um messias diferente do tipo de Messias que Ele estava disposto a ser, e em segundo lugar, suas expectativas eram carnais; eles procuravam apenas a oportunidade de ganhar uma nova refeição gratuita.

Neste ponto, é interessante pararmos para fazermos uma breve reflexão. Que tipo de alimento as multidões modernas, que lotam templos onde Jesus é anunciado, todos os dias, estão procurando? A comida que perece, ou aquela que subsiste para a vida eterna? E, quanto a nós, o que viemos buscar hoje, neste templo? O que pretendemos levar daqui, ao final desta celebração? Uma bênção material ou uma bênção espiritual? Já entendemos que Jesus Cristo de Nazaré é a maior riqueza que podemos ter? Que ele é a pérola de grande valor (Mt 13.46)? O tesouro escondido no campo (Mt 13.44)? Ou ainda estamos como muitos, pensando que ele é um Deus ansioso para nos fazer felizes, e possuidor de riquezas das quais podemos nos apossar através da fé?

Voltemos nossos pensamentos uma vez mais a cena de Cafarnaum. Confrontados por Jesus, aqueles homens lhe perguntam: “Que faremos para realizar as obras de Deus” (Jo 6.28)? Ao que Jesus lhes responde: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado” (Jo 6.29). Esta resposta, analisada a partir do conhecimento do Novo Testamento não deve nos surpreender, mas certamente surpreendeu os interlocutores de Jesus. Com suas palavras ele deixa claro aos seus questionadores que, em se tratando da realização da obra de Deus, o foco não está nos homens mas em Deus.

Quando examinamos as palavras e as atitudes de Jesus, no diálogo que se segue (vv. 30-65), duas verdades saltam aos olhos. A primeira destas verdades é que a obra de Deus é realizada pelo próprio Deus, e a segunda é que a obra de Deus é realizada principalmente em nós, e não apenas, através de nós. Por mais incapaz que a multidão fosse para perceber que estava diante do próprio Deus encarnado, e que Ele estava ali realizando sua obra, isto não mudava os fatos. A obra de Deus era levá-los a crer, sustentá-los na fé, alimentá-los em sua jornada espiritual e prover meios para que alcançassem a vida eterna e, por fim, ressuscitá-los no último dia. Esta é a descrição da obra de Deus, e basta uma análise superficial da mesma, para perceber que destituídos da graça de Deus, jamais poderíamos realizar sequer, a parte que nos cabe. Só Deus pode realizar a obra de Deus! E isto porque esta é uma obra espiritual desde o seu início. O apóstolo Pedro nos informa que o sangue de Jesus, através do qual nossos pecados são perdoados, já era conhecido antes da fundação do mundo (1 Pe 1.18-20), e o apóstolo João nos diz que Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29) foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). E Jesus, afirma que nos ressuscitará no último dia (Jo 6.39-40,44,54). Estas palavras nos mostram que os limites da obra de Deus estão aquém e além de nós. A obra redentora de Deus se inicia antes da criação do ser humano e terminará após o fim da história humana. É uma obra que, diferentemente da ênfase individualista que se vê nos dias de hoje, tem um caráter comunitário. Os escritores do Novo Testamento utilizam várias metáforas para se referir àquilo que Deus está realizando na história humana e a que Jesus se referiu como a obra de edificação de sua igreja, e muitas destas metáforas ressaltam seu caráter comunitário. Nas palavras de Jesus, a igreja constitui os ramos da videira verdadeira, para Paulo ela é um corpo constituído de muitos membros (1 Co 12) e nesta condição, segundo João, ela é a Noiva e a Esposa do Cordeiro (Ap 21.9). Todas estas são lindas metáforas. Uma das mais belas, porém, encontra-se no texto de Paulo aos Efésios 2.18-22, nesta passagem a igreja é descrita como a família de Deus, é também um edifício que está sendo edificado para ser santuário dedicado ao Senhor, no qual todos nós estamos sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. Note-se que esta é uma obra de caráter comunitário. Toda a Trindade está envolvida na realização da obra de Deus.

A segunda verdade revelada por Jesus aos seus ouvintes é que, diferentemente daquilo que eles pensavam, a obra de Deus é realizada em nós e não somente através de nós. É um equívoco pensar que as coisas que fazemos na igreja, ou através da igreja, ou ainda, em nome da igreja, seja “a obra de Deus”. A obra de Deus é realizada por Deus, e se realiza primeiramente em nós. Havia uma parte da obra de Deus que precisava ser realizada fora de nós. No caminho do Redentor havia a cruz. A cruz não foi um acidente de percurso, não aconteceu por alguma falha no projeto original de Deus, como alguns já postularam, ao contrário, de acordo com o ensino do apóstolo Pedro, a nossa redenção através do derramamento do sangue precioso de Jesus já era conhecida antes da fundação do mundo (1 Pe 1.18-20) e, conforme já foi dito acima, de acordo com o apóstolo João, Jesus, o Cordeiro precioso, que tira o pecado do mundo, foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). A obra divina de redenção, através do sacrifício vicário do Messias, foi realizada por Jesus, na cruz, portanto, fora de nós. Desde então a obra de Deus é realizada, principalmente, dentro de nós, através da aplicação que o Espírito Santo realiza em nossos corações, dos benefícios espirituais conquistados por Jesus, na cruz. Ele primeiro nos convence do pecado, do juizo e da justiça (Jo 16.18), depois nos capacita ao arrependimento e nos concede a fé, como um dom (Ef 2.8-9), que nos permite responder positivamente ao seu chamado e crer em Jesus como Senhor de nossas vidas. Quanto isto acontece, ele se torna o nosso Salvador. Está é uma obra do Espírito, que envolve as três áreas da psique humana. Somos racionalmente convencidos do fato de sermos pecadores. A partir disto entendemos que temos culpa diante de Deus e que está culpa nos faz dignos de condenação eterna. Em seguida o Espírito age em nossas emoções. Ao entendermos a gravidade do pecado, e nossa completa incapacidade para vencê-lo, nos entristecemos e desejamos ardentemente o perdão de Deus. Finalmente, o Espírito age no âmbito das nossas volições ou seja, em nossa vontade, e arrependidos, tomamos a decisão de viver uma vida que agrade a Deus. Quando nos arrependemos e cremos, somos salvos, somos justificados diante de Deus pela fé no seu filho. Ao sermos salvos, somos libertos da culpa do pecado, somos justificados. É a isto que Paulo se refere quando diz que: “Justificados, pois, pela fé em Cristo Jesus, temos paz com Deus” (Rm 5.1), e, “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Como já disse, esta é uma obra de transformação do estado de nossa condição espiritual. Nossa condição espiritual muda de pecadores condenados para a condição de pecadores perdoados. Quero enfatizar que continuamos sendo pecadores. O que mudou ao final desta fase da obra de Deus em nós foi a nossa condição, não o nosso caráter. Antes eramos pecadores perdidos, agora somos pecadores salvos. Nesta fase fomos libertos da culpa do pecado. Isto é o que significa o ensino de Paulo quando diz que: “Ele (Jesus) se fez maldição por nós para que fossemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5.1 e Gl 3.13). Esta fase da obra de Deus em nós é chamada de justificação. É um ato único de Deus, realizado uma única vez, de uma vez por todas, através do qual, Deus atribui a cada pecador arrependido, a justiça de Cristo (Rm 4.11).

Imediatamente após a justificação, o Espírito Santo inicia a segunda parte da sua obra em nós. Esta é uma obra de transformação moral. É a obra da santificação. No que diz respeito ao pecado, a diferença essencial entre a obra de justificação e a obra da santificação realizadas pelo Espírito em nós, é que na primeira o pecador remido é liberto da culpa do pecado, e na segunda, ele vai sendo, pouco a pouco, liberto do poder do pecado. Esta segunda fase da obra de Deus em nós só terminará quando o Senhor nos chamar à sua presença. Enquanto estivermos neste mundo ela continua sendo realizada. É a esta etapa da obra de Deus que o apóstolo Paulo se refere quando diz aos Filipenses: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). Neste ponto é importante entendermos que nesta etapa da obra de Deus em nós tanto se podem ver os sinais de confirmação da fé genuína, quanto os sinais da falsa fé daqueles que estão na igreja, mas, de fato, não pertencem a ela. E o processo é simples. Jesus nos indicou uma forma segura de avaliação: o exame da qualidade das obras, ou, para utilizar a mesma metáfora do Mestre, dos frutos. De acordo com Jesus uma árvore boa (crente verdadeiro) produz bons frutos, enquanto que uma árvore má (falso crente) produzirá frutos ruins (Mt 7.17-18; Mt 12.33; Lc 6.43). Isto significa que, a longo prazo, todo aquele que verdadeiramente nasceu de novo (Jo 3.3,5-8,16), terá seu caráter transformado para melhor, e esta transformação se manifestará através de suas atitudes e suas ações. Haverá mudanças positivas em seus valores, em sua maneira de falar, de pensar e de agir em relação aqueles com quem convive diariamente. Ou seja, o fato de alguém se tornar nova criatura (2 Co 5.17), não tem como ser ocultado dos que estão a sua volta, as mudanças serão notadas, ainda que as pessoas não conheçam o motivo das mesmas. Não há nenhuma possibilidade de um verdadeiro convertido continuar prazerosamente na prática de um estilo de vida pecaminoso (1 Jo 3.6). E, isto, porque, embora continuemos sendo pecadores, o verdadeiro convertido não tem mais prazer no pecado, antes o lamenta e por isso luta contra as tentações e recebe poder para vencê-las (Rm 7.24;1 Co 10.13). Como já mencionado anteriormente, nesta fase da obra de Deus em nós, somos libertos do poder do pecado, e cada vez mais recebemos capacidade para viver uma vida que honre a vocação que recebemos de Deus em Cristo Jesus. É por esta razão que o escritor da epístola aos Hebreus solenemente exorta: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Neste momento é importante esclarecer uma dúvida comum a muitas pessoas sinceras, que, ao lerem este versículo, chegam a pensar que o Senhor está ameaçando os seus filhos, dizendo que se eles não se santificarem, perderão a salvação. Não é este o caso. Os salvos não perdem a salvação (Jo 6.37). O que está sendo ensinado nesta passagem é que a busca da paz e da santificação é uma atitude natural para os verdadeiros filhos de Deus. Se alguém não sente anseios pela paz e pela santificação, isto é sinal de que não houve uma verdadeira conversão. Neste caso, tal pessoa deve avaliar seriamente porque esta frequentando a igreja, e com base em que está pensando que é salva. Vou esclarecer este ponto. De acordo com a revelação de Deus, a obra de Deus é inteiramente realizada por Deus, ela começa com a eleição e termina com a glorificação dos eleitos, somos predestinados para sermos conformes à imagem de Jesus (portanto, santos), justificados e glorificados (Rm 8.28,29), ou seja, todo o processo de redenção é realização da trindade santa, e é infalível. Dito de outra forma, naqueles em quem faltar a característica da santificação como obra de Deus, isto significa que também falta a característica da justificação. Vou esclarecer um pouco mais este ponto. Dentro da economia da salvação, o Espírito Santo é aquela pessoa que aplica em nós os benefícios da obra redentora que Jesus Cristo realizou na cruz, e sua ação é de caráter irresistível na vida dos eleitos de Deus. Jamais falha, portanto, se na vida de alguém que já está há vários anos dentro de uma comunidade eclesiástica qualquer, falta a realização da segunda parte da obra de Deus em nós, isto significa que Ele não a realizou, e, se Ele não realizou a segunda parte de sua obra, isto é um sinal inequívoco de que também não realizou a primeira. Resumindo: Se após vários anos de experiência cristã a pessoa não é santificada pela ação do Espírito, isto quer dizer que também não foi justificada pela ação do mesmo Espírito. Resumindo mais ainda: Se não é santo, também não é salvo.

A terceira fase da obra de Deus em nós não se realizará nesta fase de nossa existência. Esta terceira fase se realizará na eternidade, após a ressurreição, e se chama glorificação. Nesta fase receberemos um novo corpo, um novo nome, e seremos salvos da presença do pecado. Não trataremos deste assunto neste momento porque isto fugiria aos propósitos desta reflexão. Neste momento queremos considerar nossas responsabilidades diante dos imensos privilégios que já nos foram concedidos pela realização da obra de Deus em nós.

Neste momento precisamos considerar o seguinte fato. Deus realiza a sua obra em nós e uma vez que ele nos alcançou com sua graça, ele quer realizá-la também através de nós. Se, por um lado, o apóstolo Paulo deixa claro que ninguém será salvo através da prática de boas obras (Gl 2.16; 3.10; Rm 3.20) por outro, o apóstolo Tiago nos ensina que a fé sem obras é morta (Tg 2.26), e que o único meio que ele conhecia através do qual poderia mostrar a sua fé aos outros era através das suas obras (Tg 2.18).

Ora, cabe então perguntar, se Deus realiza a sua obra em nós, e se ele quer realizá-la também através de nós, qual o papel que nos cabe no plano redentor de Deus? Como devemos participar legitimamente da realização desta obra? O apóstolo Paulo nos diz que: “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Ou seja, mesmo as boas obras que porventura venhamos a praticar, foram preparadas antecipadamente, por Deus, para que nós andássemos nelas, portanto, a origem das mesmas é divina. O apóstolo Paulo, falando a respeito de seu ministério chega a dizer: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1 Co 15.10). Com estas palavras, o apóstolo está querendo dizer que reconhecia que, apesar de todo o seu esforço, os frutos obtidos eram obra da graça de Deus agindo em sua vida. Suas boas obras ainda que realizadas por meio de sua instrumentalidade eram, no fim, obra da graça de Deus em sua vida. Ou seja, seu papel era o de um colaborador daquele que de fato realiza a sua obra (2 Co 6.1). É importante, porém, definirmos o que, em si, é uma boa obra. Nem tudo o que os cristãos fazem pode ser indiscriminadamente classificado como uma boa obra. Como podemos definir uma boa obra? Podemos compreender a diferença entre uma obra comum ou ruim e uma boa obra a partir da ordem dada por Jesus a seus discípulos, no Sermão do Monte. Jesus lhes disse:' Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.16). Este versículo nos permite entender que o que define uma determinada obra como boa. Em primeiro lugar uma boa obra é algo que é realizado em obediência a vontade de Deus, e também e como resultado, promove a glória de Deus. Quando determinada ação humana, em obediência a uma ordem divina, produz como resultado o fato dos homens que a observam glorificarem ao Pai que está nos céus, então esta determinada ação pode ser definida como uma boa obra. É por isso que o Senhor chega a dizer que qualquer um que der um simples copo de água a alguém, por ser seu discípulo, de maneira alguma perderá o seu galardão (Mt 10.42; Mc 9.41). Se, por sermos discípulos, damos um copo de água a um necessitado por amor a Cristo, isto é uma boa obra e receberá galardão, mas nem todo copo de água que é dado por ai é um gesto de amor de um discípulo, nem é feito em nome de Jesus, e, tampouco resulta em glória para Deus, por isso, nem toda oferta de copo de água é uma boa obra. Por exemplo, em Volta Redonda, em algumas das festas que são realizadas pela prefeitura, na Praça Brasil, funcionários uniformizados distribuem copos de água gratuitamente à população. É uma ação política, boa em si mesma, porém, produz votos para as autoridades políticas que o praticam e não produz glória para Deus. Neste caso, portanto, não é uma boa obra do ponto de vista do Senhor Jesus. Recentemente, fui informado por um amigo, que é pastor e também funcionário da prefeitura de uma cidade próxima, que celebrou o aniversário da cidade com um grande show gospel, que ele havia conversado com um dos cantores contratados para informar-se sobre as condições para o mesmo apresentar-se em sua igreja. Diante do valor astronômico da proposta apresentada, ele… desistiu. Um outro amigo contatou uma cantora gospel muito famosa, com vistas a participação da mesma no culto em ação de graças em comemoração ao aniversário de sua igreja. A referida cantora enviou-lhe o plano de palco que ela exigia para suas apresentações e, ao vê-lo, ele desistiu pois o palco exigido pela Diva em questão era bem maior que o templo de sua pequena igreja. Queridos, não quero aqui colocar em dúvida a conversão de ninguém, mas me atrevo a dizer que estas pessoas que, em seus shows afirmam fazer a obra de Deus, realmente estão equivocadas, seus shows, que são pagos a preços compatíveis com os de qualquer cantor famoso da MPB, ou do universo sertanejo, não realizam a obra de Deus. Não podem nem mesmo ser caracterizados como boas obras pois, nestes, Deus não recebe glória, e sim, eles próprios, além do pagamento dos referidos cachês. O Senhor Jesus, quando fala acerca do grande julgamento da humanidade, o faz de forma a demonstrar que a fé que alegamos possuir será julgada a partir das obras realizadas por cada um de nós. Isto serve como um alerta. Jesus não diz que naquele dia dirá: “Vinde, benditos de meu Pai, porque vocês frequentaram a igreja; nem tampouco, vinde, benditos de meu Pai, porque vocês cantaram louvores”. Ele dirá: “Vinde, benditos do meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me” (Mt 25.34-36). Se continuarmos a ler o restante do capítulo até seu último versículo, descobriremos que Jesus afirma que, cada um dos salvos realizou esta boa obra em seu benefício quando a realizou em benefício de qualquer um dos seus pequeninos irmãos. E que, aqueles que forem condenados, deixaram de realizá-la quando deixaram de atender a estes mesmos pequeninos.

Queridos, temos uma obra a realizar, que é de nossa inteira responsabilidade. Recebemos um mandato missionário (Mt 28.18-20); e juntamente com o segundo grande mandamento (Mc 12.31), recebemos também um mandato diaconal; recebemos uma provisão de poder que nos capacita a realizar nossas tarefas (At 1.8); e recebemos a informação de que nossa fé será julgada a partir de nosso engajamento na realização das tarefas que Deus nos confiou (Mt 25.31-46). Esta obra é de nossa inteira responsabilidade, e precisamos nos dispor a realizá-la, sabendo que nada conseguiremos se a graça de Deus não a realizar através dos nossos esforços (Jo 15.5c; 1 Co 15.10). Nesta obra está incluída nossa responsabilidade como testemunhas de Cristo (At 1.8), e nossa responsabilidade como cuidadores daqueles que são de Cristo (Mt 25.34-36).

O apóstolo João nos informa que, ao final daquele encontro em Cafarnaum: “Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir”? E, “À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele” (Jo 6. 60, 66). Esta reação da multidão é surpreendente. Eles perguntaram o que deviam fazer para realizar as obras de Deus e quando compreenderam o que tinham de fazer, simplesmente demonstraram não estar interessados. Muitos nos dias de hoje se parecem com aquela multidão. Alardeiam que estão realizando a obra de Deus, mas por seus frutos podemos perceber que não estão realizando as boas obras que tinham a obrigação de realizar. Isto é fácil constatar. Mas neste momento cumpre-nos fazer uma avaliação honesta quanto a nossa própria atuação. Quando chegar o dia do grande julgamento, Jesus poderá dizer-nos que o alimentamos quando ele estava faminto, que o vestimos quando ele estava nu, que o visitamos quando estava enfermo, que o hospedamos quando ele era um forasteiro e que fomos vê-lo quando estava preso? Será que ao pensarmos nestes deveres nos sentimos como a multidão, achando que o discurso de Jesus é excessivamente duro. Que Deus nos conceda a graça de termos em nossos corações o mesmo sentimento que havia no coração de Pedro que, quando foi confrontado com a possibilidade de seguir a multidão, exclamou: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6.68). Amém.