quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fundamentos necessários para que a igreja cumpra sua missão

 “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número”.
At 9.31

Quando Lucas se dispôs a escrever sobre a conversão do apóstolo Paulo, foi necessário falar acerca da perseguição movida contra a igreja, perseguição que vinha de todos os lados, e no contexto da qual Saulo era apenas mais um dos perseguidores. O capítulo 9 do livro de atos dos apóstolos narra apenas os detalhes relacionados ao apóstolo Paulo e, mostra como ele passou da condição de perseguidor para a condição de perseguido, tão logo converteu-se a Cristo.

É justamente por falar da perseguição e do intenso sofrimento do povo de Deus, que o apóstolo Lucas se apressa a esclarecer que, na verdade, apesar de toda a guerra que lhe era movida externamente, a igreja, internamente, tinha paz em toda a Judeia, Galileia e Samaria. O que aprendemos no capítulo 9 de Atos dos Apóstolos é que, embora o ambiente externo fosse de ódio e perseguição, o ambiente interno da igreja estava cheio de amor e paz. A igreja desfrutava a paz de Cristo (Jo 14.27) e impactava a sociedade ao seu redor a ponto de reconciliar em seu interior povos tão antagônicos como os judeus e os galileus, e os judeus e os samaritanos. Em suma, Lucas está nos dizendo que os obstáculos externos, apesar de formidáveis, não eram capazes de impedir o avanço da igreja no cumprimento de sua missão.

Este fato nos força a refletir acerca dos motivos pelos quais aquela igreja que acabara de nascer, em pouquíssimo tempo, tornou-se tão forte e influente. Quero destacar nesta passagem, quatro fundamentos básicos para o sucesso da igreja primitiva, no cumprimento de sua missão, e que podem trazer vitalidade a qualquer igreja local, em qualquer tempo e lugar. Fundamentos que podem trazer vitalidade a nossa vida e ao nosso testemunho pessoal aqui e agora.

O primeiro deste fundamentos é a paz de Cristo. Ao despedir-se de seus discípulos Jesus, entre outras coisas lhes disse: “deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo(Jo 14.27). Jesus ao afirmar aos discípulos que lhes deixava sua paz como herança a ser desfrutada neste mundo, se apressa a deixar claro que sua paz não era dada da forma como a paz do mundo era dada. Neste mundo a paz é de natureza externa, e é caracterizada pela ausência de conflitos ou perseguições. No tempo de Cristo o mundo vivia sob a Pax Romana. Era a paz do poderoso império Romano imposta aos povos subjugados. Não haveria conflitos, não haveria guerras e nem perseguição do poderoso império sobre as nações vencidas, desde que estas aceitassem pagar os pesadíssimos impostos que lhes eram cobrados. Esta era a paz possível entre os povos. Esta mesma modalidade de paz também é dada pelo mundo no nível dos indivíduos. Os poderosos impõem sua vontade sobre os mais fracos, que se submetem e assim se cria a condição para a manutenção da paz. É um tipo de paz exterior, caracterizada pela ausência de conflitos e pela aceitação da injustiça dos mais fortes sobre os mais fracos. Uma outra forma de paz que o mundo dá é aquela baseada na igualdade entre os indivíduos ou entre as nações. Quando as forças se equivalem, e o conflito pode gerar mais danos que lucros para ambos os lados, celebra-se a paz, baseada no temor mútuo. Todas estas formas de paz tem uma característica em comum: São temporárias. A paz se evapora assim que as condições que a sustenta mudam.

A paz de Cristo é de outro tipo. Não é de natureza externa mas interna. Não depende da ausência de conflitos, mas se mantém inalterada mesmo em meio aos maiores conflitos. Não tem sua base de sustentação em condições estabelecidas pelos poderosos deste mundo, mas se sustenta na obra realizada na cruz, por Jesus Cristo de Nazaré. Aqueles que possuem esta paz em seus corações podem manter paz uns com os outros, mesmo que estes outros sejam inimigos mortais, desejosos de lhes tirar a própria vida. É por isto que o apóstolo Paulo, ao descrever o Reino de Deus, exclui quaisquer aspectos relacionados a vida exterior como comida e bebida mas inclui a paz vinculada a ação divina como um dos seus ingredientes:Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Paulo deixa claro que não é qualquer tipo de justiça, nem qualquer tipo de paz, nem qualquer tipo de alegria, mas são as três coisas praticadas ou desfrutadas no Espírito Santo. A paz de Cristo é algo que só se desfruta quando estamos em íntima relação com o Espírito de Cristo. E uma íntima relação com o Espírito do Senhor só acontece quando nossa fé, amadurecida, consegue chegar ao ponto de orar como o próprio Senhor Jesus orou no Getsemâni: “… contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc 22.42b). A paz de Cristo se caracteriza pela serenidade diante das lutas e tribulações desta vida, entendendo e crendo que as promessas do Senhor são sempre verdadeiras e que seus motivos sempre são bons. Foi por este motivo que o Senhor, em seus momentos finais com seus discípulos, os alertou dizendo: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33). A paz de Cristo é o fundamento básico sobre o qual podem vicejar os outros fundamentos que permitem que a igreja consiga cumprir a sua missão. O apóstolo Tiago no diz que: “… é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz” (Tg 3.18). E pela mesma razão o apóstolo Pedro nos exorta dizendo: “aparte-se do mal, pratique o que é bom, busque a paz e empenhe-se por alcançá-la” (1 Pe 3.11).

Queridos, a igreja só desfruta a paz de Cristo quando seus membros, crendo que tudo coopera para o bem dos que amam a Deus (Rm 8.28), desistem de impor a paz do mundo que se caracteriza pela prevalência da vontade dos mais fortes sobre os mais fracos e aceita a vontade de Cristo que se caracteriza pela submissão mútua de uns aos outros no temor de Cristo (Ef 5.22). Empenhemo-nos por encontrar e desfrutar esta paz.

O segundo fundamento de uma igreja que cumpre sua missão é a edificação mútua. Lucas nos informa que a igreja tinha paz, edificando-se… É importante observar aqui que, por maior que fosse a importância dos apóstolos naqueles momentos iniciais da vida da igreja, o Espírito Santo não nos diz que a igreja era edificada por eles. Jesus afirmou que ele edificaria sua igreja sobre seu próprio fundamento (Mt 16.18) e ele continua a edificá-la usando cada um dos que se deixam encher pelo seu Espírito. É por esta razão que o apóstolo Paulo nos exorta para que: “… seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo; de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15-16). Queridos, estas palavras do apóstolo Paulo deixam claro que a responsabilidade pela edificação da igreja é uma responsabilidade compartilhada por todos os seus membros. Não existe qualquer base escriturística para a ideia de que os discípulos de Cristo podem ser membros da igreja sem assumir responsabilidades por seu próprio crescimento espiritual, pelo crescimento espiritual dos outros discípulos, e, pelo alcance daqueles que ainda não conhecem a Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. A ideia de que o crescimento da igreja é tarefa de seus líderes, eleitos ou contratados é completamente antibíblica e totalmente absurda. É uma ideia forjada no inferno, e habilmente disseminada por Satanás no seio da igreja. Quero ilustrar este fato da seguinte maneira: Imagine que uma nação que está sendo atacada por um poderoso exército inimigo fizesse uma assembleia para debater a melhor estratégia para se defender e atacar seus adversários, e nesta assembleia a população decidisse que para lutar as batalhas desta importante guerra bastava que seus principais líderes fossem designados para o campo de batalha, enquanto os cidadãos continuavam cada um cuidando de seus próprios interesses particulares. Não é necessária muita inteligência para perceber que esta é a estratégia de uma nação a caminho da derrota. Quando a meia dúzia de líderes deste povo se encontrassem no campo de batalha com os milhares e milhares de soldados inimigos, não seria necessário muito tempo para a derrota desta nação. Por incrível que pareça, esta é a ideia que a maioria do povo de Deus aceitou como válida. Frente as inumeráveis hostes de Satanás, a maioria esmagadora dos membros da igreja de Cristo continua a aceitar os argumentos do diabo, acreditando que basta que o pastor e alguns outros líderes eleitos, combatam as batalhas da igreja, enquanto que os crentes continuam cuidando cada um dos seus próprios interesses particulares. Esta é a razão porque mais de 80% das igrejas não conseguem ser eficientes na tarefa de dar testemunho, e alcançar os incrédulos para Cristo. É necessário que a igreja aceite a verdade bíblica segundo a qual ela é responsável pela sua própria edificação e crescimento.

O terceiro fundamento de uma igreja que cumpre a sua missão é que ela caminha no temor do Senhor. Deveríamos nos perguntar: O que é o temor do Senhor? E a resposta bíblica para isto é que o temor do Senhor é um misto de medo e reverência. Ou seja, o temor do Senhor é um medo reverente que leva em conta tanto a sua bondade quanto a sua severidade. É disto que o apóstolo Paulo trata quando diz: “Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte, também tu serás cortado” (Rm 11.22). Nesta passagem o apóstolo está tratando do problema da rejeição da nação de Israel que, por sua desobediência a Deus e seu fracasso em cumprir sua missão de ser uma testemunha para as outras nações, foi lançada fora, sendo colocada no seu lugar, para cumprir a mesma missão, a igreja de Cristo. O apóstolo aqui nos convida a considerar a bondade de Deus, que nos chama, sem nenhum merecimento, e nos credencia para realizar, sob a instrução e debaixo do poder do seu Espírito, a tarefa de edificar a sua igreja, sendo uma testemunha para o mundo. Andar no temor do Senhor implica em levar em conta a severidade de Deus que já rejeitou a Israel, justamente porque esta nação se recusou a ser fiel e obediente no cumprimento da missão para a qual fora criada. A promessa de Deus, nesta passagem, é que se a igreja for infiel, como o foi a nação de Israel, também ela será cortada. Andar no temor do Senhor é entender que Deus não tem nenhum compromisso conosco a parte daqueles que ele assumiu aos estabelecer conosco a sua aliança em Cristo. Assim como na antiga aliança, feita com a nação de Israel, havia promessas de bênçãos para os obedientes e promessas de castigo para os desobedientes, na nova aliança, feita com a igreja, igualmente existem promessas de bênçãos para os obedientes e promessas de castigo para os desobedientes (Hb 12.4-12; Ap 3.19). Todas as promessas de Deus, feitas a Israel, pertencem hoje a igreja, tanto as de bênçãos no caso da obediência aos seus mandamentos, quanto as promessas de castigo, no caso da desobediência. Andar no temor do Senhor é ter a certeza de que a desobediência será severamente castigada, e, por medo deste castigo, viver uma vida de obediência à vontade revelada de Deus.

O quarto fundamento de uma igreja que cumpre a sua missão é que ela caminha no conforto do Espírito Santo. Viver em comunidade é viver em meio a conflitos. A igreja é uma comunidade que, por sua própria definição, é uma comunidade propensa ao conflito. Isto, porque, na igreja, unem-se pessoas de todo tipo, sem distinção de cor, raça, sexo, condição social, cultural ou econômica. A igreja de Jesus é composta de pessoas que tem as mais variadas origens, culturais e religiosas, e todos trazem seus costumes particulares e suas histórias de vida. Este fato gera diferenças de todos os tipos. E estas diferenças, muitas vezes, colocam as pessoas em conflito umas com as outras. A forma como estes conflitos são resolvidos nem sempre é a melhor e mais sábia, gerando frustração e tristezas. O que fazer quando isto acontece? O que fazer quando nos sentimos injustiçados? O que fazer quando somos feridos pelas palavras duras de algum irmão imaturo ou injusto. Nestes momentos, como nos diz o apóstolo Pedro, Satanás está a espreita, rugindo em derredor, a procura de alguém a quem possa devorar (1 Pe 5.8). E como ele devora aqueles a quem ataca? Satanás consegue sua vitória sobre nós quando nos lança uns contra os outros. Ele está te devorando quando te convence a procurar vingança contra seus irmãos em vez de amá-los e de servi-los por amor a Cristo. Ele está te devorando quando te convence a abrir sua boca para difamar aqueles por quem Jesus Cristo morreu, e a quem ele colocou ao seu lado, para lutar junto com você pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos. Satanás está te devorando, toda vez que te convence que você pode ignorar a vontade de Deus e fazer a sua, a fim de evitar o sofrimento e a humilhação, que podem te alcançar, por fazer neste mundo, a vontade de Deus. É nestes momentos que precisamos lembrar que o consolo divino está disponível para quem o busca, na intimidade com o Espírito Santo.

Hoje em dia está na moda, em certos grupos eclesiásticos, o cântico de músicas dizendo que o anjo está trazendo sua vitória. Quero dizer que não existe exemplo nas Escrituras, de um único anjo de Deus, enviado a alguém com o propósito único de trazer vitória em algum empreendimento particular. Mas há exemplos de anjos agindo para garantir o cumprimento da vontade de Deus pelos seus discípulos, como quando Pedro foi liberto da prisão (At 12.6-8), e também para consolar o próprio Senhor Jesus, quando este, no Getsemâni, orava pedindo, se possível, livramento ao Pai (Lc 22.39-43). É importante frisar que Deus não deu o livramento pedido por Jesus, mas o conforto, enviado pelo Espírito Santo, o capacitou a cumprir a sua missão, e, somente por isso, estamos aqui. Que Deus nos abençoe ricamente e nos capacite a desfrutar da paz de Cristo, a nos edificar mutuamente, a andar no temor do Senhor e, no conforto do Espírito Santo. Amém.

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