“A igreja, na verdade, tinha paz por toda a judeia, Galileia e
Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no
conforto do Espírito Santo, crescia em número”.
At 9.31
Quando
Lucas se dispôs a escrever sobre a conversão do apóstolo Paulo,
foi necessário falar acerca da perseguição movida contra a igreja,
perseguição que vinha de todos os lados, e no contexto da qual
Saulo era apenas mais um dos perseguidores. O capítulo 9 do livro de
atos dos apóstolos narra apenas os detalhes relacionados ao apóstolo
Paulo e, mostra como ele passou da condição de perseguidor para a
condição de perseguido, tão logo converteu-se a Cristo.
É
justamente por falar da perseguição e do intenso sofrimento do povo
de Deus, que o apóstolo Lucas se apressa a esclarecer que, na
verdade, apesar de toda a guerra que lhe era movida externamente, a
igreja, internamente, tinha paz em toda a Judeia, Galileia e Samaria.
O que aprendemos no capítulo 9 de Atos dos Apóstolos é que, embora
o ambiente externo fosse de ódio e perseguição, o ambiente interno
da igreja estava cheio de amor e paz. A igreja desfrutava a paz de
Cristo (Jo 14.27) e impactava a
sociedade ao seu redor a ponto de reconciliar em seu interior povos
tão antagônicos como os judeus e os galileus, e os judeus e os
samaritanos. Em suma, Lucas está nos dizendo que os obstáculos
externos, apesar de formidáveis, não eram capazes de impedir o
avanço da igreja no cumprimento de sua missão.
Este fato
nos força a refletir acerca dos motivos pelos quais aquela igreja
que acabara de nascer, em pouquíssimo tempo, tornou-se tão forte e
influente. Quero destacar nesta passagem, quatro fundamentos básicos
para o sucesso da igreja primitiva, no cumprimento de sua missão, e
que podem trazer vitalidade a qualquer igreja local, em qualquer
tempo e lugar. Fundamentos que podem trazer vitalidade a nossa vida e
ao nosso testemunho pessoal aqui e agora.
O
primeiro deste fundamentos é a paz de Cristo. Ao
despedir-se de seus discípulos Jesus, entre outras coisas lhes
disse: “deixo-vos a paz, a minha paz vos
dou; não vo-la dou como a dá o mundo” (Jo
14.27). Jesus ao afirmar aos
discípulos que lhes deixava sua paz como herança a ser desfrutada
neste mundo, se apressa a deixar claro que sua paz não era dada da
forma como a paz do mundo era dada. Neste mundo a paz é de natureza
externa, e é caracterizada pela ausência de conflitos ou
perseguições. No tempo de Cristo o mundo vivia sob a Pax Romana.
Era a paz do poderoso império Romano imposta aos povos subjugados.
Não haveria conflitos, não haveria guerras e nem perseguição do
poderoso império sobre as nações vencidas, desde que estas
aceitassem pagar os pesadíssimos impostos que lhes eram cobrados.
Esta era a paz possível entre os povos. Esta mesma modalidade de paz
também é dada pelo mundo no nível dos indivíduos. Os poderosos
impõem sua vontade sobre os mais fracos, que se submetem e assim se
cria a condição para a manutenção da paz. É um tipo de paz
exterior, caracterizada pela ausência de conflitos e pela aceitação
da injustiça dos mais fortes sobre os mais fracos. Uma outra forma
de paz que o mundo dá é aquela baseada na igualdade entre os
indivíduos ou entre as nações. Quando as forças se equivalem, e o
conflito pode gerar mais danos que lucros para ambos os lados,
celebra-se a paz, baseada no temor mútuo. Todas estas formas de paz
tem uma característica em comum: São temporárias. A paz se evapora
assim que as condições que a sustenta mudam.
A paz de
Cristo é de outro tipo. Não é de natureza externa mas interna. Não
depende da ausência de conflitos, mas se mantém inalterada mesmo em
meio aos maiores conflitos. Não tem sua base de sustentação em
condições estabelecidas pelos poderosos deste mundo, mas se
sustenta na obra realizada na cruz, por Jesus Cristo de Nazaré.
Aqueles que possuem esta paz em seus corações podem manter paz uns
com os outros, mesmo que estes outros sejam inimigos mortais,
desejosos de lhes tirar a própria vida. É por isto que o apóstolo
Paulo, ao descrever o Reino de Deus, exclui quaisquer aspectos
relacionados a vida exterior como comida e bebida mas inclui a paz
vinculada a ação divina como um dos seus ingredientes:
“Porque o reino de Deus não é comida nem
bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”
(Rm 14.17). Paulo deixa claro que não é
qualquer tipo de justiça, nem qualquer tipo de paz, nem qualquer
tipo de alegria, mas são as três coisas praticadas ou desfrutadas
no Espírito Santo. A paz de Cristo é algo que só se desfruta
quando estamos em íntima relação com o Espírito de Cristo. E uma
íntima relação com o Espírito do Senhor só acontece quando nossa
fé, amadurecida, consegue chegar ao ponto de orar como o próprio
Senhor Jesus orou no Getsemâni: “…
contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc
22.42b). A paz de Cristo se caracteriza pela serenidade diante
das lutas e tribulações desta vida, entendendo e crendo que as
promessas do Senhor são sempre verdadeiras e que seus motivos sempre
são bons. Foi por este motivo que o Senhor, em seus momentos finais
com seus discípulos, os alertou dizendo: “Estas
coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais
por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo”
(Jo 16.33). A paz de Cristo é o
fundamento básico sobre o qual podem vicejar os outros fundamentos
que permitem que a igreja consiga cumprir a sua missão. O apóstolo
Tiago no diz que: “… é em paz que se
semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz”
(Tg 3.18). E pela mesma razão o
apóstolo Pedro nos exorta dizendo: “aparte-se
do mal, pratique o que é bom, busque a paz e empenhe-se por
alcançá-la” (1 Pe 3.11).
Queridos,
a igreja só desfruta a paz de Cristo quando seus membros, crendo que
tudo coopera para o bem dos que amam a Deus (Rm
8.28), desistem de impor a paz do mundo que se caracteriza
pela prevalência da vontade dos mais fortes sobre os mais fracos e
aceita a vontade de Cristo que se caracteriza pela submissão mútua
de uns aos outros no temor de Cristo (Ef 5.22).
Empenhemo-nos por encontrar e desfrutar esta paz.
O
segundo fundamento de uma igreja que cumpre sua missão é a
edificação mútua. Lucas nos informa que a igreja
tinha paz, edificando-se… É importante observar aqui que,
por maior que fosse a importância dos apóstolos naqueles momentos
iniciais da vida da igreja, o Espírito Santo não nos diz que a
igreja era edificada por eles. Jesus afirmou que ele edificaria sua
igreja sobre seu próprio fundamento (Mt 16.18)
e ele continua a edificá-la usando cada um dos que se deixam encher
pelo seu Espírito. É por esta razão que o apóstolo Paulo nos
exorta para que: “… seguindo a verdade
em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo; de quem
todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta,
segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio
aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef
4.15-16). Queridos, estas palavras do apóstolo Paulo deixam
claro que a responsabilidade pela edificação da igreja é uma
responsabilidade compartilhada por todos os seus membros. Não existe
qualquer base escriturística para a ideia de que os discípulos de
Cristo podem ser membros da igreja sem assumir responsabilidades por
seu próprio crescimento espiritual, pelo crescimento espiritual dos
outros discípulos, e, pelo alcance daqueles que ainda não conhecem
a Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. A ideia de que o
crescimento da igreja é tarefa de seus líderes, eleitos ou
contratados é completamente antibíblica e totalmente absurda. É
uma ideia forjada no inferno, e habilmente disseminada por Satanás
no seio da igreja. Quero ilustrar este fato da seguinte maneira:
Imagine que uma nação que está sendo atacada por um poderoso
exército inimigo fizesse uma assembleia para debater a melhor
estratégia para se defender e atacar seus adversários, e nesta
assembleia a população decidisse que para lutar as batalhas desta
importante guerra bastava que seus principais líderes fossem
designados para o campo de batalha, enquanto os cidadãos continuavam
cada um cuidando de seus próprios interesses particulares. Não é
necessária muita inteligência para perceber que esta é a
estratégia de uma nação a caminho da derrota. Quando a meia dúzia
de líderes deste povo se encontrassem no campo de batalha com os
milhares e milhares de soldados inimigos, não seria necessário
muito tempo para a derrota desta nação. Por incrível que pareça,
esta é a ideia que a maioria do povo de Deus aceitou como válida.
Frente as inumeráveis hostes de Satanás, a maioria esmagadora dos
membros da igreja de Cristo continua a aceitar os argumentos do
diabo, acreditando que basta que o pastor e alguns outros líderes
eleitos, combatam as batalhas da igreja, enquanto que os crentes
continuam cuidando cada um dos seus próprios interesses
particulares. Esta é a razão porque mais de 80% das igrejas não
conseguem ser eficientes na tarefa de dar testemunho, e alcançar os
incrédulos para Cristo. É necessário que a igreja aceite a verdade
bíblica segundo a qual ela é responsável pela sua própria
edificação e crescimento.
O
terceiro fundamento de uma igreja que cumpre a sua missão é que ela
caminha no temor do Senhor. Deveríamos nos perguntar: O
que é o temor do Senhor? E a resposta bíblica para isto é que o
temor do Senhor é um misto de medo e reverência. Ou seja, o temor
do Senhor é um medo reverente que leva em conta tanto a sua bondade
quanto a sua severidade. É disto que o apóstolo Paulo trata quando
diz: “Considerai, pois, a bondade e a
severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para
contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte,
também tu serás cortado” (Rm
11.22). Nesta passagem o apóstolo está tratando do problema
da rejeição da nação de Israel que, por sua desobediência a Deus
e seu fracasso em cumprir sua missão de ser uma testemunha para as
outras nações, foi lançada fora, sendo colocada no seu lugar, para
cumprir a mesma missão, a igreja de Cristo. O apóstolo aqui nos
convida a considerar a bondade de Deus, que nos chama, sem nenhum
merecimento, e nos credencia para realizar, sob a instrução e
debaixo do poder do seu Espírito, a tarefa de edificar a sua igreja,
sendo uma testemunha para o mundo. Andar no temor do Senhor implica
em levar em conta a severidade de Deus que já rejeitou a Israel,
justamente porque esta nação se recusou a ser fiel e obediente no
cumprimento da missão para a qual fora criada. A promessa de Deus,
nesta passagem, é que se a igreja for infiel, como o foi a nação
de Israel, também ela será cortada. Andar no temor do Senhor é
entender que Deus não tem nenhum compromisso conosco a parte
daqueles que ele assumiu aos estabelecer conosco a sua aliança em
Cristo. Assim como na antiga aliança, feita com a nação de Israel,
havia promessas de bênçãos para os obedientes e promessas de
castigo para os desobedientes, na nova aliança, feita com a igreja,
igualmente existem promessas de bênçãos para os obedientes e
promessas de castigo para os desobedientes (Hb
12.4-12; Ap 3.19). Todas as promessas de Deus, feitas a
Israel, pertencem hoje a igreja, tanto as de bênçãos no caso da
obediência aos seus mandamentos, quanto as promessas de castigo, no
caso da desobediência. Andar no temor do Senhor é ter a certeza de
que a desobediência será severamente castigada, e, por medo deste
castigo, viver uma vida de obediência à vontade revelada de Deus.
O
quarto fundamento de uma igreja que cumpre a sua missão é que ela
caminha no conforto do Espírito Santo. Viver em
comunidade é viver em meio a conflitos. A igreja é uma comunidade
que, por sua própria definição, é uma comunidade propensa ao
conflito. Isto, porque, na igreja, unem-se pessoas de todo tipo, sem
distinção de cor, raça, sexo, condição social, cultural ou
econômica. A igreja de Jesus é composta de pessoas que tem as mais
variadas origens, culturais e religiosas, e todos trazem seus
costumes particulares e suas histórias de vida. Este fato gera
diferenças de todos os tipos. E estas diferenças, muitas vezes,
colocam as pessoas em conflito umas com as outras. A forma como estes
conflitos são resolvidos nem sempre é a melhor e mais sábia,
gerando frustração e tristezas. O que fazer quando isto acontece? O
que fazer quando nos sentimos injustiçados? O que fazer quando somos
feridos pelas palavras duras de algum irmão imaturo ou injusto.
Nestes momentos, como nos diz o apóstolo Pedro, Satanás está a
espreita, rugindo em derredor, a procura de alguém a quem possa
devorar (1 Pe 5.8). E como ele devora
aqueles a quem ataca? Satanás consegue sua vitória sobre nós
quando nos lança uns contra os outros. Ele está te devorando quando
te convence a procurar vingança contra seus irmãos em vez de
amá-los e de servi-los por amor a Cristo. Ele está te devorando
quando te convence a abrir sua boca para difamar aqueles por quem
Jesus Cristo morreu, e a quem ele colocou ao seu lado, para lutar
junto com você pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos
santos. Satanás está te devorando, toda vez que te convence que
você pode ignorar a vontade de Deus e fazer a sua, a fim de evitar o
sofrimento e a humilhação, que podem te alcançar, por fazer neste
mundo, a vontade de Deus. É nestes momentos que precisamos lembrar
que o consolo divino está disponível para quem o busca, na
intimidade com o Espírito Santo.
Hoje em
dia está na moda, em certos grupos eclesiásticos, o cântico de
músicas dizendo que o anjo está trazendo sua vitória. Quero dizer
que não existe exemplo nas Escrituras, de um único anjo de Deus,
enviado a alguém com o propósito único de trazer vitória em algum
empreendimento particular. Mas há exemplos de anjos agindo para
garantir o cumprimento da vontade de Deus pelos seus discípulos,
como quando Pedro foi liberto da prisão (At
12.6-8), e também para consolar o próprio Senhor Jesus,
quando este, no Getsemâni, orava pedindo, se possível, livramento
ao Pai (Lc 22.39-43). É importante
frisar que Deus não deu o livramento pedido por Jesus, mas o
conforto, enviado pelo Espírito Santo, o capacitou a cumprir a sua
missão, e, somente por isso, estamos aqui. Que Deus nos abençoe
ricamente e nos capacite a desfrutar da paz de Cristo, a nos edificar
mutuamente, a andar no temor do Senhor e, no conforto do Espírito
Santo. Amém.
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