“Que faremos para realizar as obras de Deus? Respondeu-lhes
Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi
enviado.”Jo 6.28b-29
Depois de
terem comido os pães e peixes que Jesus tinha multiplicado, a
multidão ficara maravilhada. Nunca alguém havia alimentado uma
multidão com mais de cinco mil homens, fora as mulheres e crianças,
com apenas cinco pães e dois peixinhos (Jo
6.1-15). Realmente, fora um milagre extraordinário, sem
precedentes na história do profetismo em Israel. O deslumbramento da
multidão teve dois efeitos imediatos: Muitas pessoas chegaram a
conclusão que Jesus era o profeta que devia vir ao mundo (Jo
6.14); conclusão correta em parte, uma vez que Jesus
realmente cumpria a profecia de Moisés (Dt
18.15), porém, equivocada no sentido de percebê-lo apenas
como mais um profeta. Eles o viam como uma pessoa que seria capaz de
cumprir todas as suas expectativas messiânicas. Esta percepção
levou a multidão ao segundo equívoco: Eles resolveram arrebatá-lo
com o intuito de proclamá-lo rei. Naquele momento de euforia a
multidão não conseguia entender que a realeza de Jesus, associada à
sua encarnação, era espiritual e não política. Embora Jesus tenha
aceitado o título de rei (Jo 1.49), ele
já havia rejeitado a oferta de satanás (Mt
4.8-9 e Lc 4.5-6), e agora, conhecedor das intenções do
povo, o Senhor retirou-se sozinho para o monte (Jo
6.15).
Durante a
noite, o Senhor Jesus e seus discípulos atravessaram o lago, e
chegaram a Cafarnaum onde a multidão o procura e o encontra no dia
seguinte. Ao encontrar-se com Jesus, os líderes da multidão
perguntam-lhe como ele chegara ali. Jesus ignora a pergunta e
responde com uma afirmação que desmascarava seus propósitos
meramente utilitaristas. Ele lhes diz: “Vós
me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães
e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que
subsiste para a vida eterna, a qual o filho do homem vos dará;
porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (Jo
6.26-27). Esta afirmativa de Jesus expõe o coração e as
intenções da multidão. Primeiro, Jesus afirma que eles não haviam
visto no sinal realizado a sua identificação com o Messias
prometido, o que nos revela que a percepção que tiveram dele como o
profeta que devia vir ao mundo, era uma percepção equivocada, eles
esperavam um messias diferente do tipo de Messias que Ele estava
disposto a ser, e em segundo lugar, suas expectativas eram carnais;
eles procuravam apenas a oportunidade de ganhar uma nova refeição
gratuita.
Neste
ponto, é interessante pararmos para fazermos uma breve reflexão.
Que tipo de alimento as multidões modernas, que lotam templos onde
Jesus é anunciado, todos os dias, estão procurando? A comida que
perece, ou aquela que subsiste para a vida eterna? E, quanto a nós,
o que viemos buscar hoje, neste templo? O que pretendemos levar
daqui, ao final desta celebração? Uma bênção material ou uma
bênção espiritual? Já entendemos que Jesus Cristo de Nazaré é a
maior riqueza que podemos ter? Que ele é a pérola de grande valor
(Mt 13.46)? O tesouro escondido no campo
(Mt 13.44)? Ou ainda estamos como
muitos, pensando que ele é um Deus ansioso para nos fazer felizes, e
possuidor de riquezas das quais podemos nos apossar através da fé?
Voltemos
nossos pensamentos uma vez mais a cena de Cafarnaum. Confrontados por
Jesus, aqueles homens lhe perguntam: “Que
faremos para realizar as obras de Deus” (Jo
6.28)? Ao que Jesus lhes responde: “A
obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado”
(Jo 6.29). Esta resposta, analisada a
partir do conhecimento do Novo Testamento não deve nos surpreender,
mas certamente surpreendeu os interlocutores de Jesus. Com suas
palavras ele deixa claro aos seus questionadores que, em se tratando
da realização da obra de Deus, o foco não está nos homens mas em
Deus.
Quando
examinamos as palavras e as atitudes de Jesus, no diálogo que se
segue (vv. 30-65), duas verdades saltam
aos olhos. A primeira destas verdades é que a obra de Deus é
realizada pelo próprio Deus, e a segunda é que a obra de Deus é
realizada principalmente em nós, e não apenas, através de nós.
Por mais incapaz que a multidão fosse para perceber que estava
diante do próprio Deus encarnado, e que Ele estava ali realizando
sua obra, isto não mudava os fatos. A obra de Deus era levá-los a
crer, sustentá-los na fé, alimentá-los em sua jornada espiritual e
prover meios para que alcançassem a vida eterna e, por fim,
ressuscitá-los no último dia. Esta é a descrição da obra de
Deus, e basta uma análise superficial da mesma, para perceber que
destituídos da graça de Deus, jamais poderíamos realizar sequer, a
parte que nos cabe. Só Deus pode realizar a obra de Deus! E isto
porque esta é uma obra espiritual desde o seu início. O apóstolo
Pedro nos informa que o sangue de Jesus, através do qual nossos
pecados são perdoados, já era conhecido antes da fundação do
mundo (1 Pe 1.18-20), e o apóstolo João
nos diz que Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo
1.29) foi morto desde a fundação do mundo (Ap
13.8). E Jesus, afirma que nos ressuscitará no último dia
(Jo 6.39-40,44,54). Estas palavras nos
mostram que os limites da obra de Deus estão aquém e além de nós.
A obra redentora de Deus se inicia antes da criação do ser humano e
terminará após o fim da história humana. É uma obra que,
diferentemente da ênfase individualista que se vê nos dias de hoje,
tem um caráter comunitário. Os escritores do Novo Testamento
utilizam várias metáforas para se referir àquilo que Deus está
realizando na história humana e a que Jesus se referiu como a obra
de edificação de sua igreja, e muitas destas metáforas ressaltam
seu caráter comunitário. Nas palavras de Jesus, a igreja constitui
os ramos da videira verdadeira, para Paulo ela é um corpo
constituído de muitos membros (1 Co 12)
e nesta condição, segundo João, ela é a Noiva e a Esposa do
Cordeiro (Ap 21.9). Todas estas são
lindas metáforas. Uma das mais belas, porém, encontra-se no texto
de Paulo aos Efésios 2.18-22, nesta
passagem a igreja é descrita como a família de Deus, é também um
edifício que está sendo edificado para ser santuário dedicado ao
Senhor, no qual todos nós estamos sendo edificados para habitação
de Deus no Espírito. Note-se que esta é uma obra de caráter
comunitário. Toda a Trindade está envolvida na realização da obra
de Deus.
A segunda
verdade revelada por Jesus aos seus ouvintes é que, diferentemente
daquilo que eles pensavam, a obra de Deus é realizada em nós e não
somente através de nós. É um equívoco pensar que as coisas que
fazemos na igreja, ou através da igreja, ou ainda, em nome da
igreja, seja “a obra de Deus”. A obra de Deus é realizada
por Deus, e se realiza primeiramente em nós. Havia uma parte da obra
de Deus que precisava ser realizada fora de nós. No caminho do
Redentor havia a cruz. A cruz não foi um acidente de percurso, não
aconteceu por alguma falha no projeto original de Deus, como alguns
já postularam, ao contrário, de acordo com o ensino do apóstolo
Pedro, a nossa redenção através do derramamento do sangue precioso
de Jesus já era conhecida antes da fundação do mundo (1
Pe 1.18-20) e, conforme já foi dito acima, de acordo com o
apóstolo João, Jesus, o Cordeiro precioso, que tira o pecado do
mundo, foi morto desde a fundação do mundo (Ap
13.8). A obra divina de redenção, através do sacrifício
vicário do Messias, foi realizada por Jesus, na cruz, portanto, fora
de nós. Desde então a obra de Deus é realizada, principalmente,
dentro de nós, através da aplicação que o Espírito Santo realiza
em nossos corações, dos benefícios espirituais conquistados por
Jesus, na cruz. Ele primeiro nos convence do pecado, do juizo e da
justiça (Jo 16.18), depois nos capacita
ao arrependimento e nos concede a fé, como um dom (Ef
2.8-9), que nos permite responder positivamente ao seu chamado
e crer em Jesus como Senhor de nossas vidas. Quanto isto acontece,
ele se torna o nosso Salvador. Está é uma obra do Espírito, que
envolve as três áreas da psique humana. Somos racionalmente
convencidos do fato de sermos pecadores. A partir disto entendemos
que temos culpa diante de Deus e que está culpa nos faz dignos de
condenação eterna. Em seguida o Espírito age em nossas emoções.
Ao entendermos a gravidade do pecado, e nossa completa incapacidade
para vencê-lo, nos entristecemos e desejamos ardentemente o perdão
de Deus. Finalmente, o Espírito age no âmbito das nossas volições
ou seja, em nossa vontade, e arrependidos, tomamos a decisão de
viver uma vida que agrade a Deus. Quando nos arrependemos e cremos,
somos salvos, somos justificados diante de Deus pela fé no seu
filho. Ao sermos salvos, somos libertos da culpa do pecado, somos
justificados. É a isto que Paulo se refere quando diz que:
“Justificados, pois, pela fé em Cristo
Jesus, temos paz com Deus” (Rm
5.1), e, “Agora, pois, já nenhuma
condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm
8.1). Como já disse, esta é uma obra de transformação do
estado de nossa condição espiritual. Nossa condição espiritual
muda de pecadores condenados para a condição de pecadores
perdoados. Quero enfatizar que continuamos sendo pecadores. O que
mudou ao final desta fase da obra de Deus em nós foi a nossa
condição, não o nosso caráter. Antes eramos pecadores perdidos,
agora somos pecadores salvos. Nesta fase fomos libertos da culpa do
pecado. Isto é o que significa o ensino de Paulo quando diz que:
“Ele
(Jesus) se fez maldição por nós
para que fossemos feitos justiça de Deus” (2
Co 5.1 e Gl 3.13). Esta fase da obra de Deus em nós é
chamada de justificação. É um ato único de Deus, realizado uma
única vez, de uma vez por todas, através do qual, Deus atribui a
cada pecador arrependido, a justiça de Cristo (Rm
4.11).
Imediatamente
após a justificação, o Espírito Santo inicia a segunda parte da
sua obra em nós. Esta é uma obra de transformação moral. É a
obra da santificação. No que diz respeito ao pecado, a diferença
essencial entre a obra de justificação e a obra da santificação
realizadas pelo Espírito em nós, é que na primeira o pecador
remido é liberto da culpa do pecado, e na segunda, ele vai sendo,
pouco a pouco, liberto do poder do pecado. Esta segunda fase da obra
de Deus em nós só terminará quando o Senhor nos chamar à sua
presença. Enquanto estivermos neste mundo ela continua sendo
realizada. É a esta etapa da obra de Deus que o apóstolo Paulo se
refere quando diz aos Filipenses: “Estou
plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de
completá-la até ao dia de Cristo Jesus” (Fp
1.6). Neste ponto é importante entendermos que nesta etapa da
obra de Deus em nós tanto se podem ver os sinais de confirmação da
fé genuína, quanto os sinais da falsa fé daqueles que estão na
igreja, mas, de fato, não pertencem a ela. E o processo é simples.
Jesus nos indicou uma forma segura de avaliação: o exame da
qualidade das obras, ou, para utilizar a mesma metáfora do Mestre,
dos frutos. De acordo com Jesus uma árvore boa (crente verdadeiro)
produz bons frutos, enquanto que uma árvore má (falso crente)
produzirá frutos ruins (Mt 7.17-18; Mt 12.33;
Lc 6.43). Isto significa que, a longo prazo, todo aquele que
verdadeiramente nasceu de novo (Jo 3.3,5-8,16),
terá seu caráter transformado para melhor, e esta transformação
se manifestará através de suas atitudes e suas ações. Haverá
mudanças positivas em seus valores, em sua maneira de falar, de
pensar e de agir em relação aqueles com quem convive diariamente.
Ou seja, o fato de alguém se tornar nova criatura (2
Co 5.17), não tem como ser ocultado dos que estão a sua
volta, as mudanças serão notadas, ainda que as pessoas não
conheçam o motivo das mesmas. Não há nenhuma possibilidade de um
verdadeiro convertido continuar prazerosamente na prática de um
estilo de vida pecaminoso (1 Jo 3.6). E,
isto, porque, embora continuemos sendo pecadores, o verdadeiro
convertido não tem mais prazer no pecado, antes o lamenta e por isso
luta contra as tentações e recebe poder para vencê-las (Rm
7.24;1 Co 10.13). Como já mencionado anteriormente, nesta
fase da obra de Deus em nós, somos libertos do poder do pecado, e
cada vez mais recebemos capacidade para viver uma vida que honre a
vocação que recebemos de Deus em Cristo Jesus. É por esta razão
que o escritor da epístola aos Hebreus solenemente exorta: “Segui
a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o
Senhor” (Hb 12.14). Neste
momento é importante esclarecer uma dúvida comum a muitas pessoas
sinceras, que, ao lerem este versículo, chegam a pensar que o Senhor
está ameaçando os seus filhos, dizendo que se eles não se
santificarem, perderão a salvação. Não é este o caso. Os salvos
não perdem a salvação (Jo 6.37). O
que está sendo ensinado nesta passagem é que a busca da paz e da
santificação é uma atitude natural para os verdadeiros filhos de
Deus. Se alguém não sente anseios pela paz e pela santificação,
isto é sinal de que não houve uma verdadeira conversão. Neste
caso, tal pessoa deve avaliar seriamente porque esta frequentando a
igreja, e com base em que está pensando que é salva. Vou esclarecer
este ponto. De acordo com a revelação de Deus, a obra de Deus é
inteiramente realizada por Deus, ela começa com a eleição e
termina com a glorificação dos eleitos, somos predestinados para
sermos conformes à imagem de Jesus (portanto, santos), justificados
e glorificados (Rm 8.28,29), ou seja,
todo o processo de redenção é realização da trindade santa, e é
infalível. Dito de outra forma, naqueles em quem faltar a
característica da santificação como obra de Deus, isto significa
que também falta a característica da justificação. Vou esclarecer
um pouco mais este ponto. Dentro da economia da salvação, o
Espírito Santo é aquela pessoa que aplica em nós os benefícios da
obra redentora que Jesus Cristo realizou na cruz, e sua ação é de
caráter irresistível na vida dos eleitos de Deus. Jamais falha,
portanto, se na vida de alguém que já está há vários anos dentro
de uma comunidade eclesiástica qualquer, falta a realização da
segunda parte da obra de Deus em nós, isto significa que Ele não a
realizou, e, se Ele não realizou a segunda parte de sua obra, isto é
um sinal inequívoco de que também não realizou a primeira.
Resumindo: Se após vários anos de experiência cristã a pessoa não
é santificada pela ação do Espírito, isto quer dizer que também
não foi justificada pela ação do mesmo Espírito. Resumindo mais
ainda: Se não é santo, também não é salvo.
A
terceira fase da obra de Deus em nós não se realizará nesta fase
de nossa existência. Esta terceira fase se realizará na eternidade,
após a ressurreição, e se chama glorificação. Nesta fase
receberemos um novo corpo, um novo nome, e seremos salvos da presença
do pecado. Não trataremos deste assunto neste momento porque isto
fugiria aos propósitos desta reflexão. Neste momento queremos
considerar nossas responsabilidades diante dos imensos privilégios
que já nos foram concedidos pela realização da obra de Deus em
nós.
Neste
momento precisamos considerar o seguinte fato. Deus realiza a sua
obra em nós e uma vez que ele nos alcançou com sua graça, ele quer
realizá-la também através de nós. Se, por um lado, o apóstolo
Paulo deixa claro que ninguém será salvo através da prática de
boas obras (Gl 2.16; 3.10; Rm 3.20) por
outro, o apóstolo Tiago nos ensina que a fé sem obras é morta (Tg
2.26), e que o único meio que ele conhecia através do qual
poderia mostrar a sua fé aos outros era através das suas obras (Tg
2.18).
Ora, cabe
então perguntar, se Deus realiza a sua obra em nós, e se ele quer
realizá-la também através de nós, qual o papel que nos cabe no
plano redentor de Deus? Como devemos participar legitimamente da
realização desta obra? O apóstolo Paulo nos diz que: “somos
feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus
de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef
2.10). Ou seja, mesmo as boas obras que porventura venhamos a
praticar, foram preparadas antecipadamente, por Deus, para que nós
andássemos nelas, portanto, a origem das mesmas é divina. O
apóstolo Paulo, falando a respeito de seu ministério chega a dizer:
“Mas, pela graça de Deus, sou o que sou;
e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes,
trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça
de Deus comigo” (1 Co 15.10).
Com estas palavras, o apóstolo está querendo dizer que reconhecia
que, apesar de todo o seu esforço, os frutos obtidos eram obra da
graça de Deus agindo em sua vida. Suas boas obras ainda que
realizadas por meio de sua instrumentalidade eram, no fim, obra da
graça de Deus em sua vida. Ou seja, seu papel era o de um
colaborador daquele que de fato realiza a sua obra (2
Co 6.1). É importante, porém, definirmos o que, em si, é
uma boa obra. Nem tudo o que os cristãos fazem pode ser
indiscriminadamente classificado como uma boa obra. Como podemos
definir uma boa obra? Podemos compreender a diferença entre uma obra
comum ou ruim e uma boa obra a partir da ordem dada por Jesus a seus
discípulos, no Sermão do Monte. Jesus lhes disse:' Assim
brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as
vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus”
(Mt 5.16). Este versículo nos permite
entender que o que define uma determinada obra como boa. Em primeiro
lugar uma boa obra é algo que é realizado em obediência a vontade
de Deus, e também e como resultado, promove a glória de Deus.
Quando determinada ação humana, em obediência a uma ordem divina,
produz como resultado o fato dos homens que a observam glorificarem
ao Pai que está nos céus, então esta determinada ação pode ser
definida como uma boa obra. É por isso que o Senhor chega a dizer
que qualquer um que der um simples copo de água a alguém, por ser
seu discípulo, de maneira alguma perderá o seu galardão (Mt
10.42; Mc 9.41). Se, por sermos discípulos, damos um copo de
água a um necessitado por amor a Cristo, isto é uma boa obra e
receberá galardão, mas nem todo copo de água que é dado por ai é
um gesto de amor de um discípulo, nem é feito em nome de Jesus, e,
tampouco resulta em glória para Deus, por isso, nem toda oferta de
copo de água é uma boa obra. Por exemplo, em Volta Redonda, em
algumas das festas que são realizadas pela prefeitura, na Praça
Brasil, funcionários uniformizados distribuem copos de água
gratuitamente à população. É uma ação política, boa em si
mesma, porém, produz votos para as autoridades políticas que o
praticam e não produz glória para Deus. Neste caso, portanto, não
é uma boa obra do ponto de vista do Senhor Jesus. Recentemente, fui
informado por um amigo, que é pastor e também funcionário da
prefeitura de uma cidade próxima, que celebrou o aniversário da
cidade com um grande show gospel, que ele havia conversado com um dos
cantores contratados para informar-se sobre as condições para o
mesmo apresentar-se em sua igreja. Diante do valor astronômico da
proposta apresentada, ele… desistiu. Um outro amigo contatou uma
cantora gospel muito famosa, com vistas a participação da mesma no
culto em ação de graças em comemoração ao aniversário de sua
igreja. A referida cantora enviou-lhe o plano de palco que ela exigia
para suas apresentações e, ao vê-lo, ele desistiu pois o palco
exigido pela Diva em questão era bem maior que o templo de sua
pequena igreja. Queridos, não quero aqui colocar em dúvida a
conversão de ninguém, mas me atrevo a dizer que estas pessoas que,
em seus shows afirmam fazer a obra de Deus, realmente estão
equivocadas, seus shows, que são pagos a preços compatíveis com os
de qualquer cantor famoso da MPB, ou do universo sertanejo, não
realizam a obra de Deus. Não podem nem mesmo ser caracterizados como
boas obras pois, nestes, Deus não recebe glória, e sim, eles
próprios, além do pagamento dos referidos cachês. O Senhor Jesus,
quando fala acerca do grande julgamento da humanidade, o faz de forma
a demonstrar que a fé que alegamos possuir será julgada a partir
das obras realizadas por cada um de nós. Isto serve como um alerta.
Jesus não diz que naquele dia dirá: “Vinde, benditos de meu Pai,
porque vocês frequentaram a igreja; nem tampouco, vinde, benditos de
meu Pai, porque vocês cantaram louvores”. Ele dirá: “Vinde,
benditos do meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado
desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer;
tive sede, e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes;
estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes
ver-me” (Mt 25.34-36). Se
continuarmos a ler o restante do capítulo até seu último
versículo, descobriremos que Jesus afirma que, cada um dos salvos
realizou esta boa obra em seu benefício quando a realizou em
benefício de qualquer um dos seus pequeninos irmãos. E que, aqueles
que forem condenados, deixaram de realizá-la quando deixaram de
atender a estes mesmos pequeninos.
Queridos,
temos uma obra a realizar, que é de nossa inteira responsabilidade.
Recebemos um mandato missionário (Mt
28.18-20); e juntamente com o segundo grande mandamento (Mc
12.31), recebemos também um mandato diaconal; recebemos uma
provisão de poder que nos capacita a realizar nossas tarefas (At
1.8); e recebemos a informação de que nossa fé será
julgada a partir de nosso engajamento na realização das tarefas que
Deus nos confiou (Mt 25.31-46). Esta
obra é de nossa inteira responsabilidade, e precisamos nos dispor a
realizá-la, sabendo que nada conseguiremos se a graça de Deus não
a realizar através dos nossos esforços (Jo
15.5c; 1 Co 15.10). Nesta obra
está incluída nossa responsabilidade como testemunhas de Cristo (At
1.8), e nossa responsabilidade como cuidadores daqueles que
são de Cristo (Mt 25.34-36).
O
apóstolo João nos informa que, ao final daquele encontro em
Cafarnaum: “Muitos dos seus discípulos,
tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o
pode ouvir”? E, “À
vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não
andavam com ele” (Jo 6. 60, 66).
Esta reação da multidão é surpreendente. Eles perguntaram o que
deviam fazer para realizar as obras de Deus e quando compreenderam o
que tinham de fazer, simplesmente demonstraram não estar
interessados. Muitos nos dias de hoje se parecem com aquela multidão.
Alardeiam que estão realizando a obra de Deus, mas por seus frutos
podemos perceber que não estão realizando as boas obras que tinham
a obrigação de realizar. Isto é fácil constatar. Mas neste
momento cumpre-nos fazer uma avaliação honesta quanto a nossa
própria atuação. Quando chegar o dia do grande julgamento, Jesus
poderá dizer-nos que o alimentamos quando ele estava faminto, que o
vestimos quando ele estava nu, que o visitamos quando estava enfermo,
que o hospedamos quando ele era um forasteiro e que fomos vê-lo
quando estava preso? Será que ao pensarmos nestes deveres nos
sentimos como a multidão, achando que o discurso de Jesus é
excessivamente duro. Que Deus nos conceda a graça de termos em
nossos corações o mesmo sentimento que havia no coração de Pedro
que, quando foi confrontado com a possibilidade de seguir a multidão,
exclamou: “Senhor, para quem iremos? Tu
tens as palavras da vida eterna” (Jo
6.68). Amém.
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