segunda-feira, 16 de março de 2015

A origem e o propósito do Evangelho


1.1 Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus,
1.2   o qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, 1.3   com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi
1.4   e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor, 1.5   por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os gentios, 1.6   de cujo número sois também vós, chamados para serdes de Jesus Cristo. 1.7   A todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados para serdes santos, graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Rm 1.1-7

Ao dirigir-se à igreja de Roma o apóstolo Paulo apresenta-se como um servo de Jesus Cristo. Este é seu costume em todas as suas epístolas, o que nos mostra que ele praticava aquilo que ensinava, pois, obviamente, ele sabia que tinha o status de filho de Deus por adoção, conforme fica evidente pelo seu ensino sobre este assunto, na própria epístola aos Romanos e também em suas epístolas aos Gálatas e Efésios (cf. Rm 8.15-16,23; Gl 4.4-7; Ef 1.4-5), mas ele cultivava, intencionalmente, o mesmo sentimento que sabia que fora cultivado pelo Senhor Jesus Cristo (Fp 2.5-8). Desta forma sempre se apresentava como servo. É, portanto, na condição de um humilde servo que ele diz ter sido chamado para ser apóstolo e separado para o evangelho de Cristo.
Já, na introdução da epístola, ele nos ensina algumas lições preciosas acerca do evangelho. Nesta reflexão examinaremos o ensino de Paulo acerca da origem e do propósito do Evangelho. Este é o nosso tema. Em primeiro lugar Paulo nos ensina que a origem do evangelho é divina. Não é um modismo que surgiu no século I. Não foi uma corrupção do judaísmo que surgiu na Palestina e depois se espalhou pelo mundo ocidental. Não! O primeiro ensino de Paulo sobre o evangelho tem a ver com sua origem: Ele foi prometido por Deus. Podemos então perguntar: Prometido a quem? E por que? E a resposta é: Primeiramente o Evangelho foi prometido aos nossos primeiros pais, logo após a queda no Jardim do Éden (Gn 3.15). E o motivo da promessa é que o Evangelho é a solução de Deus para a restauração do homem após a queda. Os teólogos chamam esta passagem de proto-evangelho, e nela o evangelho é chamado por Deus de “descendência da mulher”, logo, podemos concluir que o evangelho não é um conjunto de preceitos como a lei, e, sim, uma pessoa. Em seguida, ao chamar Abrão (Gn 12.1-3) e fazer um pacto com ele, Deus preanuncia o evangelho a Abraão dizendo: “Em ti, serão abençoados todos os povos” (Gl 3.8). Ao interpretar esta passagem, o apóstolo Paulo, nos diz: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao seu descendente, que é Cristo" (Gl 3.16). Portanto, a promessa do envio do Evangelho é a promessa do envio de um descendente da mulher, que seria descendente de Abraão, no qual todas as nações da terra seriam abençoadas, e este descendente é Cristo. Ou seja, o evangelho não é uma coisa, não é um conjunto de leis, nem de doutrinas, o Evangelho é uma pessoa, e esta pessoa é Jesus Cristo de Nazaré, o Filho unigênito de Deus.
Quando Israel se tornou um povo, e foi tirado do Egito, antes de entrar na terra de Canaã a promessa foi novamente ratificada, desta vez, com a promessa do envio de um profeta. Este profeta seria diferente dos profetas ordinários que Deus enviava regularmente para falar com seu povo. Ele seria semelhante a Moisés, em seu caráter de legislador e redentor (Dt 18.15). O apóstolo Pedro interpreta esta passagem e a aplica a Jesus, afirmando que ele é o Messias prometido através de Moisés (At 3.22), e identificando-o com o descendente prometido a Abraão (At 3.25).
No decorrer dos séculos esta promessa foi sendo esclarecida, através da pregação dos profetas que falavam inspirados por Deus. Ao mesmo tempo, por inspiração do Espírito Santo ia sendo registrada nas Escrituras Sagradas. Poderíamos citar muitas passagens como exemplo mas bastam algumas das mais significativas como Isaías 9.1-7, Is 52.13-53.12. É significativo que o próprio Jesus, após a sua ressurreição teve o cuidado de instruir seus discípulos sobre o fato de que era necessário que se cumprisse tudo aquilo que “de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (cf. Lc 24.44). Bem, esta era a forma como os judeus se referiam a todo o conjunto de livros do Velho Testamento, ou seja, é o mesmo que dizer: do primeiro ao último livro do Velho Testamento.
A segunda questão importante que o apóstolo nos apresenta é que o Evangelho se manifestou através da pessoa e obra de nosso Senhor Jesus Cristo. Paulo escreve a uma igreja cuja membresia era mista sendo formada de judeus e gentíos. É por isso que ele considera importante informá-los acerca da ascendência de Cristo segundo a carne, pois todos os judeus, piedosos ou não, sabiam que o Cristo viria da descendência de Davi. Sendo da descendência de Davi, Jesus cumpre as profecias messiânicas que afirmavam que ele viria da casa real de Davi. Mas, Jesus, como o messias prometido, não era apenas humano, ele era também divino. É importante lembrar que a promessa inicial diz que ele era o descendente da mulher, não do homem, ou seja, de acordo com a promessa, não haveria participação do homem na geração do filho de Deus que seria enviado ao mundo. Este aspecto da promessa inicial foi esclarecido pelo profeta Isaías quando profetizou: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel” (Is 7.14). Jesus foi gerado no ventre de Maria pelo poder do Espírito Santo (Lc 1.26-35). Este, porém, era um fato do qual somente ela e Deus tinham conhecimento. Era, portanto, natural que José, seu noivo, se sentisse traído, e sendo justo, não querendo denunciá-la, resolvesse abandoná-la secretamente, fato que levou Deus a enviar seu anjo para lembrá-lo da profecia de Isaías e informá-lo de que, o que estava acontecendo era o cumprimento da promessa de Deus (Mt 1.18-23).
Em sua forma humana, Jesus Cristo de Nazaré manifestou o poder de Deus sobre todas as coisas deste mundo. Ele realizou milagres curando milhares de pessoas (Mt 15.29-31), acalmou os ventos e o mar demonstrando seu poder sobre as coisas inanimadas (Mt 8.23-27), multiplicou pães e peixes para alimentar as multidões (Mt 14.13-21: Mt 15.32-39), expulsou demônios demonstrando seu poder sobre os espíritos malignos (Mt 17.18; Mc 5.1-14), mas foi principalmente através da manifestação de sua misericórdia, recebendo pecadores e perdoando-lhes os pecados (Mc 2.5; Mc 2.13-17; Lc 7.47; Lc 15.1-2; Lc 19.1-10; Jo 8.1-11), que Ele manifestou mais plenamente a sua face divina.
Ele também manifestou-se sua divindade ao invadir, na presença de alguns dos seus discípulos, por alguns momentos, a própria eternidade. Fez isto ao se transfigurar diante de Pedro, Tiago e João, conversando por algum tempo com Moisés e Elias (Mt 17.1-8; Mc 9.2-8 e Lc 9.37-42). Nesta ocasião os discípulos não apenas viram Jesus conversando com Moisés e Elias, mas, tiveram o privilégio de ouvir a vós do próprio Deus afirmando que Jesus era seu filho e repetindo a ordem dada por Moisés ao povo de Israel quando prometeu a vinda do Messias: “a ele ouvi” (Dt 18.15).
Finalmente, ele manifestou-se Senhor sobre a vida e a morte. Primeiramente ressuscitando a Lázaro (Jo 11.43-44), ao filho da viúva de Naim (Lc 7.11-17) e a filha de Jairo (Mt 9.23-26). Posteriormente, ressuscitando dentre os mortos e aparecendo vivo aos seus discípulos por um período de quarenta dias (1 Co 15.1-8). O próprio Jesus anunciou que daria sua vida pelas suas ovelhas e que depois ressuscitaria (Jo 10.11-18).
O apóstolo Pedro em casa do centurião Cornélio diz que “… Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele”; e, “Dele todos os profetas dão testemunho …” (At 10.38,43). Portanto, Jesus Cristo de Nazaré é o cumprimento da promessa de Deus, e o Evangelho é a sua vinda, sua vida, seu ensino e sua obra em favor de todos nós.
Isto nos leva ao terceiro ensinamento de Paulo nesta passagem. O Evangelho foi manifestado em nosso benefício. Através do Evangelho recebemos a graça de Deus. A salvação prometida chega a cada um de nós por causa da graça divina (Ef 2.8-10) e não por boas obras que tenhamos praticado. Como o apóstolo Paulo ensina, nenhum ser humano será salvo por causa da prática de boas obras (Gl 2.16). No Evangelho recebemos uma missão (cf. Mt 28.18-20; Lc 24.44-48; Mc 16.15-16; Jo 20.21). No Evangelho recebemos o poder para obedecer a Palavra de Deus (Fp 2.12-13). E, finalmente, no Evangelho recebemos a paz com Deus através de nosso Senhor e Redentor Jesus Cristo (Rm 5.1; Jo 14.27).
O evangelho foi prometido por Deus e não é uma coisa, não é uma coleção de preceitos, ou de doutrinas a serem decoradas e observadas. O Evangelho é uma pessoa e esta pessoa é Jesus Cristo. O evangelho, as boas novas ou boas notícias são o relato de tudo o que Jesus Cristo é e de tudo que Ele ensinou e fez por nós e por todos aqueles que o reconhecem como o Filho de Deus, o Messias prometido, a salvação de Deus enviada ao mundo para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna (Jo 3.16).
Estes fatos precisam nos levar a ação (Tg 2.14-17). Em primeiro lugar não podemos ignorar o fato de que com a graça de Deus recebemos também uma missão. Quem ignora ou rejeita a missão, está ignorando ou rejeitando igualmente à graça. Em segundo lugar, precisamos nos esforçar para obedecer a vontade de Deus. O apóstolo Paulo chega a usar uma linguagem forte “… esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão …” (1 Co 9.27) para descrever o seu esforço para ser um servo aprovado. A graça não é incompatível com a lei, que é a manifestação da vontade moral de Deus, mas, sim, possibilita a sua obediência. É através da obediência que desenvolvemos a nossa salvação (Fp 2.12-13). E, finalmente, em terceiro lugar, temos que viver como pacificadores neste mundo conturbado. Quem desfruta da paz de Deus torna-se igualmente responsável por promover a paz de Deus entre os homens (Hb 12.14; Mt 5.9).

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Deixe a ansiedade e busque o reino de Deus e sua justiça

           “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”.
Mt 6.33

Estas palavras de Jesus, tantas vezes repetidas, e tão mal compreendidas, são o corolário de um argumento incrivelmente simples e de tremendas consequências para a vida daqueles que, de fato, se entregam totalmente à graça do Senhor, atrevendo-se a confiar na sua promessa.

Jesus começa esta seção de seu ensino no versículo 25, encorajando seus ouvintes a deixar de lado a ansiedade a fim de poderem confiar plenamente em Deus. Ele aborda nesta passagem (Mt 6.25-34), duas questões sensíveis a todos os seres humanos: os cuidados relacionados à manutenção da vida e os cuidados relacionados à manutenção da qualidade da vida. Os cuidados com a preservação da vida são representados através daquilo que é mais básico para a preservação da existência de qualquer criatura: A preocupação com o que comer e com o que beber. Já os cuidados com a manutenção da qualidade da vida são representados com as preocupações relacionadas com o que vestir.

Jesus, em sua argumentação, nos convida a considerar tanto a falta de necessidade de ficarmos ansiosos com estas coisas, como a inutilidade de nossa ansiedade. Para demonstrar a falta de necessidade de ficarmos ansiosos, ele nos convida a observarmos as aves dos céus e os lírios do campo. Seu argumento é simples: as aves não semeiam nem colhem, tampouco ajuntam em celeiros, mas Deus as sustenta em todo o tempo. Ora, se Deus se preocupa em preservar a vida das pequenas aves, como ele não se preocuparia em preservar a vida humana, muito mais valiosa, aos seus olhos, do que as aves. Em seguida, ele nos convida a observarmos os lírios do campo. Pequenas flores que crescem por si mesmas, e que os israelitas estavam acostumados a ver em todo canto. Os lírios não desenvolviam as árduas tarefas relacionadas à produção de fios, que seriam posteriormente transformados em tecidos, para a produção de roupas. O argumento de Cristo aqui é contundente: “Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” (v.29). Jesus afirma, deliberadamente, que nem o mais rico e sábio de todos os reis que a nação de Israel havia tido, se vestira tão bem como qualquer um dos lírios que cresciam nos campos daquela nação. Jesus não diz que Salomão não se vestira como o rei dos lírios, ele diz que ele, com toda a sua riqueza, e toda a sua sabedoria, em toda a sua glória, não havia conseguido se vestir como qualquer um dos lírios, que existiam nas campinas de Israel. Aqui, novamente se impõe a lógica do argumento de Jesus: Se Deus veste tão bem a erva do campo, como não se preocuparia em vestir e cuidar dos seres humanos, que são mais valiosos que quaisquer espécies de plantas? Jesus coroa estes dois argumentos com a seguinte afirmação: a vida vale mais que os alimentos e o corpo vale mais que as vestes, e Deus sabe disso e cuida pessoalmente destas necessidades. Com estas duas comparações, Jesus demonstra que não há qualquer necessidade de vivermos ansiosos com relação às necessidades básicas de sobrevivência.

Jesus, porém, não se limita a demonstrar que não temos necessidade de viver ansiosos. Ele também demonstra a inutilidade deste tipo de ansiedade. Ele o faz quando pergunta: “Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (v.27) Esta é uma pergunta retórica. A resposta a ela é, ninguém. Ninguém, por mais ansioso que esteja consegue acrescentar uma hora sequer a sua própria existência. E, este fato, já é anunciado pelo salmista Davi, muitos séculos antes de Jesus assumir a natureza humana e habitar entre nós. Ele o faz nos seguintes termos: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16). Esta passagem nos ajuda a entender a lógica de Jesus, quando pergunta quem pode acrescentar um côvado a sua vida. O que o rei Davi nos ensina nesta passagem é que, embora não possamos entender como, o ser humano nasce com seus dias determinados. Cada ser humano já nasce com um número fixo de dias para viver. E este número de dias não pode ser esticado pelo querer ou pela ansiedade dos seres humanos.

Olhando as manchetes dos jornais, dia a dia, e vendo a violência ao nosso redor, vendo o número de pessoas que morrem jovens, vitimadas por doenças, pela violência do transito ou pela violência dos criminosos, chegamos a pensar que muitos partem deste mundo antes da hora. Temos a impressão que pessoas que partiram deste mundo, viveriam muitos anos ainda, se não fosse aquela circunstância específica que lhes ceifou a vida. O que o rei Davi nos ensina, porém, é que cada um dos dias de nossas vidas foi escrito e determinado, antes que existisse qualquer um deles. O que Jesus pergunta aos seus ouvintes, tem a ver com esta verdade ensinada por Davi. Quem, por ansioso que esteja, consegue esticar em apenas algumas horas, o tempo de vida que foi determinado por Deus, antes que nascêssemos? E, a única resposta verdadeira, é que nenhum de nós tem este poder. Nenhum de nós, por mais ansiosos que possamos estar, por mais que nos preocupemos, por mais que gastemos dinheiro com todo tipo de providências para tentar esticar nossos dias, ninguém é capaz de fazer avançar o tempo determinado pelo Senhor. Por outro lado, nada nem ninguém é capaz de frustrar os propósitos de Deus. Ele criou a vida, ele nos criou, e ele mesmo determinou o tempo de duração de nossa existência terrena. O que Jesus está tentando nos fazer entender, é que o próprio Deus Pai é o responsável por garantir que cada dia determinado para nossa existência se cumpra, e que ninguém tem o poder de impedi-lo, por isso, podemos confiar em sua provisão para nossa existência.

Existem muitas coisas nesta vida que não sabemos. Certo tipo de ignorância, porém, é uma bênção. Não sabemos quantos anos vamos viver. Não sabemos em que circunstâncias vamos morrer. Não sabemos o dia em que isto acontecerá. E podemos dar graças a Deus por este tipo de ignorância, porque a maioria esmagadora dos seres humanos não saberia lidar com este tipo de informação, e viveria em absoluto desespero, ou de modo absolutamente inconsequente. Existe, porém, uma verdade que precisamos conhecer, com respeito a duração de nossa vida nesta terra. É que ela não terminará, nem antes, nem depois, do tempo determinado por Deus. Quando conseguirmos confiar nesta verdade, seremos livres, para gozar a vida abundante que ele planejou para nós. E esta vida abundante começa, em nossa experiência prática, quando começamos a obedecer a ordem de prioridade estabelecida por Jesus. Quando ele nos diz: “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. Jesus não está apenas dando uma ordem e acrescentando uma promessa de bênção aos obedientes. É claro que, qualquer discípulo do Senhor entende, que esta é uma instrução que deve ser obedecida, e que traz consigo uma promessa de bênçãos materiais, mas, não é somente isto. Ele está, na verdade, estabelecendo uma ordem de prioridades que, se obedecida, tem como consequência natural, o acréscimo da parte de Deus, de tudo aquilo que é necessário a manutenção de nossas vidas e da qualidade de vida que vivemos. Ou seja, é quando obedecemos a esta ordem de prioridade, que podemos, de fato, experimentar a vida abundante (João 10.10) que ele veio tornar possível, a cada um dos seus discípulos. O que Jesus está ensinando é que, assim como os pássaros não se preocupam em semear, mas gastam todo o tempo cantando e louvando a Deus, vivendo como Deus planejou que vivessem, e como consequência natural, Deus os sustenta durante todo o período de suas vidas. E, assim como os lírios, que também não trabalham nem fiam, mas, glorificam a Deus, vivendo a vida que ele planejou para eles, e que como consequência natural, são vestidos de uma maneira tão maravilhosa por Deus. Qualquer um de nós, que ousar confiar no Senhor, a ponto de buscar em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça, terá, como consequência natural, estas outras coisas necessárias a existência, acrescentadas pela graça de Deus. Jesus não está dizendo que não devemos buscar outras coisas. Há certamente coisas que devem ser buscadas em segundo e em terceiro lugar. Todos precisamos trabalhar, pois, desde o pecado de Adão, Deus estabeleceu que “No suor do teu rosto comerás o teu pão….” (Gn 3.19), e o apóstolo Paulo, chega ao extremo de dizer: “se alguém não quer trabalhar, também não coma….” (2 Ts 3.10). Ora, estas passagens deixam clara a responsabilidade humana de lutar por sua subsistência, portanto, o que Jesus está nos ensinando, não é que devemos deixar os compromissos de lado, para viver dentro de um templo, ou apenas orando, mas que, de todos os nossos compromissos, os mais importantes são buscar o seu reino e a sua justiça, e uma vez que estejamos engajados em um estilo de vida que demonstre isto, nossos esforços, em outras áreas de nossa atuação, serão influenciados por estas prioridades, e abençoados de tal forma, que as outras coisas das quais necessitamos serão acrescentadas, naturalmente, a cada um de nós. Neste ponto, cabe então perguntar: O que significa buscar o reino de Deus? Como podemos buscá-lo? E o que significa buscar a justiça do reino? É importante definirmos primeiro o que é o reino de Deus.

Muitos tem entendido que o reino de Deus é composto pela igreja, mas, na verdade, embora a igreja seja parte do reino, ela não pode ser definida como sendo a totalidade do reino de Deus. Gosto de pensar no reino de Deus como sendo a totalidade do universo. Em todo lugar onde o governo de Deus está instalado, ai está o reino de Deus. Jesus chegou a dizer aos fariseus que o inquiriam que o reino de Deus estava “dentro de vós” (Lc 17.21). Naturalmente, ele não estava ensinando que o reino estava dentro dos fariseus incrédulos, mas entre eles, no meio da nação. Creio que ele quis dizer que, onde quer que alguém estivesse obedecendo a Deus, ou seja, onde quer que alguém aceitasse o seu governo, ali estava o reino de Deus em ação. Buscar o reino de Deus em primeiro lugar, portanto, é buscar colocar-se sob o governo de Deus. Esta é a principal preocupação que devemos ter na vida. Devemos procurar, sempre, ter a certeza que cada uma de nossas ações, seja no âmbito do trabalho secular, em nossas atividades recreativas ou em nossas relações eclesiásticas, tudo o que fizermos, reflete a escolha consciente, de nos colocar sob o governo divino. Que nossas ações sejam marcadas pela obediência a vontade revelada de Deus. E, é evidente que, do ponto de vista carnal, não temos quaisquer condições de viver este estilo de vida (cf. Rm 7.14-20). É por isso que se faz necessário lançar mão dos recursos, que o próprio Senhor Jesus utilizou, para viver sua vida entre nós (Fp 2.12-13). Ele dedicou-se intensamente a oração e ao estudo da palavra de Deus, e nós devemos fazer o mesmo, pois, é na intimidade com o Senhor, que encontramos forças para vivermos em obediência à sua palava.

E quanto a buscar a justiça do reino? Bem, está questão está intimamente ligada a anterior e diretamente subordinada a ela. É impossível buscar a justiça do reino, sem antes buscar o reino. Esta é uma daquelas questões, que nos revelam a total incapacidade dos governantes deste mundo, de implantarem um governo justo, para todos os seus cidadãos, sem levar em conta os ditames da palavra de Deus. Buscar o reino de Deus, é buscar colocar-se sob o governo de Deus. E buscar a justiça do reino de Deus, é relacionar-se com as pessoas ao seu redor, a partir da obediência aos valores do reino. Aqueles que não buscam conscientemente se colocar sob o governo de Deus, jamais conseguirão governar bem em nome de Deus. O apóstolo Paulo resumiu toda a lei de Deus, ou seja, todos os valores do reino de Deus, em um único preceito, ao dizer que: “… toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14). Buscar a justiça do reino de Deus, portanto, é procurar relacionar-se com as pessoas ao seu redor, a partir do princípio de que é preciso amar as pessoas de maneira incondicional. Amar, não porque as pessoas ao nosso redor merecem ser amadas, certamente elas não merecem, mas, porque elas precisam ser amadas. Jesus não nos amou porque merecíamos ser amados, mas, porque, precisávamos desesperadamente do seu amor. Buscar a justiça do reino de Deus, significa viver uma vida semelhante àquela que o próprio Jesus viveu. Esta é a exortação do apóstolo Paulo, quando nos desafia, dizendo: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef 5.1-2). Ninguém, neste mundo, buscou mais o reino de Deus e a sua justiça, do que o próprio Senhor Jesus Cristo. Buscar, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, significa procurar ser um imitador de Jesus Cristo. Imitá-lo em sua vida de oração; imitá-lo em seus relacionamentos pessoais; imitá-lo na forma como ele dava testemunho das coisas de Deus; imitá-lo na forma como ele condenava o pecado humano, sem, no entanto, condenar o ser humano. Principalmente, imitá-lo na sua atitude perdoadora em relação àqueles que são flagrados em alguma falha ou pecado grave, ainda que jamais relativizando a gravidade do pecado (João 8.1-11).
Nossos problemas geralmente podem ser resumidos a um só. Aturdidos pelas necessidades e enganados pela ansiedade, em conseguir as coisas que são essenciais a manutenção da vida, geralmente, invertemos as prioridades estabelecidas por Jesus. Em primeiro lugar, nos desgastamos com o trabalho secular, para garantir o dinheiro necessário a fim de bancar as necessidades da vida; depois gastamos uma parcela significativa de nosso tempo restante, para nos divertir e distrair, a fim de nos refazermos emocionalmente do estresse causado pelo trabalho; e só então, se sobrar um tempinho, nos lembramos de Deus e das coisas de Deus; e se o cansaço não for muito, então nos dispomos a dar uma passadinha no templo; e a assistirmos um culto de adoração ao Senhor. Ou seja, em vez de darmos ao Senhor, as primícias de nosso tempo, de nossa atenção, de nossas forças e de nossas alegrias, damos a ele, na melhor das hipóteses, as sobras. Isto quando damos alguma coisa, pois, há muitos que, por se sentirem cansados, não dão nada a Deus durante o dia inteiro, lembrando-se dele apenas em alguma necessidade urgente. O convite de Jesus Cristo é para invertermos esta rotina. Que deixemos a ansiedade com as coisas relacionadas a esta vida, e busquemos o seu reino e a sua justiça em primeiro lugar, confiando que, as demais coisas, nos serão amplamente acrescentadas.

Buscar o reino de Deus e a sua justiça, porém, implica em pelo menos duas outras coisas. A primeira é o compromisso com a igreja de Deus. Muitos, nos dias de hoje, se dizem cristãos, porém, rejeitam assumir quaisquer compromissos com a igreja. O Senhor Jesus, porém, jamais ensinou ser possível tornar-se um dos seus discípulos, sem ser membro de sua igreja. Uma forma mais branda desta postura, é aquela adotada por aqueles que não rejeitam a igreja em si, porém, se limitam a assistir a um culto uma vez ou outra, chegando há ficar meses sem aparecer no templo, ou sem experimentar qualquer outra forma de comunhão com os irmãos. O escritor aos hebreus nos admoesta para que: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quento vedes que o Dia se aproxima. Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10.25-27). Ora, é evidente que o autor sacro supracitado, considerava o ato de abandonar a igreja, ou de não assumir compromisso com a mesma, como uma decisão de viver deliberadamente em pecado, e é claro, que quem vive deliberadamente em pecado, não está, de modo algum, buscando o reino de Deus.

A segunda responsabilidade de quem busca em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, é o compromisso de ser uma fiel testemunha de Cristo. Em diversas ocasiões, Jesus ordenou que seus discípulos dessem testemunho acerca de sua pessoa e de sua obra, e deixou claro que, este é o único meio de alcançar aqueles que foram destinados à salvação (Mc 16.15-16; Jo 20.21-23; At 1.8; Mt 28.18-20). Ninguém, que sinceramente busca o reino de Deus e sua justiça, pode deixar de ser uma testemunha idônea do Senhor Jesus Cristo.

Estes são, portanto, os compromissos que precisamos assumir, se queremos, de fato, buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça. Se assim o fizermos, a promessa de Jesus é que todas as outras coisas de que necessitamos, nos serão acrescentadas. Que Deus nos abençoe, capacite e ajude a sermos fiéis. Amém.

O que celebramos no Natal?


           “Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura. E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem”.
Lc 2.8-14



Em uma época em que o Natal é celebrado com significados tão diferentes, por pessoas tão diferentes como os budistas japoneses, os ateus europeus e americanos, que podem ser divididos em dois grandes grupos, que são os ateus práticos, que formam a maioria esmagadora dos ateus e os ateus dogmáticos, que são aqueles que buscam argumentos lógicos para negar a existência de Deus, os comunistas russos e chineses, os agnósticos, os espíritas: Kardecistas, umbandistas, adeptos do candomblé e da quimbanda, e, milhões de pessoas sem religião definida, mas que afirmam, acreditar na existência divina, e praticar algum tipo de espiritualidade. Em um tempo em que, por outro lado, muitos líderes de igrejas evangélicas, tem ensinado suas congregações a não celebrar o Natal, tratando esta celebração como uma festa pagã, é importante refletirmos acerca do que significa o Natal, e o que nós, servos do Senhor, temos para celebrar nesta época do ano.

A partir do texto de Lucas, quero avaliar algumas verdades, que deveriam nos levar a reflexão, e a uma avaliação sincera, dos nossos verdadeiros motivos para a celebração do Natal. A primeira destas verdades, é que a data precisa do nascimento de Jesus Cristo é desconhecida. O texto sagrado não nos dá quaisquer indícios, que nos permitam afirmar, em que época do ano, Jesus Cristo nasceu. Alguns dos líderes, que não celebram mais o natal em suas comunidades, alegam que, o fato de naquela região, o mês de dezembro ser inverno, torna impossível que Jesus tenha nascido nesta época do ano, pois o rebanho estava sendo cuidado a céu aberto, e segundo eles, isto significa que não poderia ser inverno. Esta é uma afirmação equivocada, pois, naquela região, os animais usados para o sacrifício no templo, eram mantidos nos campos, mesmo no inverno. Esta questão de data, portanto, jamais deveria ser um empecilho, para, quem quer que seja, deixar de celebrar o Natal. Outros alegam que já celebram a vinda de Cristo o ano inteiro, e que, portanto, não há necessidade de celebrar o Natal, em um dia específico. Quero dizer que conheço muitos líderes que adotam tal argumento, mas que, em suas vidas pessoais, jamais deixaram de celebrar o próprio aniversário em data específica, ou o aniversário dos filhos, ou o aniversário de casamento. Este, portanto, é outro argumento fraco para justificar a não celebração da encarnação do Filho de Deus. Devemos nos perguntar: O que, de fato, aconteceu de importante naquela noite em Belém, que deveria ser celebrado por nós? Afinal de contas, o que há de mais, no fato de uma mulher pobre, dar a luz, solitária, em algum lugar perdido, de uma região rural da Palestina, a mais de dois mil anos atrás? Não haveria nada a celebrar, se o fato não tivesse sido celebrado nos céus. O texto sagrado nos informa que, logo após o anuncio do nascimento de Jesus, por parte do anjo enviado por Deus, “subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial louvando a Deus…” exatamente pelo fato de Jesus ter nascido naquela noite. Sem dúvida, aquilo que foi digno de ser celebrado pelos anjos de Deus, deve ser digno de ser celebrado por aqueles, a quem Jesus veio buscar e salvar. A milícia celestial celebrou o nascimento de Jesus, louvando a Deus na presença dos pastores, e, nós também, devemos celebrar o nascimento do Salvador, louvando a Deus, na presença de todos aqueles que ainda não o conhecem como seu Senhor e Salvador, na esperança de que, alguns sejam alcançados pela sua graça, e venham a fazer parte do seu povo. Neste ponto, precisamos perguntar: O que devemos celebrar no Natal? Em primeiro lugar, celebramos a encarnação do verbo divino. Os deístas, afirmam que Deus criou o mundo e, como um relojoeiro que dá corda no relógio e o põe para funcionar, Deus teria colocado ordem no mundo e, após estabelecer suas leis básicas de funcionamento, se afastou, deixando-nos a sós, com a responsabilidade de resolver os nossos próprios problemas. Esta é a meu ver, a doutrina da omissão divina. Um erro crasso. Uma doutrina ótima para atender aos interesses dos poderosos deste mundo, mas que nos deixa sem alguém a quem chamar de Pai. O nascimento de Jesus prova-nos que Deus não se omitiu em vista da nossa miséria. Ao contemplar a nossa condição decaída, e nossa completa incapacidade de fazer algo em nosso próprio benefício, o Senhor, movido de compaixão, nos enviou seu próprio filho, a fim de nos redimir de nossos pecados. Ao celebrar o nascimento de Cristo, celebramos o fato dele, por amor a nós, ter deixado a sua glória e entrado no estado de humilhação, assumindo a natureza humana e todas as suas limitações, assumindo entre os homens a condição de servo, pois ele mesmo disse que “… não veio para ser servido mas para servir…” (Mt 20.28; Mc 10.45), e, nesta condição, se humilhou e foi obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2.5-8).

Em segundo lugar, celebramos sua identificação conosco. A palavra de Deus nos diz que o mundo inteiro jaz no maligno (1 João 5.19b). Ou seja, nesta presente era, este mundo está sob o poder controlador do diabo. As evidências deste fato são inúmeras. Entre muitas outras, podemos destacar: o sofrimento generalizado da humanidade, as guerras, as doenças e a morte. Uma das maiores evidências, porém, de que o mundo jaz no maligno, é o estado de miséria moral do ser humano, e a dominação cruel que os ricos e poderosos exercem sobre os pobres. Ao profetizar a vinda do messias, Isaías nos informa que seu nome seria Emanuel, que quer dizer, Deus conosco (Is 7.14). Isto não significa que Isaías queria dizer que Jesus se identificaria com a humanidade de modo universal, como alguns defendem, mas, que ele estaria conosco, com aqueles que aceitassem o seu chamado, e se submetessem à sua autoridade. Quando os anjos vem anunciar o nascimento de Jesus, fica claro o seu compromisso com aqueles que estão desassistidos neste mundo. Eles não anunciam seu nascimento no palácio de Herodes, nem no Palácio do governador romano, nem tampouco, no templo, ou na casa do sumo sacerdote. Eles anunciam seu nascimento a um grupo de pastores que guardavam o rebanho no campo. Ora, o que há de significativo nisto? Bem, para começar os pastores eram uma das classes sociais mais pobres daquela época. Eram desprezados pelos religiosos, pelo fato de que sua profissão não lhes permitia a guarda da lei cerimonial, e, como viajavam pelo país inteiro, em busca de pastagens para os rebanhos, alguns acabavam tornando-se ladrões, o que colocava toda a classe dos pastores sob suspeita, de modo que seu testemunho sequer era aceito nos tribunais. Enfim, era uma classe totalmente desprezada, apesar do importante trabalho que realizavam. Deus quis anunciar o nascimento de seu filho, primeiramente, aos que eram desprezados por aqueles que se julgavam importantes, do ponto de vista social, político e religioso. Em segundo lugar, as condições do nascimento de Jesus, igualmente, demonstram, a opção do Senhor, em identificar-se com os fracos deste mundo. Ele nasceu de uma virgem pobre, sabemos disso porque ao nascer, precisou ser colocado em uma manjedoura. Seu primeiro berço foi um lugar onde os animais comem. E, finalmente, seus pais, ao apresentarem-no no templo, cumprindo os preceitos da lei, para a purificação de Maria, tiveram que oferecer a oferta daqueles que não tinham recursos financeiros, ou seja, em vez de um cordeiro para holocausto e um pombo pela oferta pelo pecado, foram obrigados, pela falta de recursos financeiros, a oferecer a oferta que os pobres eram obrigados a oferecer, um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lv 12.6-8; Ex 13.2). Celebramos, portanto, o fato de Jesus ter se identificado conosco, a fim de salvar-nos. Ao anunciar, aos pastores, o nascimento de Jesus, o anjo do Senhor nos fala de sua humildade, ao nos dizer que ele seria encontrado em uma manjedoura; nos fala de sua missão, ao nos informar que ele seria o salvador; e nos fala de sua glória, ao nos dizer que ele é o Senhor. Um senhor que deixou a sua glória, e assumiu a nossa humanidade, para nos resgatar de nossa miséria. Um senhor que, diferente do que fazem os senhores neste mundo, que põem fardos pesados nos ombros de seus servos, nos convida a nos aproximar dele, a fim de acharmos descanso para nossas almas  (Mt 11.28-30).

Em terceiro lugar, celebramos nossa eleição, para a salvação, pela fé em Cristo. Ao contrário daquilo que ensinam, aqueles que apregoam uma salvação universal, a milícia celestial, que aparece diante dos pastores, ensina uma expiação limitada. Este é o ensino claro, expresso no louvor da milícia celestial, que aparece repentinamente diante dos pastores, e que louvavam a Deus dizendo: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem”. Os anjos não dizem paz na terra entre todos os homens, mas apenas, entre aqueles a quem ele quer bem. Ora, os que defendem a salvação universal, afirmam que todos os homens serão salvos ao final dos tempos, mas não é isto que o Novo Testamento ensina. O anjo, que foi enviado a José, para tranquilizá-lo, quando ele pensava deixar Maria, secretamente, lhe diz acerca da missão de Jesus: “…ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). O anjo deixa claro a José que Jesus viria salvar o seu povo, e não todo o povo, mas somente aqueles que seriam o seu povo, ou seja, a sua igreja (Mt 16.18). Ele não disse a José: Ele salvará o teu povo, indicando o povo judeu, que era o povo ao qual José pertencia. Ao usar o possessivo, “seu”, o anjo, que se dirige a José, deixa claro que está se referindo ao povo do Senhor. E o próprio Senhor Jesus Cristo deixou claro que não veio salvar todos os seres humanos, mas apenas aqueles que reconhecia como seus. Em sua oração sacerdotal, ele ora ao Pai e deixa claro que não está orando por todos os seres humanos, mas diz claramente ao Pai que: “não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (Jo 17.9). Jesus, nesta passagem, faz uma clara distinção entre “aqueles que me deste”, pelos quais ele orava, e aqueles outros, que estavam no mundo, mas pelos quais ele não orava. Portanto, o nascimento de Jesus, não beneficia a todos, em termos de vida eterna, mas somente àqueles que, eleitos por Deus, ao ouvirem o chamado da graça, entregam-se aos ternos cuidados do Salvador (Ef 2.8-9). Celebramos, portanto, o privilégio de estarmos em Cristo, de termos sido eleitos pela graça de Deus para a salvação, em um mundo que jaz em trevas, e que caminha rapidamente para a destruição.


Em muitos países o natal não é celebrado. Geralmente nos países em que o cristianismo é uma religião proibida, e onde predominam outras religiões. Esta é uma situação natural do ponto de vista lógico. Aqueles que não reconhecem Jesus como o Messias e o Senhor, não podem reconhecê-lo, e nem tê-lo, como Salvador, portanto, para estes, nada há para celebrar nesta época do ano. O que não é lógico, nem natural, são as festas realizadas pelos milhões de pessoas que celebram o Natal sem reconhecer Jesus como Senhor, e sem tê-lo como Salvador. Quero terminar esta reflexão com uma pergunta pessoal: E você, tem alguma coisa para celebrar neste Natal? 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fundamentos necessários para que a igreja cumpra sua missão

 “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número”.
At 9.31

Quando Lucas se dispôs a escrever sobre a conversão do apóstolo Paulo, foi necessário falar acerca da perseguição movida contra a igreja, perseguição que vinha de todos os lados, e no contexto da qual Saulo era apenas mais um dos perseguidores. O capítulo 9 do livro de atos dos apóstolos narra apenas os detalhes relacionados ao apóstolo Paulo e, mostra como ele passou da condição de perseguidor para a condição de perseguido, tão logo converteu-se a Cristo.

É justamente por falar da perseguição e do intenso sofrimento do povo de Deus, que o apóstolo Lucas se apressa a esclarecer que, na verdade, apesar de toda a guerra que lhe era movida externamente, a igreja, internamente, tinha paz em toda a Judeia, Galileia e Samaria. O que aprendemos no capítulo 9 de Atos dos Apóstolos é que, embora o ambiente externo fosse de ódio e perseguição, o ambiente interno da igreja estava cheio de amor e paz. A igreja desfrutava a paz de Cristo (Jo 14.27) e impactava a sociedade ao seu redor a ponto de reconciliar em seu interior povos tão antagônicos como os judeus e os galileus, e os judeus e os samaritanos. Em suma, Lucas está nos dizendo que os obstáculos externos, apesar de formidáveis, não eram capazes de impedir o avanço da igreja no cumprimento de sua missão.

Este fato nos força a refletir acerca dos motivos pelos quais aquela igreja que acabara de nascer, em pouquíssimo tempo, tornou-se tão forte e influente. Quero destacar nesta passagem, quatro fundamentos básicos para o sucesso da igreja primitiva, no cumprimento de sua missão, e que podem trazer vitalidade a qualquer igreja local, em qualquer tempo e lugar. Fundamentos que podem trazer vitalidade a nossa vida e ao nosso testemunho pessoal aqui e agora.

O primeiro deste fundamentos é a paz de Cristo. Ao despedir-se de seus discípulos Jesus, entre outras coisas lhes disse: “deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo(Jo 14.27). Jesus ao afirmar aos discípulos que lhes deixava sua paz como herança a ser desfrutada neste mundo, se apressa a deixar claro que sua paz não era dada da forma como a paz do mundo era dada. Neste mundo a paz é de natureza externa, e é caracterizada pela ausência de conflitos ou perseguições. No tempo de Cristo o mundo vivia sob a Pax Romana. Era a paz do poderoso império Romano imposta aos povos subjugados. Não haveria conflitos, não haveria guerras e nem perseguição do poderoso império sobre as nações vencidas, desde que estas aceitassem pagar os pesadíssimos impostos que lhes eram cobrados. Esta era a paz possível entre os povos. Esta mesma modalidade de paz também é dada pelo mundo no nível dos indivíduos. Os poderosos impõem sua vontade sobre os mais fracos, que se submetem e assim se cria a condição para a manutenção da paz. É um tipo de paz exterior, caracterizada pela ausência de conflitos e pela aceitação da injustiça dos mais fortes sobre os mais fracos. Uma outra forma de paz que o mundo dá é aquela baseada na igualdade entre os indivíduos ou entre as nações. Quando as forças se equivalem, e o conflito pode gerar mais danos que lucros para ambos os lados, celebra-se a paz, baseada no temor mútuo. Todas estas formas de paz tem uma característica em comum: São temporárias. A paz se evapora assim que as condições que a sustenta mudam.

A paz de Cristo é de outro tipo. Não é de natureza externa mas interna. Não depende da ausência de conflitos, mas se mantém inalterada mesmo em meio aos maiores conflitos. Não tem sua base de sustentação em condições estabelecidas pelos poderosos deste mundo, mas se sustenta na obra realizada na cruz, por Jesus Cristo de Nazaré. Aqueles que possuem esta paz em seus corações podem manter paz uns com os outros, mesmo que estes outros sejam inimigos mortais, desejosos de lhes tirar a própria vida. É por isto que o apóstolo Paulo, ao descrever o Reino de Deus, exclui quaisquer aspectos relacionados a vida exterior como comida e bebida mas inclui a paz vinculada a ação divina como um dos seus ingredientes:Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Paulo deixa claro que não é qualquer tipo de justiça, nem qualquer tipo de paz, nem qualquer tipo de alegria, mas são as três coisas praticadas ou desfrutadas no Espírito Santo. A paz de Cristo é algo que só se desfruta quando estamos em íntima relação com o Espírito de Cristo. E uma íntima relação com o Espírito do Senhor só acontece quando nossa fé, amadurecida, consegue chegar ao ponto de orar como o próprio Senhor Jesus orou no Getsemâni: “… contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc 22.42b). A paz de Cristo se caracteriza pela serenidade diante das lutas e tribulações desta vida, entendendo e crendo que as promessas do Senhor são sempre verdadeiras e que seus motivos sempre são bons. Foi por este motivo que o Senhor, em seus momentos finais com seus discípulos, os alertou dizendo: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33). A paz de Cristo é o fundamento básico sobre o qual podem vicejar os outros fundamentos que permitem que a igreja consiga cumprir a sua missão. O apóstolo Tiago no diz que: “… é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz” (Tg 3.18). E pela mesma razão o apóstolo Pedro nos exorta dizendo: “aparte-se do mal, pratique o que é bom, busque a paz e empenhe-se por alcançá-la” (1 Pe 3.11).

Queridos, a igreja só desfruta a paz de Cristo quando seus membros, crendo que tudo coopera para o bem dos que amam a Deus (Rm 8.28), desistem de impor a paz do mundo que se caracteriza pela prevalência da vontade dos mais fortes sobre os mais fracos e aceita a vontade de Cristo que se caracteriza pela submissão mútua de uns aos outros no temor de Cristo (Ef 5.22). Empenhemo-nos por encontrar e desfrutar esta paz.

O segundo fundamento de uma igreja que cumpre sua missão é a edificação mútua. Lucas nos informa que a igreja tinha paz, edificando-se… É importante observar aqui que, por maior que fosse a importância dos apóstolos naqueles momentos iniciais da vida da igreja, o Espírito Santo não nos diz que a igreja era edificada por eles. Jesus afirmou que ele edificaria sua igreja sobre seu próprio fundamento (Mt 16.18) e ele continua a edificá-la usando cada um dos que se deixam encher pelo seu Espírito. É por esta razão que o apóstolo Paulo nos exorta para que: “… seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo; de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15-16). Queridos, estas palavras do apóstolo Paulo deixam claro que a responsabilidade pela edificação da igreja é uma responsabilidade compartilhada por todos os seus membros. Não existe qualquer base escriturística para a ideia de que os discípulos de Cristo podem ser membros da igreja sem assumir responsabilidades por seu próprio crescimento espiritual, pelo crescimento espiritual dos outros discípulos, e, pelo alcance daqueles que ainda não conhecem a Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. A ideia de que o crescimento da igreja é tarefa de seus líderes, eleitos ou contratados é completamente antibíblica e totalmente absurda. É uma ideia forjada no inferno, e habilmente disseminada por Satanás no seio da igreja. Quero ilustrar este fato da seguinte maneira: Imagine que uma nação que está sendo atacada por um poderoso exército inimigo fizesse uma assembleia para debater a melhor estratégia para se defender e atacar seus adversários, e nesta assembleia a população decidisse que para lutar as batalhas desta importante guerra bastava que seus principais líderes fossem designados para o campo de batalha, enquanto os cidadãos continuavam cada um cuidando de seus próprios interesses particulares. Não é necessária muita inteligência para perceber que esta é a estratégia de uma nação a caminho da derrota. Quando a meia dúzia de líderes deste povo se encontrassem no campo de batalha com os milhares e milhares de soldados inimigos, não seria necessário muito tempo para a derrota desta nação. Por incrível que pareça, esta é a ideia que a maioria do povo de Deus aceitou como válida. Frente as inumeráveis hostes de Satanás, a maioria esmagadora dos membros da igreja de Cristo continua a aceitar os argumentos do diabo, acreditando que basta que o pastor e alguns outros líderes eleitos, combatam as batalhas da igreja, enquanto que os crentes continuam cuidando cada um dos seus próprios interesses particulares. Esta é a razão porque mais de 80% das igrejas não conseguem ser eficientes na tarefa de dar testemunho, e alcançar os incrédulos para Cristo. É necessário que a igreja aceite a verdade bíblica segundo a qual ela é responsável pela sua própria edificação e crescimento.

O terceiro fundamento de uma igreja que cumpre a sua missão é que ela caminha no temor do Senhor. Deveríamos nos perguntar: O que é o temor do Senhor? E a resposta bíblica para isto é que o temor do Senhor é um misto de medo e reverência. Ou seja, o temor do Senhor é um medo reverente que leva em conta tanto a sua bondade quanto a sua severidade. É disto que o apóstolo Paulo trata quando diz: “Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte, também tu serás cortado” (Rm 11.22). Nesta passagem o apóstolo está tratando do problema da rejeição da nação de Israel que, por sua desobediência a Deus e seu fracasso em cumprir sua missão de ser uma testemunha para as outras nações, foi lançada fora, sendo colocada no seu lugar, para cumprir a mesma missão, a igreja de Cristo. O apóstolo aqui nos convida a considerar a bondade de Deus, que nos chama, sem nenhum merecimento, e nos credencia para realizar, sob a instrução e debaixo do poder do seu Espírito, a tarefa de edificar a sua igreja, sendo uma testemunha para o mundo. Andar no temor do Senhor implica em levar em conta a severidade de Deus que já rejeitou a Israel, justamente porque esta nação se recusou a ser fiel e obediente no cumprimento da missão para a qual fora criada. A promessa de Deus, nesta passagem, é que se a igreja for infiel, como o foi a nação de Israel, também ela será cortada. Andar no temor do Senhor é entender que Deus não tem nenhum compromisso conosco a parte daqueles que ele assumiu aos estabelecer conosco a sua aliança em Cristo. Assim como na antiga aliança, feita com a nação de Israel, havia promessas de bênçãos para os obedientes e promessas de castigo para os desobedientes, na nova aliança, feita com a igreja, igualmente existem promessas de bênçãos para os obedientes e promessas de castigo para os desobedientes (Hb 12.4-12; Ap 3.19). Todas as promessas de Deus, feitas a Israel, pertencem hoje a igreja, tanto as de bênçãos no caso da obediência aos seus mandamentos, quanto as promessas de castigo, no caso da desobediência. Andar no temor do Senhor é ter a certeza de que a desobediência será severamente castigada, e, por medo deste castigo, viver uma vida de obediência à vontade revelada de Deus.

O quarto fundamento de uma igreja que cumpre a sua missão é que ela caminha no conforto do Espírito Santo. Viver em comunidade é viver em meio a conflitos. A igreja é uma comunidade que, por sua própria definição, é uma comunidade propensa ao conflito. Isto, porque, na igreja, unem-se pessoas de todo tipo, sem distinção de cor, raça, sexo, condição social, cultural ou econômica. A igreja de Jesus é composta de pessoas que tem as mais variadas origens, culturais e religiosas, e todos trazem seus costumes particulares e suas histórias de vida. Este fato gera diferenças de todos os tipos. E estas diferenças, muitas vezes, colocam as pessoas em conflito umas com as outras. A forma como estes conflitos são resolvidos nem sempre é a melhor e mais sábia, gerando frustração e tristezas. O que fazer quando isto acontece? O que fazer quando nos sentimos injustiçados? O que fazer quando somos feridos pelas palavras duras de algum irmão imaturo ou injusto. Nestes momentos, como nos diz o apóstolo Pedro, Satanás está a espreita, rugindo em derredor, a procura de alguém a quem possa devorar (1 Pe 5.8). E como ele devora aqueles a quem ataca? Satanás consegue sua vitória sobre nós quando nos lança uns contra os outros. Ele está te devorando quando te convence a procurar vingança contra seus irmãos em vez de amá-los e de servi-los por amor a Cristo. Ele está te devorando quando te convence a abrir sua boca para difamar aqueles por quem Jesus Cristo morreu, e a quem ele colocou ao seu lado, para lutar junto com você pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos. Satanás está te devorando, toda vez que te convence que você pode ignorar a vontade de Deus e fazer a sua, a fim de evitar o sofrimento e a humilhação, que podem te alcançar, por fazer neste mundo, a vontade de Deus. É nestes momentos que precisamos lembrar que o consolo divino está disponível para quem o busca, na intimidade com o Espírito Santo.

Hoje em dia está na moda, em certos grupos eclesiásticos, o cântico de músicas dizendo que o anjo está trazendo sua vitória. Quero dizer que não existe exemplo nas Escrituras, de um único anjo de Deus, enviado a alguém com o propósito único de trazer vitória em algum empreendimento particular. Mas há exemplos de anjos agindo para garantir o cumprimento da vontade de Deus pelos seus discípulos, como quando Pedro foi liberto da prisão (At 12.6-8), e também para consolar o próprio Senhor Jesus, quando este, no Getsemâni, orava pedindo, se possível, livramento ao Pai (Lc 22.39-43). É importante frisar que Deus não deu o livramento pedido por Jesus, mas o conforto, enviado pelo Espírito Santo, o capacitou a cumprir a sua missão, e, somente por isso, estamos aqui. Que Deus nos abençoe ricamente e nos capacite a desfrutar da paz de Cristo, a nos edificar mutuamente, a andar no temor do Senhor e, no conforto do Espírito Santo. Amém.

Amai os vossos inimigos.

 “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo, Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”.
Mt 5.43-48

Jesus, pela sexta vez consecutiva, dirige-se aos seus ouvintes dizendo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos”; e, como das vezes anteriores, ele corrige o ensino errados dos escribas e fariseus. Ocorre que estes interpretavam a ordem dada a nação de Israel em Lv 19.18, de maneira extremamente estreita, ensinando que o próximo era apenas o vizinho ou parente judeu, e considerando todos os estrangeiros como inimigos, que poderiam e deveriam ser odiados. O ensino dos escribas e fariseus neste ponto era tão radical que chegava mesmo a considerar como um dever religioso o ódio aos estrangeiros e aos inimigos. Ocorre, porém, que de acordo com o Senhor, o próximo seria qualquer pessoa que estivesse necessitada e ao alcance do nosso socorro (Lc 10.29-37), e que isto deveria se estender inclusive aos nossos inimigos. Ao ensinar os seus discípulos acerca do amor aos inimigos, Jesus deixa claro alguns princípios importantes que não podem deixar de ser observados pela igreja. O primeiro destes princípios é que aqueles que amam aos que os amam não estão fazendo qualquer coisa de mais. Não existe qualquer mérito em amar aquelas pessoas que nos amam. Amar apenas aqueles que nos amam faz com que nos contentemos em estar nivelados àqueles que são desonestos ou corruptos. É isto que Jesus afirma ao comparar os que amam apenas os que os amam aos publicanos. Todos conheciam a fama de desonestos e corruptos dos coletores de impostos. A maioria deles cobravam muito mais do que deviam, e por isso eram odiados por toda a nação. Por este motivo ele pergunta: “Se amardes os que os amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?” A resposta lógica à pergunta de Jesus é que assim como um publicano desonesto não merece nenhuma recompensa por amar aqueles que o amam, também nós não merecemos nenhuma recompensa especial por amar aqueles que nos amam. E, por que, perguntaríamos, não merecemos recompensa por amar os que nos amam? Pelo simples fato que amar aos que nos amam não envolve conversão, nem fé, nem obediência a Deus. A maior prova deste argumento é que os desonestos publicanos tem a capacidade de amar aqueles que os amam. Eles amam seus familiares e seus amigos publicanos. Igualmente todos os homicidas tem a capacidade de amar aqueles que os amam. Os ladrões, os políticos corruptos e os estupradores também tem a capacidade de amar aqueles que os amam. Se nos dispusermos a amar, apenas aqueles que nos amam, nos colocamos em igualdade de condições com estas pessoas, que não receberão nenhuma recompensa por amar os que os amam, porque este tipo de amor é de natureza carnal, terrena e animal, e pertence aquela espécie de atributo com que todos foram dotados pela criação natural, apesar de sua natureza humana estar degenerada pelo pecado. Tal amor não envolve fé. Não envolve obediência a Deus. Para amar apenas aqueles que nos amam, não precisamos do poder do Espírito Santo, não precisamos nascer de novo, não precisamos ser novas criaturas, não precisamos ser crentes.

Jesus avança em seu argumento ensinando que o amor se manifesta em atos. Ele pergunta: “E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?” Aqui o Senhor deixa claro que os atos de amor dos seus discípulos precisam ser estendidos também aos que não fazem parte do povo de Deus. A saudação é um dos mais básicos e simples atos de amor que alguém pode realizar. Deixar de saudar alguém é algo tão grosseiro que mesmo os mais ferrenhos adversários costumam saudar-se quando se encontram em público, a vista de outras pessoas. Devemos entender aqui, que o ato de saudar alguém é apenas uma ilustração simples, que o Senhor utiliza de modo genérico. O que devemos aprender com esta passagem é que nossos atos de amor não podem ficar restritos aos que são nossos irmãos, mas devem ser igualmente realizados em benefício de todos os necessitados, independente de quem sejam. É por isso que Jesus compara aqueles que saúdam apenas a seus irmãos aos gentios. Os gentios, aqueles que não faziam parte do povo de Deus, também se saudavam mutuamente. E, novamente, a mesma lógica se impõe: fazer o bem apenas aos que são nossos irmãos ou amigos é um instinto natural, não depende de fé, de conversão e muito menos é um ato de obediência a Deus. A prova disto é que, os gentios que não conhecem a Deus, o fazem regularmente, desde o princípio do mundo.

Os escribas e fariseus, com seu ensino equivocado acerca de quem era o próximo dos judeus, haviam tornado praticamente impossível à nação de Israel, a obediência daquele que Jesus afirmou ser o segundo maior de todos os mandamentos (cf. Mc 12.31,33 e Lv 19.18b). O povo judeu, enquanto nação teocrática, simplesmente falhou na sua missão de revelar a glória de Deus às outras nações. Quando estrangeiros peregrinavam em Israel, ou entravam em contato com o povo de Israel, em vez de serem impactados pela manifestação do amor de Deus, tudo o que viam e percebiam neste povo, era o ódio a tudo e a todos que não fossem de origem judaica. O povo de Israel não percebia, ou não aceitava, que a bênção de Abraão, da qual tanto se gloriavam, era uma bênção que incluía todas as nações da terra (Gn 12.1-3).

Neste instante é necessário que façamos uma pausa em nossa análise das palavras de Jesus para fazermos uma reflexão acerca da atuação da igreja. O povo de Israel falhou por não aceitar o mandamento de amar aqueles que eles definiam como seus inimigos: Os estrangeiros. Aqueles que não pertenciam a etnia judaica. E a igreja, tem amado aqueles que não fazem parte do seu rol de membros? Ou tem reservado seu “amor” apenas àqueles que são membros? Ou pior, do que isso, a igreja tem amado àqueles que não a amam? Ou somente tem amado àqueles que a amam? Muitas vezes tenho ouvido justificativas para a falta de ação da igreja em favor dos que não fazem parte do seu rol de membros, como se eles não tivessem nada a receber da igreja. Ou, então, como se as pessoas para serem amadas e cuidadas pela igreja, tivessem primeiro que se tornar membros da comunidade eclesiástica, para depois serem amadas. Quantas vezes já ouvi a famosa desculpa: Fulano quer a bênção, mas não quer o dono da bênção, e, é por isso que não podemos fazer nada por ele. Israel perdeu sua oportunidade como nação teocrática por não assumir sua responsabilidade de ser canal das bênçãos de Deus às nações ao seu redor, e, hoje, com tristeza, vemos que muitas igrejas locais vivem apenas para si mesmas, e por isso estão perdendo a oportunidade de manifestar o amor e o poder de Deus, àqueles que estão ao seu redor. Muitas destas comunidades locais estão definhando e muitas já morreram. Inúmeros templos estão a venda, em várias partes do mundo, pelo fato que as comunidades que ali se reuniam morreram, e ninguém mais frequenta aqueles templos, então as denominações a que pertencem os colocam a venda, e muitos destes templos tem se transformado em boates, lojas de departamentos e até mesquitas muçulmanas. Como teria sido diferente a história destas comunidades, se seus membros tivessem entendido que amar aqueles que estavam do lado de fora era a essência de sua missão. E, quanto a nós, temos compreendido que precisamos amar os nossos inimigos? Já chegamos a compreender a diferença entre um irmão e um inimigo? Esta pergunta é importante porque percebemos facilmente, no dia a dia, que existem pessoas que não conseguem amar nem mesmo aos seus irmãos na fé. E, pior do que isso, existem pessoas que parecem não amar nem mesmo aqueles que são seus amigos devotados. E como vemos isso? Todas as vezes que um alguém é desleal para com o próximo está manifestando a falta do amor que é exigido por Jesus.

Neste ponto precisamos perguntar: Como podemos amar os nossos inimigos? A ordem de Jesus é clara: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Precisamos reconhecer que a natureza humana destituída da graça de Deus é totalmente incapaz de obedecer a esta ordem divina. Graças a Deus, porém, que em Cristo, temos toda a graça necessária para obedecermos. O próprio Jesus nos garantiu isto (At 1.8). Isto é um privilégio que gera uma grande responsabilidade. Não temos quaisquer desculpas com que possamos nos escusar de obedecer a esta ordem. E se desobedecermos a esta ordem, isto significa que, desobedeceremos ao segundo maior de todos os mandamentos, e se desobedecermos ao segundo, isto implica no fato de desobedecermos também ao primeiro de todos os mandamentos pois, como diz o apóstolo João: “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4.20), e o apóstolo Paulo chega mais longe ao dizer que: “… toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14). Pode parecer surpreendente que o apóstolo Paulo resuma toda a lei com a citação de Lv 19.18b, que Jesus afirmou ser o segundo maior de todos os mandamentos da lei, e não com a citação do primeiro e maior de todos os mandamentos, que é amar a Deus acima de todas as coisas (Mc 12.30). Mas o que parece uma contradição, quando analisado mais atentamente, logo se torna compreensível, a luz do ensino do apóstolo João, no verso citado acima. O amor ao próximo é a única evidência verdadeira do amor a Deus. Só aqueles que verdadeiramente amam ao próximo, realmente, amam a Deus. Aqueles que afirmam amar a Deus, mas não demonstram amor ao próximo estão mentindo, enganando a si mesmos. Então, precisamos avaliar os nossos corações com sinceridade. Estamos amando os nossos inimigos? Se não estamos, por que não? Normalmente a resposta a esta última pergunta é uma só. O egoísmo, cultivado como uma virtude, dentro de nós. Para amarmos os nossos inimigos temos que vencer a tentação de nos justificar a partir das nossas emoções. Nos sentimos atacados, intimidados ou ofendidos, e, a partir disso, julgamos que podemos nos justificar por não amar os nossos inimigos. A verdade, porém, é que não podemos. Deus não aceita nenhuma de nossas desculpas. Sua ordem é clara: “Amai os vossos inimigos”.

Para conseguirmos amar aos nossos inimigos precisamos compreender que nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra forças espirituais poderosas (Ef 6.12), das quais nossos inimigos são apenas vítimas. Precisamos vê-los como pessoas que, ainda que inconscientes do fato, estão sob a influência dos espíritos malignos, e que suas eventuais ações contra nós são instigadas por eles (1 Jo 5.19). Estas pessoas não tem esperança de salvação. Estão afastadas de Deus e dependem de nós para que venham a ser libertas, possam conhecer a Cristo e receber a salvação através da fé em Jesus (Rm 6.23). Só quando deixamos de nos ver como intocáveis, quando aceitarmos que não somos o centro do universo, e que não merecemos nenhum tratamento especial, poderemos ver tais pessoas pelo prisma através do qual o Senhor Jesus as vê: Seres humanos necessitados da graça de Deus.

Neste ponto é importante observar que amar não significa gostar. É perfeitamente lícito não gostar daqueles que não gostam de nós. E logicamente não precisamos gostar dos nossos inimigos. Em que, portanto, consiste o amor aos nossos inimigos? O apóstolo Paulo nos ajuda a compreender isto quando orienta a igreja romana acerca da necessidade de amar, ele diz: “… se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.20-21). Esta orientação nos esclarece acerca do significado do amor aos inimigos. Amar aos inimigos não é diferente de amar aos amigos. Amar significa fazer o bem. Se temos um irmão com fome naturalmente somos inclinados a socorrê-lo dando-lhe de comer. Se vemos um filho com sede, por amor, naturalmente somos inclinados a dar-lhe de beber. Amar aos inimigos é fazer exatamente a mesma coisa, mesmo que no caso destes, não esteja presente o ato de gostar.

A segunda ordem de Jesus tem a ver com a necessidade espiritual dos nossos inimigos. Ele ordena: “orai pelos que vos perseguem”. A oração é a única arma espiritual que podemos utilizar na batalha contra as forças espirituais que dominam aqueles que nos atacam. É inútil lutar no plano físico se no plano espiritual estivermos indolentes. As batalhas terrenas são vencidas ou perdidas no plano espiritual. Se orarmos pelos que nos perseguem, se pedirmos com insistência ao Senhor da igreja que os liberte das garras dos nossos verdadeiros inimigos espirituais, estaremos nos tornando verdadeiros filhos de Deus.

Aqui parece haver uma contradição no ensino de Jesus. Ele nos diz: “para que vos torneis filhos de vosso Pai celeste”. Poderíamos perguntar: Já não nos tornamos filhos de Deus quando cremos? O apóstolo João não ensinou que: “… a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12). Queridos, quero dizer que a contradição é apenas aparente. É verdade que, quando cremos, nos tornamos filhos de Deus. Isto do ponto de vista legal. Ao crermos em Jesus, e reconhecê-lo como Senhor de nossas vidas, fomos legalmente justificados diante de Deus (Rm 5.1; Rm 8.1). A partir deste momento somos legalmente seus filhos. Mas após a conversão, em um primeiro momento, continuamos a ser pecadores totalmente a merce do poder do pecado que habita em nós. A justificação é a primeira fase da obra do Espírito Santo em nós. Ele nos convenceu do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), e quando nos arrependemos, e depositamos fé em Jesus como Senhor de nossas vidas, fomos salvos. Fomos libertos da culpa do pecado. Neste momento nos tornamos, legalmente, filhos de Deus. A obra do Espírito Santo em nós, porém, não termina com a justificação. Imediatamente, após a nossa justificação, Ele inicia a obra da santificação, que é a obra através da qual o Senhor Jesus vai, pouco a pouco, nos libertando do poder do pecado. Santificar-se nada mais é do que obedecer a vontade de Deus, ou seja, obedecer aos seus mandamentos. É por esta razão que Jesus não nega que já somos filhos de Deus, pelo contrário, ele diz que o objetivo é nos tornar filhos de nosso Pai celeste. Observe que o Pai celeste já é nosso. Apesar disto devemos obedecer a ordem de amar aos nossos inimigos o orar pelos que nos perseguem para que nos tornemos filhos de nosso Pai celeste. Como assim? Simples. Já somos filhos de Deus do ponto de vista judicial. Agora devemos nos tornar filhos de Deus do ponto de vista moral. A palavra grega (ginomai), aqui traduzida como “vos torneis” significa, vir a existência, começar a ser, receber a vida, erguer-se, aparecer na história, aparecer no cenário. Ou seja, aquilo que é real do ponto de vista legal, agora deve começar a ser real do ponto de vista moral, precisa vir a existência, precisa aparecer na história, precisa se tornar visível no cenário da existência humana. Os filhos devem refletir o caráter do Pai. É por isso que o Senhor Jesus nos dá o exemplo da ação do Pai como padrão a ser seguido: “… Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”. Deus, o Pai, apesar de não ser amado por muitas pessoas, e até mesmo, apesar de ser odiado por tantos outros, abençoa tanto os que o amam como aqueles que não o amam. Ele quer e espera que seu exemplo seja seguido por nós. É a este, tornar-se filhos de nosso Pai celeste, que o apóstolo Paulo se refere quando diz aos irmãos de Filipos: “... desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor” (Fp 2.12c). Se a primeira parte da obra que o Espírito Santo realiza em nós foi efetivamente realizada, certamente ele realizará a segunda parte também (Fp 1.6). Isto significa que todos os verdadeiros crentes estão ou serão capacitados a amar os seus inimigos e orar pelos que os perseguem. Se falharmos nestes deveres e não nos sentirmos em falta diante de Deus, isto é sinal de que alguma coisa está errada com nossa profissão de fé.

Jesus termina esta passagem dizendo: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”. Aqui precisamos perguntar: Que perfeição é esta que Jesus exige de nós? Certamente não é a perfeição moral, nem espiritual, pois, neste caso nenhum de nós jamais conseguiria obedecê-lo. O apóstolo Paulo mesmo lutava contra suas imperfeições e nos deixou seu testemunho a respeito (Rm 7.15-20). A palavra teleios, aqui traduzida como perfeitos tem o sentido de algo que é levado ao seu fim, finalizado, que não carece de nada necessário para estar completo. Ou seja, durante esta vida, perfeito, diante de Deus é aquele que cumpre o propósito para o qual foi criado. Ou seja, nos tornamos perfeitos quando nós imitamos a Deus (Ef 5.1-2), e vivemos segundo os propósitos para os quais fomos salvos. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.


Quero finalizar esta mensagem lembrando que, se, por um lado o apóstolo Paulo diz que todo o conteúdo da lei se cumpre no ato de amar ao próximo como a si mesmo (Gl 5.14), o Senhor Jesus nos informa que seremos julgados, não pelo cumprimento do primeiro e maior dos mandamentos, mas, pelo cumprimento ou não, do segundo (Mt 25.31-46). O amor ao próximo se manifesta em ações que demonstram o cuidado de Deus pelo ser humano em suas necessidades diárias, e Jesus nos ensina que próximo é qualquer pessoa que esteja necessitada ao nosso redor, mesmo que este seja um inimigo (Lc 10.29-37). Por isso não há qualquer desculpa para deixarmos de amar quem quer que seja. Amor é um substantivo, porém, amar é verbo, ação. Os critérios que Jesus estabelece para julgar a fé dos que se dizem cristãos, com vistas a admissão no reino eterno, são tão simples que ninguém poderá alegar falta de condições para cumpri-los. Um prato de comida para alguém faminto; um copo de água para um sedento; uma muda de roupa para alguém que esteja nu; uma visita para um enfermo ou preso; uma atitude de hospitalidade para com um estrangeiro. Aqui precisamos dar uma palavra de esclarecimento. Jesus não está dizendo que se alguém realizar cada uma destas ações algumas vezes ao longo da vida estará salvo. Ele está dizendo que o estilo de vida dos que serão salvos, se caracterizou pelo socorro aos necessitados deste mundo, bem como que, o estilo de vida dos não salvos, se caracterizou pela indiferença a dor e aos sofrimentos dos mesmos necessitados. Ou seja, que o estilo de vida dos salvos se caracterizou pela obediência visível ao segundo grande mandamento, sendo evidência de uma fé genuína. Quero finalizar com algumas perguntas: Quando o dia do grande julgamento chegar, de que lado você acha que estará? Do lado direito ou do lado esquerdo? Com base em que você tem esta opinião? Você já reparou que, na lista de Jesus, não há nada daquilo que fazemos quando estamos reunidos para celebrar a Deus? Não há nesta lista nada que nós fazemos normalmente dentro do templo? Você percebeu que Jesus não diz que alguém poderá ser salvo por cantar louvores? Ou por frequentar os cultos? Ou por ter feito profissão de fé? Ou por pregar mensagens? Caso alguma destas perguntas o tenha deixado preocupado, o que você pode fazer a partir de hoje, para ter a certeza de que estará do lado direito de Jesus? Queridos, a pior de todas as atitudes que poderíamos ter, é ignorar a voz do Senhor. Temos o dever de amar os nossos inimigos porque eles são tão próximos quanto quaisquer outras pessoas de nossas relações pessoais. Se tivermos dificuldades para obedecer a estas ordens, nos humilhemos diante de Deus, confessemos nossas fraquezas e busquemos no Senhor a força necessária para obedecermos. Que Deus nos abençoe, e nos capacite a viver de tal forma que nossas vidas o glorifiquem de fato. Amém.

Que faremos para realizar aos obras de Deus?

 “Que faremos para realizar as obras de Deus? Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado.”Jo 6.28b-29

Depois de terem comido os pães e peixes que Jesus tinha multiplicado, a multidão ficara maravilhada. Nunca alguém havia alimentado uma multidão com mais de cinco mil homens, fora as mulheres e crianças, com apenas cinco pães e dois peixinhos (Jo 6.1-15). Realmente, fora um milagre extraordinário, sem precedentes na história do profetismo em Israel. O deslumbramento da multidão teve dois efeitos imediatos: Muitas pessoas chegaram a conclusão que Jesus era o profeta que devia vir ao mundo (Jo 6.14); conclusão correta em parte, uma vez que Jesus realmente cumpria a profecia de Moisés (Dt 18.15), porém, equivocada no sentido de percebê-lo apenas como mais um profeta. Eles o viam como uma pessoa que seria capaz de cumprir todas as suas expectativas messiânicas. Esta percepção levou a multidão ao segundo equívoco: Eles resolveram arrebatá-lo com o intuito de proclamá-lo rei. Naquele momento de euforia a multidão não conseguia entender que a realeza de Jesus, associada à sua encarnação, era espiritual e não política. Embora Jesus tenha aceitado o título de rei (Jo 1.49), ele já havia rejeitado a oferta de satanás (Mt 4.8-9 e Lc 4.5-6), e agora, conhecedor das intenções do povo, o Senhor retirou-se sozinho para o monte (Jo 6.15).

Durante a noite, o Senhor Jesus e seus discípulos atravessaram o lago, e chegaram a Cafarnaum onde a multidão o procura e o encontra no dia seguinte. Ao encontrar-se com Jesus, os líderes da multidão perguntam-lhe como ele chegara ali. Jesus ignora a pergunta e responde com uma afirmação que desmascarava seus propósitos meramente utilitaristas. Ele lhes diz: “Vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o filho do homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (Jo 6.26-27). Esta afirmativa de Jesus expõe o coração e as intenções da multidão. Primeiro, Jesus afirma que eles não haviam visto no sinal realizado a sua identificação com o Messias prometido, o que nos revela que a percepção que tiveram dele como o profeta que devia vir ao mundo, era uma percepção equivocada, eles esperavam um messias diferente do tipo de Messias que Ele estava disposto a ser, e em segundo lugar, suas expectativas eram carnais; eles procuravam apenas a oportunidade de ganhar uma nova refeição gratuita.

Neste ponto, é interessante pararmos para fazermos uma breve reflexão. Que tipo de alimento as multidões modernas, que lotam templos onde Jesus é anunciado, todos os dias, estão procurando? A comida que perece, ou aquela que subsiste para a vida eterna? E, quanto a nós, o que viemos buscar hoje, neste templo? O que pretendemos levar daqui, ao final desta celebração? Uma bênção material ou uma bênção espiritual? Já entendemos que Jesus Cristo de Nazaré é a maior riqueza que podemos ter? Que ele é a pérola de grande valor (Mt 13.46)? O tesouro escondido no campo (Mt 13.44)? Ou ainda estamos como muitos, pensando que ele é um Deus ansioso para nos fazer felizes, e possuidor de riquezas das quais podemos nos apossar através da fé?

Voltemos nossos pensamentos uma vez mais a cena de Cafarnaum. Confrontados por Jesus, aqueles homens lhe perguntam: “Que faremos para realizar as obras de Deus” (Jo 6.28)? Ao que Jesus lhes responde: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado” (Jo 6.29). Esta resposta, analisada a partir do conhecimento do Novo Testamento não deve nos surpreender, mas certamente surpreendeu os interlocutores de Jesus. Com suas palavras ele deixa claro aos seus questionadores que, em se tratando da realização da obra de Deus, o foco não está nos homens mas em Deus.

Quando examinamos as palavras e as atitudes de Jesus, no diálogo que se segue (vv. 30-65), duas verdades saltam aos olhos. A primeira destas verdades é que a obra de Deus é realizada pelo próprio Deus, e a segunda é que a obra de Deus é realizada principalmente em nós, e não apenas, através de nós. Por mais incapaz que a multidão fosse para perceber que estava diante do próprio Deus encarnado, e que Ele estava ali realizando sua obra, isto não mudava os fatos. A obra de Deus era levá-los a crer, sustentá-los na fé, alimentá-los em sua jornada espiritual e prover meios para que alcançassem a vida eterna e, por fim, ressuscitá-los no último dia. Esta é a descrição da obra de Deus, e basta uma análise superficial da mesma, para perceber que destituídos da graça de Deus, jamais poderíamos realizar sequer, a parte que nos cabe. Só Deus pode realizar a obra de Deus! E isto porque esta é uma obra espiritual desde o seu início. O apóstolo Pedro nos informa que o sangue de Jesus, através do qual nossos pecados são perdoados, já era conhecido antes da fundação do mundo (1 Pe 1.18-20), e o apóstolo João nos diz que Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29) foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). E Jesus, afirma que nos ressuscitará no último dia (Jo 6.39-40,44,54). Estas palavras nos mostram que os limites da obra de Deus estão aquém e além de nós. A obra redentora de Deus se inicia antes da criação do ser humano e terminará após o fim da história humana. É uma obra que, diferentemente da ênfase individualista que se vê nos dias de hoje, tem um caráter comunitário. Os escritores do Novo Testamento utilizam várias metáforas para se referir àquilo que Deus está realizando na história humana e a que Jesus se referiu como a obra de edificação de sua igreja, e muitas destas metáforas ressaltam seu caráter comunitário. Nas palavras de Jesus, a igreja constitui os ramos da videira verdadeira, para Paulo ela é um corpo constituído de muitos membros (1 Co 12) e nesta condição, segundo João, ela é a Noiva e a Esposa do Cordeiro (Ap 21.9). Todas estas são lindas metáforas. Uma das mais belas, porém, encontra-se no texto de Paulo aos Efésios 2.18-22, nesta passagem a igreja é descrita como a família de Deus, é também um edifício que está sendo edificado para ser santuário dedicado ao Senhor, no qual todos nós estamos sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. Note-se que esta é uma obra de caráter comunitário. Toda a Trindade está envolvida na realização da obra de Deus.

A segunda verdade revelada por Jesus aos seus ouvintes é que, diferentemente daquilo que eles pensavam, a obra de Deus é realizada em nós e não somente através de nós. É um equívoco pensar que as coisas que fazemos na igreja, ou através da igreja, ou ainda, em nome da igreja, seja “a obra de Deus”. A obra de Deus é realizada por Deus, e se realiza primeiramente em nós. Havia uma parte da obra de Deus que precisava ser realizada fora de nós. No caminho do Redentor havia a cruz. A cruz não foi um acidente de percurso, não aconteceu por alguma falha no projeto original de Deus, como alguns já postularam, ao contrário, de acordo com o ensino do apóstolo Pedro, a nossa redenção através do derramamento do sangue precioso de Jesus já era conhecida antes da fundação do mundo (1 Pe 1.18-20) e, conforme já foi dito acima, de acordo com o apóstolo João, Jesus, o Cordeiro precioso, que tira o pecado do mundo, foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). A obra divina de redenção, através do sacrifício vicário do Messias, foi realizada por Jesus, na cruz, portanto, fora de nós. Desde então a obra de Deus é realizada, principalmente, dentro de nós, através da aplicação que o Espírito Santo realiza em nossos corações, dos benefícios espirituais conquistados por Jesus, na cruz. Ele primeiro nos convence do pecado, do juizo e da justiça (Jo 16.18), depois nos capacita ao arrependimento e nos concede a fé, como um dom (Ef 2.8-9), que nos permite responder positivamente ao seu chamado e crer em Jesus como Senhor de nossas vidas. Quanto isto acontece, ele se torna o nosso Salvador. Está é uma obra do Espírito, que envolve as três áreas da psique humana. Somos racionalmente convencidos do fato de sermos pecadores. A partir disto entendemos que temos culpa diante de Deus e que está culpa nos faz dignos de condenação eterna. Em seguida o Espírito age em nossas emoções. Ao entendermos a gravidade do pecado, e nossa completa incapacidade para vencê-lo, nos entristecemos e desejamos ardentemente o perdão de Deus. Finalmente, o Espírito age no âmbito das nossas volições ou seja, em nossa vontade, e arrependidos, tomamos a decisão de viver uma vida que agrade a Deus. Quando nos arrependemos e cremos, somos salvos, somos justificados diante de Deus pela fé no seu filho. Ao sermos salvos, somos libertos da culpa do pecado, somos justificados. É a isto que Paulo se refere quando diz que: “Justificados, pois, pela fé em Cristo Jesus, temos paz com Deus” (Rm 5.1), e, “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Como já disse, esta é uma obra de transformação do estado de nossa condição espiritual. Nossa condição espiritual muda de pecadores condenados para a condição de pecadores perdoados. Quero enfatizar que continuamos sendo pecadores. O que mudou ao final desta fase da obra de Deus em nós foi a nossa condição, não o nosso caráter. Antes eramos pecadores perdidos, agora somos pecadores salvos. Nesta fase fomos libertos da culpa do pecado. Isto é o que significa o ensino de Paulo quando diz que: “Ele (Jesus) se fez maldição por nós para que fossemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5.1 e Gl 3.13). Esta fase da obra de Deus em nós é chamada de justificação. É um ato único de Deus, realizado uma única vez, de uma vez por todas, através do qual, Deus atribui a cada pecador arrependido, a justiça de Cristo (Rm 4.11).

Imediatamente após a justificação, o Espírito Santo inicia a segunda parte da sua obra em nós. Esta é uma obra de transformação moral. É a obra da santificação. No que diz respeito ao pecado, a diferença essencial entre a obra de justificação e a obra da santificação realizadas pelo Espírito em nós, é que na primeira o pecador remido é liberto da culpa do pecado, e na segunda, ele vai sendo, pouco a pouco, liberto do poder do pecado. Esta segunda fase da obra de Deus em nós só terminará quando o Senhor nos chamar à sua presença. Enquanto estivermos neste mundo ela continua sendo realizada. É a esta etapa da obra de Deus que o apóstolo Paulo se refere quando diz aos Filipenses: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). Neste ponto é importante entendermos que nesta etapa da obra de Deus em nós tanto se podem ver os sinais de confirmação da fé genuína, quanto os sinais da falsa fé daqueles que estão na igreja, mas, de fato, não pertencem a ela. E o processo é simples. Jesus nos indicou uma forma segura de avaliação: o exame da qualidade das obras, ou, para utilizar a mesma metáfora do Mestre, dos frutos. De acordo com Jesus uma árvore boa (crente verdadeiro) produz bons frutos, enquanto que uma árvore má (falso crente) produzirá frutos ruins (Mt 7.17-18; Mt 12.33; Lc 6.43). Isto significa que, a longo prazo, todo aquele que verdadeiramente nasceu de novo (Jo 3.3,5-8,16), terá seu caráter transformado para melhor, e esta transformação se manifestará através de suas atitudes e suas ações. Haverá mudanças positivas em seus valores, em sua maneira de falar, de pensar e de agir em relação aqueles com quem convive diariamente. Ou seja, o fato de alguém se tornar nova criatura (2 Co 5.17), não tem como ser ocultado dos que estão a sua volta, as mudanças serão notadas, ainda que as pessoas não conheçam o motivo das mesmas. Não há nenhuma possibilidade de um verdadeiro convertido continuar prazerosamente na prática de um estilo de vida pecaminoso (1 Jo 3.6). E, isto, porque, embora continuemos sendo pecadores, o verdadeiro convertido não tem mais prazer no pecado, antes o lamenta e por isso luta contra as tentações e recebe poder para vencê-las (Rm 7.24;1 Co 10.13). Como já mencionado anteriormente, nesta fase da obra de Deus em nós, somos libertos do poder do pecado, e cada vez mais recebemos capacidade para viver uma vida que honre a vocação que recebemos de Deus em Cristo Jesus. É por esta razão que o escritor da epístola aos Hebreus solenemente exorta: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Neste momento é importante esclarecer uma dúvida comum a muitas pessoas sinceras, que, ao lerem este versículo, chegam a pensar que o Senhor está ameaçando os seus filhos, dizendo que se eles não se santificarem, perderão a salvação. Não é este o caso. Os salvos não perdem a salvação (Jo 6.37). O que está sendo ensinado nesta passagem é que a busca da paz e da santificação é uma atitude natural para os verdadeiros filhos de Deus. Se alguém não sente anseios pela paz e pela santificação, isto é sinal de que não houve uma verdadeira conversão. Neste caso, tal pessoa deve avaliar seriamente porque esta frequentando a igreja, e com base em que está pensando que é salva. Vou esclarecer este ponto. De acordo com a revelação de Deus, a obra de Deus é inteiramente realizada por Deus, ela começa com a eleição e termina com a glorificação dos eleitos, somos predestinados para sermos conformes à imagem de Jesus (portanto, santos), justificados e glorificados (Rm 8.28,29), ou seja, todo o processo de redenção é realização da trindade santa, e é infalível. Dito de outra forma, naqueles em quem faltar a característica da santificação como obra de Deus, isto significa que também falta a característica da justificação. Vou esclarecer um pouco mais este ponto. Dentro da economia da salvação, o Espírito Santo é aquela pessoa que aplica em nós os benefícios da obra redentora que Jesus Cristo realizou na cruz, e sua ação é de caráter irresistível na vida dos eleitos de Deus. Jamais falha, portanto, se na vida de alguém que já está há vários anos dentro de uma comunidade eclesiástica qualquer, falta a realização da segunda parte da obra de Deus em nós, isto significa que Ele não a realizou, e, se Ele não realizou a segunda parte de sua obra, isto é um sinal inequívoco de que também não realizou a primeira. Resumindo: Se após vários anos de experiência cristã a pessoa não é santificada pela ação do Espírito, isto quer dizer que também não foi justificada pela ação do mesmo Espírito. Resumindo mais ainda: Se não é santo, também não é salvo.

A terceira fase da obra de Deus em nós não se realizará nesta fase de nossa existência. Esta terceira fase se realizará na eternidade, após a ressurreição, e se chama glorificação. Nesta fase receberemos um novo corpo, um novo nome, e seremos salvos da presença do pecado. Não trataremos deste assunto neste momento porque isto fugiria aos propósitos desta reflexão. Neste momento queremos considerar nossas responsabilidades diante dos imensos privilégios que já nos foram concedidos pela realização da obra de Deus em nós.

Neste momento precisamos considerar o seguinte fato. Deus realiza a sua obra em nós e uma vez que ele nos alcançou com sua graça, ele quer realizá-la também através de nós. Se, por um lado, o apóstolo Paulo deixa claro que ninguém será salvo através da prática de boas obras (Gl 2.16; 3.10; Rm 3.20) por outro, o apóstolo Tiago nos ensina que a fé sem obras é morta (Tg 2.26), e que o único meio que ele conhecia através do qual poderia mostrar a sua fé aos outros era através das suas obras (Tg 2.18).

Ora, cabe então perguntar, se Deus realiza a sua obra em nós, e se ele quer realizá-la também através de nós, qual o papel que nos cabe no plano redentor de Deus? Como devemos participar legitimamente da realização desta obra? O apóstolo Paulo nos diz que: “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Ou seja, mesmo as boas obras que porventura venhamos a praticar, foram preparadas antecipadamente, por Deus, para que nós andássemos nelas, portanto, a origem das mesmas é divina. O apóstolo Paulo, falando a respeito de seu ministério chega a dizer: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1 Co 15.10). Com estas palavras, o apóstolo está querendo dizer que reconhecia que, apesar de todo o seu esforço, os frutos obtidos eram obra da graça de Deus agindo em sua vida. Suas boas obras ainda que realizadas por meio de sua instrumentalidade eram, no fim, obra da graça de Deus em sua vida. Ou seja, seu papel era o de um colaborador daquele que de fato realiza a sua obra (2 Co 6.1). É importante, porém, definirmos o que, em si, é uma boa obra. Nem tudo o que os cristãos fazem pode ser indiscriminadamente classificado como uma boa obra. Como podemos definir uma boa obra? Podemos compreender a diferença entre uma obra comum ou ruim e uma boa obra a partir da ordem dada por Jesus a seus discípulos, no Sermão do Monte. Jesus lhes disse:' Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.16). Este versículo nos permite entender que o que define uma determinada obra como boa. Em primeiro lugar uma boa obra é algo que é realizado em obediência a vontade de Deus, e também e como resultado, promove a glória de Deus. Quando determinada ação humana, em obediência a uma ordem divina, produz como resultado o fato dos homens que a observam glorificarem ao Pai que está nos céus, então esta determinada ação pode ser definida como uma boa obra. É por isso que o Senhor chega a dizer que qualquer um que der um simples copo de água a alguém, por ser seu discípulo, de maneira alguma perderá o seu galardão (Mt 10.42; Mc 9.41). Se, por sermos discípulos, damos um copo de água a um necessitado por amor a Cristo, isto é uma boa obra e receberá galardão, mas nem todo copo de água que é dado por ai é um gesto de amor de um discípulo, nem é feito em nome de Jesus, e, tampouco resulta em glória para Deus, por isso, nem toda oferta de copo de água é uma boa obra. Por exemplo, em Volta Redonda, em algumas das festas que são realizadas pela prefeitura, na Praça Brasil, funcionários uniformizados distribuem copos de água gratuitamente à população. É uma ação política, boa em si mesma, porém, produz votos para as autoridades políticas que o praticam e não produz glória para Deus. Neste caso, portanto, não é uma boa obra do ponto de vista do Senhor Jesus. Recentemente, fui informado por um amigo, que é pastor e também funcionário da prefeitura de uma cidade próxima, que celebrou o aniversário da cidade com um grande show gospel, que ele havia conversado com um dos cantores contratados para informar-se sobre as condições para o mesmo apresentar-se em sua igreja. Diante do valor astronômico da proposta apresentada, ele… desistiu. Um outro amigo contatou uma cantora gospel muito famosa, com vistas a participação da mesma no culto em ação de graças em comemoração ao aniversário de sua igreja. A referida cantora enviou-lhe o plano de palco que ela exigia para suas apresentações e, ao vê-lo, ele desistiu pois o palco exigido pela Diva em questão era bem maior que o templo de sua pequena igreja. Queridos, não quero aqui colocar em dúvida a conversão de ninguém, mas me atrevo a dizer que estas pessoas que, em seus shows afirmam fazer a obra de Deus, realmente estão equivocadas, seus shows, que são pagos a preços compatíveis com os de qualquer cantor famoso da MPB, ou do universo sertanejo, não realizam a obra de Deus. Não podem nem mesmo ser caracterizados como boas obras pois, nestes, Deus não recebe glória, e sim, eles próprios, além do pagamento dos referidos cachês. O Senhor Jesus, quando fala acerca do grande julgamento da humanidade, o faz de forma a demonstrar que a fé que alegamos possuir será julgada a partir das obras realizadas por cada um de nós. Isto serve como um alerta. Jesus não diz que naquele dia dirá: “Vinde, benditos de meu Pai, porque vocês frequentaram a igreja; nem tampouco, vinde, benditos de meu Pai, porque vocês cantaram louvores”. Ele dirá: “Vinde, benditos do meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me” (Mt 25.34-36). Se continuarmos a ler o restante do capítulo até seu último versículo, descobriremos que Jesus afirma que, cada um dos salvos realizou esta boa obra em seu benefício quando a realizou em benefício de qualquer um dos seus pequeninos irmãos. E que, aqueles que forem condenados, deixaram de realizá-la quando deixaram de atender a estes mesmos pequeninos.

Queridos, temos uma obra a realizar, que é de nossa inteira responsabilidade. Recebemos um mandato missionário (Mt 28.18-20); e juntamente com o segundo grande mandamento (Mc 12.31), recebemos também um mandato diaconal; recebemos uma provisão de poder que nos capacita a realizar nossas tarefas (At 1.8); e recebemos a informação de que nossa fé será julgada a partir de nosso engajamento na realização das tarefas que Deus nos confiou (Mt 25.31-46). Esta obra é de nossa inteira responsabilidade, e precisamos nos dispor a realizá-la, sabendo que nada conseguiremos se a graça de Deus não a realizar através dos nossos esforços (Jo 15.5c; 1 Co 15.10). Nesta obra está incluída nossa responsabilidade como testemunhas de Cristo (At 1.8), e nossa responsabilidade como cuidadores daqueles que são de Cristo (Mt 25.34-36).

O apóstolo João nos informa que, ao final daquele encontro em Cafarnaum: “Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir”? E, “À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele” (Jo 6. 60, 66). Esta reação da multidão é surpreendente. Eles perguntaram o que deviam fazer para realizar as obras de Deus e quando compreenderam o que tinham de fazer, simplesmente demonstraram não estar interessados. Muitos nos dias de hoje se parecem com aquela multidão. Alardeiam que estão realizando a obra de Deus, mas por seus frutos podemos perceber que não estão realizando as boas obras que tinham a obrigação de realizar. Isto é fácil constatar. Mas neste momento cumpre-nos fazer uma avaliação honesta quanto a nossa própria atuação. Quando chegar o dia do grande julgamento, Jesus poderá dizer-nos que o alimentamos quando ele estava faminto, que o vestimos quando ele estava nu, que o visitamos quando estava enfermo, que o hospedamos quando ele era um forasteiro e que fomos vê-lo quando estava preso? Será que ao pensarmos nestes deveres nos sentimos como a multidão, achando que o discurso de Jesus é excessivamente duro. Que Deus nos conceda a graça de termos em nossos corações o mesmo sentimento que havia no coração de Pedro que, quando foi confrontado com a possibilidade de seguir a multidão, exclamou: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6.68). Amém.